A Chaga do Cristianismo

“O cristianismo, identificando verdade com fé, deve ensinar — e, adequadamente compreendido, de fato o faz — que qualquer interferência à verdade é imoral. Um cristão com fé nada tem a temer dos fatos; um historiador cristão que estabelece limites para o campo de investigação, em qualquer ponto que seja, está admitindo os limites de sua fé. E, naturalmente, também destruindo a natureza de sua religião, qual seja uma revelação progressiva da verdade. Por conseguinte, o cristão, a meu ver, não deve ser impedido, nem no mais leve grau, de seguir o fio da verdade; com efeito, é, positivamente, fadado a segui-la. De fato, ele deveria ser mais livre que o não-cristão, comprometido por princípio com sua própria rejeição. Em todas as circunstâncias, procurei apresentar os fatos da história cristã do modo mais verdadeiro e mais cru de que sou capaz, deixando o resto para o leitor”.

Paul Jonhson, no prefácio da sua História do Cristianismo.

O evangelho de João diz que, depois que Cristo morreu na cruz, soldados romanos quebraram as pernas do primeiro homem que estava ao lado dele, e depois as do segundo. Quando chegaram a Jesus, decidiram, repentinamente, não quebrar suas pernas. Conta o discípulo amado (João 19:34–37): “Em vez disso, um dos soldados perfurou o lado de Jesus com uma lança, e logo saiu sangue e água. Aquele que o viu, disso deu seu testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que está dizendo a verdade, e dela testemunha para que vocês também creiam. Estas coisas aconteceram para que se cumprisse a Escritura: ‘Nenhum de seus ossos será quebrado’ e, como diz a Escritura noutro lugar: ‘Olharão para aquele que trespassarem’ “.

Como tudo na história de Cristo, cada detalhe tem um sentido simbólico intenso, que ecoa através dos tempos. João é o único dos evangelistas que afirma ter visto o cadáver de Jesus ser ferido após sua morte porque, segundo os estudiosos, dos doze apóstolos, ele teria sido o que presenciou a crucificação (é o que também afirma o seu evangelho). Portanto, esta chaga post mortem possui um significado que se traduz no movimento da História, assim como a súbita decisão de não quebrarem suas pernas. Ferem o corpo de Cristo, mas o mantêm intacto. O que isso quer dizer? Compete a nós, que estamos neste presente sombrio (como todos os presentes), avaliar o que aconteceu no passado para entender melhor este fato inusitado — e o que isso tem a ver com nossa vida cotidiana e futura.

O melhor guia para esta empreitada parece ser o livro História do Cristianismo, do historiador inglês Paul Johnson, publicado no Brasil pela editora Imago. É um catatau de 630 páginas, que abrange um escopo muito amplo — afinal, são quase dois mil anos de uma doutrina espiritual que, no fim das contas, triunfou por causa do fracasso de seu fundador, uma das maiores contradições que ninguém teve coragem de explicar até hoje. É justamente este caráter frágil e incerto que fascina os estudiosos — sejam eles ateus ou não. Johnson, no caso, não é um ateu. É um Católico Apostólico Romano, defensor do papa João Paulo II e de Margaret Thatcher, conhecido por seus pares como conservador, reacionário, extremamente culto, com uma pena afiada que faz muitos deles ficarem à distância, com medo de que possam ser a próxima vítima. Sua obra é inusitada por dois aspectos: o primeiro é que Johnson escolhe os temas mais ambiciosos, como os Estados Unidos, os Judeus ou o Século XX, e os trata com a maior elegância, numa prosa clara, fluente, sempre divertida, mas sem deixar cair no simplicismo ideológico ou na vontade de facilitar tudo para o leitor; a segunda é pela abordagem dos grandes painéis históricos por meio da psicologia dos indivíduos, explicando os fenômenos através deles, e não o contrário, o que dá um dinamismo ímpar à narrativa e também uma nova visão sobre determinadas situações, consideradas intocadas pelo público comum. Assim, Johnson mostra uma verve fora do comum, típica dos polemistas que foram seus modelos, como Samuel Johnson, Jonathan Swift, Jonh Milton e Erasmo de Roterdam, e consegue desmistificar de forma implacável sujeitos como Karl Marx (no fantástico Os Intelectuais), John Kennedy (em A History of the American People), Lênin (no fundamental Tempos Modernos, muito superior ao marxistóide A Era dos Extremos, de Hobsbawn) e Disreali (no didático História dos Judeus).

