PODERIA SER DIFERENTE
O pneu estourou na estrada depois de fatigar por curvas apertadas e perigosas. Após se deslumbrar com serras íngremes e cenários costeiros paradisíacos. Quando ganhou uma reta, um terreno plaino, não suportou mais. Explodiu num som seco, seguido de um zunido. Era o ar, tão comprimido, coitado, ganhando sua liberdade. Depois os ‘vlapts’ e ‘vlapts’ da borracha esborrachando-se no asfalto. No carro, toda a família assustada enquanto o velocímetro descansava no recuo de emergência. Poderia ter sido diferente nesta mesma hora, ontem. Se fosse um pouco antes, poderia ser num trecho de serra, sem acostamento. Se fosse um pouco depois, poderia ser numa velocidade maior; o carro rodopiado, voado pela estrada desfazendo vidas, sonhos e prazos de trabalhos ainda não entregues. Mas como canta o Arnaldo Antunes, ‘que não é o que não pode ser que não é’, não é mesmo?
Talvez a vida seja um quê disso. Do que poderia ser. Do que poderia ser diferente, dez, quinze anos antes. Poderia ser diferente, talvez, naquela esquina, naquele hospital ou igreja. Mas não foi e é o que é. É a partir do que é. Poderia ser diferente, mas valeu a parada emergencial em Guararema. E valeu prosear com o Mauricio, dono da loja de acessórios automotivos e da borracharia que resolveu meu drama existencial. Ele mesmo, podia ter se dado bem no ABC, mas não deu. E foi para lá com a família viver a vida do interior. E hoje, garante, o que não deu certo, deu certo demais. Não quer outra vida. Isso até seu próximo pneu estourar, pensei. Daí é o que é e ‘bóra’ para mais uma estrada.