CUMPLICIDADE

Ele sabia que ela era assim. E gostava. Do seu jeito atrapalhado de guiar o carro, nem se importava. Recostava a cabeça em seu ombro enquanto ela driblava o trânsito, tagarelava sobre a peça de teatro que não viu e fazia planos para os dez dias seguintes. Ele sorria, absorvendo tudo com seus ouvidos atentos. E ela sabia que havia falado muito. Que era hora de deixar a música do rádio do carro embalar, desfazer o cansaço daquela sexta.

Ela sabia que ele era assim. E gostava. Das tantas vezes que repetia para ele pagar a conta e ele esquecia. Ou de como ele preferia o velho rock dos anos 1980 ao invés dessa baboseira blasé de música francesa. Que preferia assistir os filmes americanos da América do Sul ao invés dos plásticos estadunidenses ou até mesmo os europeus. Que nem ligava pra carros, comprava os usados mesmo, e gostava de andar de ônibus. Às vezes saia com ele, num sábado à tarde. Embarcavam no ônibus que cruzava a zona Oeste até a Leste. Subiam no banco mais alto e olhavam a cidade, as pessoas e seus jeitos. E curtiam tudo.

Ele nunca fez muitas perguntas. Ela também não perguntava tanto assim; ele era calado, mas ela o entendia. E sabia que aquele projeto dele não deu certo. E, sem se importar com os pormenores, segurava em seu ombro caído e o chamava para um passeio pela Paulista de bicicleta. E ele sabia também quando ela estava triste. Sabia os motivos, antes que ela dissesse. Sabia até mais que ela. E a levava para comer comida chinesa, mesmo ele não gostando. E compensava o esforço com um sorvete de sobremesa, cheio de pastilhas coloridas de chocolate.

Faziam expedições pela cidade. Iam ao Centro de Tradições Nordestinas, forrozeavam até as pernas bambearem. Riam do jeito estranho que dançavam. Ele contava, orgulhoso, que seu avô era nordestino e dominava o xaxado. Ela ria, não acreditando. E ele ria também.

Ele gostava do jeito dela. E de como ela sonhava conhecer Havana e não Miami. Quem sabe morar na iIha antes que o Mc Donald’s chegasse por lá, deixando todo mudo obeso. Ou os carros coloridos fossem substituídos por poderosas SUVs e as noites fossem dominadas por músicas eletrônicas. Ria quando ela jurava que seu sonho era cruzar a América de moto, tal como fez o estudante de medicina Ernesto, antes de se tornar o Che Guevara. E ela ria do riso dele. Eles riam e choravam juntos coisas que existiam e que não existiam. Não importava. Bastava, neles, existir.