Não podia deixar de ser a mesma coisa em História do Cristianismo. Polêmica é o que não falta. Johnson chama, por exemplo, Santo Agostinho, um dos filósofos cristãos mais discutidos da Patrística, autor de Confissões, A Cidade de Deus e A Trindade, de “egoísta, egocêntrico e o inspirador das inquisições espanholas”; São Tomás Becket foi um sujeito que, apesar de ter sido canonizado, “não fez nada de muito importante” e era pouco rigoroso nas penas morais que devia impor aos seus monges; Martinho Lutero teve a idéia da predestinação enquanto estava na latrina; Pio XII era um homem com manias estranhas, como a de emprestar suas sandálias papais para enfermos, ao mesmo tempo que era um hipocondríaco feroz. E assim por diante. Numa primeira visão, parece que Johnson fez uma história de fofocas ao invés de um estudo sério sobre a passagem do cristianismo pelo tempo mundano, mas, na verdade, todos estes perfis insólitos são a marca registrada de um historiador que não tem medo de expor a fragilidade do ser humano, principalmente ao se tratar dos homens que mudaram o pensamento cristão — todos eles dotados de ampla inteligência, assim como de falhas monstruosas, que acabaram por determinar a vida de milhões de pessoas.

Infelizmente, o livro de Johnson só vai até o ano de 1975, não cobrindo o curto e polêmico papado de João Paulo I, nem de João Paulo II, o papa que, apesar de todos os obstáculos, conseguiu manter a unidade da Igreja Católica e, por conseguinte, do próprio cristianismo — e seus sucessores atribulados, como Bento XVI e Francisco. Mas esta limitação oferece também a possibilidade do leitor se distanciar do tempo presente, e andar pela tradição cristã, a única que conservou os princípios universais do espírito no lado ocidental, mesmo com a constante oposição a ela. Dessa forma, podemos entender, segundo a visão de Johnson, que quatro homens são responsáveis pela permanência do cristianismo em todos os atos do cotidiano, do maior ao menor: o apóstolo Paulo, Santo Agostinho, Erasmo de Rotterdam e Martinho Lutero (Certamente, se houvesse um apêndice sobre a época contemporânea, João Paulo II e Bento XVI seriam a quinta e a sexta pessoas).

Paulo foi o primeiro cristão puro. Sua epístola aos romanos, segundo Johnson, é o documento metafísico mais importante da humanidade, depois da Metafísica, de Aristóteles. Lá está semeada toda a doutrina da predestinação e também as reflexões do apóstolo sobre como um cristão deve se comportar frente às regras do Estado. Foi este escrito que virou de ponta-cabeça a fé de Agostinho e Lutero, por exemplo, e muitos outros. Johnson retrata Paulo no Concílio de Jerusalém, com Pedro e Lucas, expondo a verdade de Cristo tal como ele firmemente acreditava. Era um homem que tinha fé absoluta na visão que teve na estrada de Damasco, mas também era alguém para quem a parousia poderia acontecer a qualquer momento. Esta sensação perpassa seus escritos de maneira muito evidente, e é ela a principal causa das confusões que se aplica nos textos paulinos. A parousia foi transposta de uma mensagem de esperança para um comunicado apocalíptico onde apenas poucos se salvariam — deixando de lado o fundo universalista que Paulo acreditava Cristo ter deixado como legado. Mas esta contradição exposta em suas epístolas marcará toda a História do Cristianismo — ela será uma chaga em que sua vida depende dela, assim como o corpo depende da alma.

