A boa menina
O velho já conhecia aquele barulho de alguém escorregando pelo seu lado do muro; era a menina, meio moleca, meio princesa. A filha da vizinha. A moça de vestido vermelho, florido e rodado, que outra vez buscava abrigo por ali. Era para lá que ela corria pra contar suas histórias e ouvir do velho sobre seu mundo, seu tempo. Um tempo que escorria pelas folhas amarelas do seu calendário de parede e era ilustrado nas fotos embaçadas, tal como uma lembrança.
A menina arregalava seus grandes olhos, com a saia amarrotada entre as coxas e o cabelo preso para trás. E sorria, pedindo licença, ao entrar nas memórias daquele velho. Ele gostava da companhia da menina e da forma como ela lhe segurava as mãos pretas e lhe olhava os olhos, atravessando-lhe e entrando para o lado de dentro de seus pensamentos. Lá onde só ele vivia. Lá, ela passeava correndo, como se estivesse à beira mar sendo assoprada por Deus. E divertia-se com suas histórias de amor pela velha esposa. Um amor tão devoto, como uma promessa feita à um santo. Um juramento que ele mantinha até aquele dia. Mas seu coração sangrava e a menina percebeu. Sua mulher, seu benzinho, estava partindo. A cada dia uma lembrança se apagava, como se fosse uma vela a menos a alumiar. E o encontro na praça apagou. E o pedido no altar, apagou. E o passeio na praia, apagou. E cada memória da velha ia apagando até que ela já nem reconhecia mais o velho ao seu lado na cama.
Ele não suportava tanta dor e numa manhã, após um choro sem lágrimas e sem som, abriu sua boca de jacaré. Parecia querer engolir o mundo inteiro, mas ele queria mesmo era deixar seu fôlego voar tudo de uma vez. E ele apagou, esfriou e gelou. Tiveram que plantá-lo pra florescer em outro lugar. Daí sua mulher lembrou do seu benzinho. E quis virar árvore junto de seu amor também.
A menina tinha visto tudo isso, mas não tinha pra quem contar. Ninguém, além dela, se importava tanto com a história por detrás daqueles olhos velhos. Ela, ao invés de fazer suas meninices por aí, via e anotava tudo no bloquinho do seu coração. Era sua sina. Ouvir histórias de gente que não tinha para quem contá-las.