Entre Paulo e Santo Agostinho, o Cristianismo se transforma radicalmente: de símbolo passa a ser uma instituição, a Igreja Católica Apostólica Romana. Claro que a colaboração de Constantino, imperador de Roma, foi muito importante, mas o sucesso do Cristianismo, por assim dizer, se deve a três motivos: Roma, apesar de seu paganismo, era uma civilização com considerável liberdade religiosa, contanto que a tal religião não interferisse nas questões do Estado (Cristo foi um gênio da diplomacia ao dizer “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”); o Cristianismo chegou no momento certo, pois era uma resposta universalista aos anseios de todos os níveis da sociedade, dos escravos aos aristocratas, passando pelos plebeus; a filosofia cristã era a cristalização do pensamento helênico e exigia uma profundidade intelectual que atraía e assustava tanto os seus crentes, quanto seus opositores. Isto provocava um debate intelectual que tendia para a polêmica fanática, e logicamente, caía na perseguição religiosa e política da qual Roma tirou sua fama durante o seu declínio e queda.

Esta abertura intelectual permitia ao Cristianismo uma série de pensamentos divergentes sobre o mundo espiritual que deu origem a mestres como Paulo, Tertuliano, Santo Antônio e Santo Ambrósio, e aos sacerdotes do gnosticismo, talvez o grande segredo da história universal, a sombra que persegue a tradição cristã até hoje. A transformação do Cristianismo em diversas seitas que tinham suas origens na doutrina judaica, permitiu que apenas uma única fosse a representação universalista que Paulo tanto desejava — a Igreja Católica que, dividida em Roma e em Constantinopla, também se serviu dos últimos frutos do Império e, por isso mesmo, quase entrou em colapso quando este se esfacelou por completo com a invasão de Alarico.

Como se isso não bastasse, havia também as seitas pagãs e gnósticas, entre as quais o maniqueísmo e o pelagianismo, duramente combatidas por Santo Agostinho — por coincidência, um ex-maniqueu que se converteu depois de muitas agruras espirituais e muita reza de sua mãe, Santa Monica. Johnson tem uma visão negativa de Agostinho, pois ele teria sido o ideólogo da Igreja como Estado — o homem que permitiu a intromissão da autoridade espiritual nos assuntos mundanos. Sob um certo aspecto, ele está certo: Agostinho era um homem complicado, com seu espírito dilacerado entre os ensinamentos maniqueus que não conseguia purgar do seu pensamento (ver a solução dada ao problema do Mal), obcecado com a concupiscência da carne, e crente de que sua trajetória era uma prova da existência de Deus (essa era a sua intenção ao escrever Confissões — que também pode ser traduzido como O Testemunho). No entanto, foi uma das mentes mais poderosas de todos os tempos, e seu tratado de teologia civil, A Cidade De Deus, é a maior prova disso: apesar de ser un livre de circunstance, tenta desesperadamente dar sentido a todo um mundo que acabava com a invasão de Roma. É justamente este desespero que faz Agostinho cristalizar ainda mais a instituição da Igreja, uma vez que, paradoxalmente (como sempre acontece com o Cristianismo), a própria unidade da doutrina cristã dependia desta atitude radical. Não se pode dizer que Agostinho fracassou: suas idéias realmente foram inspiradoras para o sistema da Inquisição, que foi levado às últimas conseqüências na Espanha, durante os séculos XV ao XVII, na época áurea do Renascimento (e não da Idade Média, como muitos pensam), mas ele também foi quem provocou o grande impasse para o cristão — como acreditar numa instituição que cometeu tantas atrocidades, mesmo que elas sejam em menor escala?
A Igreja se desenvolveu com rapidez na Europa, depois da queda do Império Romano, principalmente nas mãos de Carlos Magno, que deu origem a uma sociedade cristã total. Foi um processo civilizatório amplo, em que essa sociedade acompanhou a criação de leis, o surgimento dos Estados anglo-saxões, a agricultura e até mesmo o comércio, apesar de toda a contra-informação existente, de que a Igreja seria contra o lucro. Em contrapartida, a tortura era vista como um meio legal para se punir um criminoso, a luta entre seitas destruíam a população de vários vilarejos e, por fim, a Igreja foi se encantando com o fausto material de suas riquezas. Os ensinamentos de Cristo estavam repletos de uma teologia túrgida, e assim o cristão não sabia se devia obedecer à sua consciência ou ao Papa que representava a linhagem direta de São Pedro. Isso resultou em mais confusão, mais perseguições, mais mitificação e numa hipocrisia que quase acabou com o Cristianismo.

Segundo Jonhson, a religião cristã estava dividida em duas forças: a papista e a milenarista. A primeira era arraigada à instituição católica e seus poderes terrenos sobre o mundo espiritual; a segunda era uma seita formada por homens independentes que queriam formar sua própria igreja, denunciando a corrupção do catolicismo e prevendo o anúncio de um novo Messias, que retornaria com a ordem e determinaria quem seriam os escolhidos. Aí está o germe do protestantismo. Contudo, surgiu no início do Renascimento uma terceira força, muito mais poderosa e atraente porque tinha uma intenção muito simples: devolver ao Cristianismo a moral e deixar de lado a teologia. O homem que representou esta terceira força — também conhecido como humanismo cristão — foi Erasmo de Rotterdam. Escritor, polemista, proto-jornalista, Erasmo aproveitou a revolução de Guttenberg para espalhar seu nome pelo continente. Era um sujeito com uma das mentes mais lúcidas da Europa. Abordava qualquer assunto com o máximo de clareza e o mínimo de exposição, sempre indo na ferida do problema. Suas ligações se estendiam por todos os países, e sua influência foi decisiva para um jovem teólogo chamado Martinho Lutero. Inspirado na Epístola aos Romanos de Paulo, Lutero afixou suas Teses de Wittenberg e criou o protestantismo, uma das maiores dores-de-cabeça que a Igreja Católica teve — e que resolveu com outra dor-de-cabeça: os jesuítas e a Contra-Reforma.

O problema de Lutero e sua nova religião consistia na perda da ritualística simbólica que caracterizava o catolicismo, e na questão da predestinação, que depois seria desenvolvida a níveis extremos por Calvino. No entanto, foi igualmente um movimento com largo apoio de comerciantes e dos Estados holandês e alemão, prejudicados pelas medidas controladoras da Igreja Católica. Era também uma religião prática que, exceto por um culto e outro, poderia chegar no laicismo e na volta à moral que Erasmo pretendia. Mas Erasmo sabia que a teoria da predestinação de Lutero anulava o cerne do Cristianismo: a redenção universalista. Além disso, Erasmo — que foi amigo de Sir Thomas More, executado por ordem de Henrique VIII, por ter se oposto ao anglicanismo — prezava a tradição intelectual católica, e foi contra as idéias de Calvino quando este disse que, para um bom cristão, o importante era a Bíblia e seu livro de doutrinas, e nada mais. O passado do conhecimento devia ser totalmente esquecido para dar origem a uma nova era, com novos homens.

A partir daí, o Cristianismo seguirá a influência destes quatro homens. A Igreja Católica continuará no poder, mas seu preço será alto: um contínuo isolamento das coisas do mundo, iniciado após o escândalo da Inquisição Espanhola (um triste fato que até o próprio papado considerava como grotesco), acentuado com a Revolução Francesa (de onde o Papa ressurge repentinamente como a única oposição às forças revolucionárias), chegando à tragédia da Segunda Guerra Mundial, em que as atitudes de Pio XII até hoje são motivo de discussão, devido à má publicidade de seus feitos a favor dos judeus, sempre ocultados pelo silêncio moral em relação ao nazismo e ao fascismo.

Já o protestantismo seguirá passos mais tortuosos ainda, e seus filhotes mais recentes, como os triunfalistas dos EUA, serão os típicos crentes de uma nova religião — a religião liberal do Estado, na qual trocam Cristo por César ou misturam os dois numa cesta de roupas sujas. O exemplo terrível desta tendência é a aceitação das igrejas protestantes alemãs liberais ao poder de Adolf Hitler, vendido por eles como o “Novo Redentor”, sem contar a íntima relação que os pastores tinham com membros da SS. A religião liberal do Estado também terá seu efeito no catolicismo, principalmente na década de 70, com os missionários que, desgostosos com a difícil aceitação do Cristianismo pelos latinos, partem para a luta política, com a criação da Teologia da Libertação, e de um falso assistencialismo, marca registrada da CNBB, com seus ideais marxistas se imiscuindo nos ensinamentos cristãos. Mesmo assim, a terceira força ainda mantém sua integridade, criticando estas duas tendências, mas também caindo na armadilha fácil do interesse ideológico. Jonhson termina seu livro dizendo que a História do Cristianismo é edificante por apresentar uma religião que, apesar de sua aparente fragilidade, sempre teve suas reviravoltas e se manteve viva até hoje. Mas para esta história ser edificante, temos de levar em conta que a chaga ainda queima no corpo, e para isso temos de ir, como Erasmo, tocá-la sem medo, e ver o que está debaixo de tantas perguntas.

O mistério que fascina os estudiosos é a capacidade do Cristianismo de se recriar constantemente. A ressurreição talvez seja a chave do enigma — se não é o próprio enigma. O leitor percebe muitas vezes o espanto do próprio Paul Johnson ao ver como o Cristianismo escapou de várias enrascadas. Toda vez que parecia que seria mais uma religião morta, eis que surgia de novo, refeita, o corpo preservado, apesar das chagas do passado. Isso dá o que pensar: deve haver realmente algo de sobrenatural para uma religião sobreviver mais de dois mil anos, mesmo com todas as oposições, lutas internas e batalhas pelas almas que atravessaram como lanças os seus músculos. Na última hora, as pernas não foram quebradas. De novo, o símbolo do evangelho joanino se torna um exemplo da realidade — a eternidade tocando as frestas do tempo e produzindo uma síntese assustadora.

Sim, porque o Cristianismo é assustador. Ele exige uma profundidade intelectual, espiritual e até física do indivíduo. Não é para qualquer um. Além disso, não é uma religião que traga paz, como pensam muitos falsos cristãos. A luta está no cerne do cristão, e sem luta ele não vive. A paz só ocorre com a morte — que só se torna a morte que não mata após muito esforço e perseverança. Claro que, nesse sentido, o problema da Graça também ajuda, mas isto é um outro assunto. Como estamos ainda no plano da História, ou seja, do temporal, queremos analisar o Cristianismo pela ótica do conflito entre a realidade simbólica e a realidade mundana, essencial para se entender a nossa situação presente.

Assim, temos que desenvolver nossa análise em torno de outro símbolo, primordial para quem é cristão: a cruz. Há um motivo claro e, ao mesmo tempo, obscuro, para a cruz ser a marca registrada do cristianismo: ela nada mais, nada menos simboliza a consciência do indivíduo que quer se lançar ao eterno, mas freqüentemente encontra obstáculos e tentações. Ora, esta descrição é a de um cristão, seja puro ou não. O eixo horizontal representa a caminhada por este mundo, o deslocamento do homem entre o tempo e o espaço; o eixo vertical mostra a ascese ou a descida que o sujeito faz quando decide viver a vida do espírito, como forma de adquirir as noções de ordem e unidade transcendentes que regem o mundo. Esta escolha não é algo fácil, como já foi dito; às vezes, é mais tranqüilo viver no eixo horizontal, preocupado apenas com o que acontece com a História, do que compreender o que está além dela. O cristão — ou, mais propriamente, a consciência do homem religioso — está bem no centro destes eixos, sendo a sua alma o palco de uma luta pelo monopólio da divindade (entre o Deus Absoluto e os Deuses de Hoje, para usarmos uma expressão de Bruno Tolentino) e pela superação do tempo na conquista do grão da eternidade.

O indivíduo que decide pela vida do espírito é agente e espectador de uma guerra que consumiu a humanidade desde o seu início: a sutil diferença entre o Bem e o Mal. Para isso, ele se vê envolvido numa batalha cotidiana entre os desejos humanos que atendem as necessidades de uma sociedade abstrata que apela para a Historia, como o sentido de tudo, e o chamado verdadeiro do espírito no qual a consciência é uma reação a esta “semente afiada” que é o Verbo dentro de nós, o Mestre que descobrimos aos poucos e, com o passar do tempo, damos o nome de Jesus Cristo. No fundo, e isso poucos perceberam, a história da humanidade é o nome de Cristo escrito por extenso em todos os seus detalhes, desde o mais simples gesto de carinho entre dois amantes, até a destruição completa de uma cidade por causa de uma bomba atômica. O Amor cristão tem sua luz, mas também tem sua condição obscura, como diria Dante, e ambos vivem simultaneamente em luta perpétua.

Aqui fica clara, por exemplo, a estranha trajetória da Igreja Católica e de sua contrapartida mais famosa, a Igreja Protestante. Por mais que os protestantes reclamem, o fato é que o catolicismo, nos dias atuais, é o único reduto onde o homem ocidental pode encontrar uma fagulha de eternidade em sua busca pela unidade do ser. No entanto, a propensão da Igreja Católica de realizar atos mortais que quase destroem o Cristianismo, é tão grande quanto as da Protestante. Dante Alighieri foi o primeiro a ver que a igreja como corpus mysticum já estava escolhendo o Mal, não como negação, mas como alternativa, em suas Rime Petrosi:

“E eu que sou mais constante do que pedra
e te obedeço ante uma bela dona,
trago escondido o golpe dessa pedra
com a qual me feriste como a pedra
que te houvesse estropiado longo tempo:
– e o coração me atinges, que é de pedra.
Jamais se descobriu alguma pedra
preciosa no esplendor do sol, da luz,
que contivesse tanta força ou luz
que me permita fugir dessa pedra
e que ela não me envolva com seu frio
lá onde a morte há de me deixar frio”.
(Tradução de Jorge Wanderley, Dante Lírica, Editora Topbooks)

A pedra na qual Dante baseia seu ciclo de quatro canções pode ser uma dama fria — o oposto de Beatriz — , como a fundação em que a alma é erigida rumo ao Eterno, com todas as suas ações e contrações que fazem parte da luta espiritual, e também a pedra da Igreja Católica da sua época, baseado no famoso dito de Cristo para São Pedro. O eu-lírico do poema mostra uma profunda atração pela pedra que o persegue e que está dentro de seu coração. Se seguirmos a interpretação alegórica de que a tal Dama Pietra é ninguém menos que a Igreja Católica, então podemos ver que Dante foi o primeiro a ver (e o uso da palavra “ver” tem um significado importantíssimo na obra do autor de Vita Nuova) que a corrupção do catolicismo nos séculos XIV e XV foi uma escolha que já estava dentro da sua natureza simbólica, como a alma que seria a aliança do casamento entre Deus e Homem, sempre através de Cristo. É uma idéia polêmica, mas não de toda absurda, já que esta corrupção inerente (não podemos esquecer das três vezes em que Pedro nega Cristo) será a causa de uma reação que, na falta de nome melhor, dará origem às seitas milenaristas, nas quais Dante tinha um ponto de contato — pois compartilhava das idéias de Joaquim de Fiore. Estas seitas serão o germe do protestantismo que, se examinado a fundo, não passa de uma reação gnóstica à tradição cristã fundada no catolicismo, em especial na sua variante calvinista. Eric Voegelin explica isso com detalhes em A Nova Ciência da Política:

“A partir do dilema entre caos e tradição surgiu o primeiro pedido, isto é, a formulação sistemática de uma nova doutrina em termos de escritura, como foi providenciado por Calvino em seus ‘Institutos’. Um trabalho deste tipo serviria o propósito duplo de guiar para uma leitura correta da Escritura e de uma autêntica formulação da verdade que faria desnecessário o recurso à literatura anterior sobre o assunto. Precisa-se de uma designação deste gene da literatura gnóstica e de um termo técnico; como o estudo do fenômeno gnóstico é muito recente para desenvolver um termo próprio, a palavra árabe “corão” servirá para o presente momento. O trabalho de Calvino, assim, pode ser chamado o primeiro corão gnóstico criado deliberadamente. Um homem que pode escrever tal corão, um homem que pode romper com a tradição intelectual da humanidade porque ele vive na fé de que uma nova verdade e um novo mundo começam com ele, deve estar em um estado peculiar de pneumopatologia. Richard Hooker, que era supremamente consciente da tradição, tinha uma fina sensibilidade por este distorcer da mente. Em sua cuidadosa caracterização de Calvino ele abriu com o sóbrio anúncio: ‘Sua novidade foi no estudo da lei civil’; ele então continuou com alguma malícia: ‘Conhecimento divino ele reuniu, não por ouvir ou lendo tanto, e sim por educando os outros’; e concluiu com a sentença devastadora: ‘Pois, apesar de milhares devedores a ele, por tocar este tipo de conhecimento, ainda assim ele era devedor a ninguém exceto Deus, o autor da fonte mais abençoada, o Livro da Vida, e a admirável destreza do chiste’”.

Esta íntima conexão com Deus, sem a intermediação de uma tradição anterior (seja católica ou não), provoca nas idéias protestantes a óbvia impressão de ver sentido somente no futuro da História. É o imanentismo em ebulição. Se Joaquim de Fiore e Dante Alighieri acreditavam no DUX que restauraria a Igreja Católica, Martinho Lutero, e Calvino eram os novos messias, prontos para mudarem o mundo com sua nova verdade. Claro que isso acabaria em mortes — como foi a guerra entre protestantes e católicos que acabou com a França, a Inglaterra e teve seus efeitos nocivos na Irlanda do Norte nos anos 1980. O protestantismo só poderia sobreviver se apoiando no poder do Estado, como foi o que aconteceu na subserviência liberal ao nazismo, e o catolicismo teve de se isolar do mundo implacavelmente para manter sua própria independência sobre as autoridades temporais. Por mais absurdo que possa parecer para muitos estudiosos, a decisão solipsista de Pio XII — desmentida por fatos descobertos recentemente a respeito da reação da Igreja em torno do holocausto judeu — foi o passo decisivo para manter a unidade do Cristianismo.

É claro que certas atitudes da Igreja ainda causam polêmica — como a proibição de preservativos e anticoncepcionais, na verdade baseados em princípios morais e metafísicos, além das desculpas esfarrapadas que o Papa pediu às mortes cruéis da Inquisição e demais guerras religiosas. Mas o Cristianismo depende cada vez mais do catolicismo porque ele não é uma simples instituição composta por homens — é um símbolo, um ponto de contato entre o humano e o divino e, por isso mesmo, com a incrível possibilidade de se refazer. Com o declínio moral do mundo atual e a recusa sistemática dos princípios cristãos, a instituição da Igreja Católica é vista como os papasJoão Paulo II ou Bento XVI: a mente extremamente lúcida, mas o corpo se decompondo a olhos vistos. De novo, a chaga arde no peito. Mas será que os ossos serão quebrados desta vez? A primeira lição que o homem deve ter é não prever o seu futuro porque ele estará sempre em aberto, e o que está em aberto depende da nossa escolha. Contudo, não seria arriscado dizer que a Igreja Católica ressurgirá não do seu poder institucional, e sim como o símbolo restaurado. Afinal, a ressurreição e a esperança são o que movem o cristão, e a cruz que ele carrega é apenas o caminho para superar o sofrimento do Gólgota —um sofrimento que ecoa em todos nós, em maior ou menor grau, cada dia em que o tempo o torna uma perpétua abstração.