A importância de ser um flaneur — uma introdução ao pensamento de Nassim Nicholas Taleb

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Feb 19, 2018 · 28 min read

[The Walker] is a sort of fourth estate,

outside of Church and State and People.

Henry David Thoreau, “Walking”[1]

I

Em um mundo onde, como diria Albert Camus (1913–1960), “o absurdo e a incerteza estapeiam a nossa face a cada esquina”, a obra do ensaísta libanês, naturalizado americano, Nassim Nicholas Taleb é essencial para entendermos a nossa atual situação.

A própria biografia de Taleb espelha um pouco essa instabilidade sobre a qual ele medita. Contudo, qualquer fato encontrado em um verbete da Wikipedia não consegue reduzir o modo como ele suportou os obstáculos que a vida lhe impôs. Nascido em Amioun, Líbano, no ano de 1960, filho de um médico oncologista e de uma antropóloga, Taleb faz questão de explicitar em seus livros qualquer espécie de curiosidade biográfica que se possa ter sobre seu passado, uma vez que, segundo ele, o pilar de sua obra é a coerência orgânica entre o que é escrito e o que é vivido pelo escritor. Portanto, Taleb confirma, em seus próprios textos, tudo o que um leitor ávido quer saber a respeito da sua personalidade idiossincrática. Sim, ele fugiu do Líbano na época da Guerra Civil iniciada em 1975 (e na qual seu pai foi alvejado nas costas); sim, ganhou muito dinheiro quando foi investidor de derivativos na Bolsa de Wall Street, enquanto tentava se adaptar como imigrante nos Estados Unidos; sim, apesar de nunca fumar na vida e ser um aficionado por exercícios, descobriu que tinha um câncer na garganta, logo superado; e, sim, ele faz questão de dizer que, depois que abandonou Wall Street para escrever seus livros (pois tinha dinheiro suficiente para manter a sua independência intelectual), também começou a desprezar a grande mídia e a academia, dedicando-se obsessivamente naquilo que chama de “a mãe de todas as disciplinas” — o estudo do risco e da incerteza.

Toda a sua obra gira em torno de alguns conceitos aparentemente complexos, mas que guardam uma simplicidade assustadora porque, de alguma forma, já os vivenciamos no nosso cotidiano.

O primeiro deles é o do Black Swan, uma metáfora para eventos altamente incompreensíveis ou improváveis. O termo “cisne negro” foi cunhado por Taleb em referência a um verso do poeta latino Juvenal, que afirmava existir “pássaros tão raros quanto um cisne negro”. Naquela época, era de suposição corrente que só existiam cisnes brancos, até descobrirem um da cor negra quando a Austrália foi colonizada pelos puritanos, em meados do século XVII. Para Taleb, um Black Swan simboliza um determinado evento que tem três características principais:

(1) Ele é um evento imprevisível e raro apenas para quem não o previu, um outlier, um fato extraordinário (Taleb gosta de citar o exemplo do peru no dia de Ação de Graças nos EUA; o peru acha que está tudo bem, sendo alimentado pelo dono, até o dia em que este vem com um machado e corta a sua cabeça sem aviso. O peru não sabia o que aconteceria, mas o seu dono sabia muito bem qual seria o seu futuro. Da mesma forma, pode-se afirmar que, a respeito dos ataques ao World Trade Center, as vítimas não sabiam que um avião iria colidir nos prédios, mas os terroristas sabiam disso há muito tempo);

(2) O evento se torna compreensível somente após de ter acontecido. Aqui, Taleb avisa que sofremos de “falácia narrativa”, ou seja, criamos uma narrativa que explica e que nos ajuda a encontrar — falsamente — uma causa específica. O fato só pode ser entendido de forma retrospectiva, jamais prospectiva, i.e., sempre olhando para trás, nunca para frente, já que, na maioria dos casos, o acontecimento não pode ser previsto;

(3) O evento tem um impacto extremo para quem o sofreu, ainda que ele tenha sido “formado” silenciosamente e surja de maneira explícita para quem não estava preparado[2].

Apesar da aparência do aviso de catástrofe ou crise perpétua, Taleb também observa que existem tanto Black Swans positivos como negativos. Surge aqui o segundo conceito em seus livros: todos estamos expostos à fragilidade, pois nunca nos preparamos para a incerteza de quando acontecerá ou não acontecerá um Black Swan; o oposto disso não é o robusto ou o resiliente, que seria aquele que é indiferente à imprevisibilidade desses eventos que, mesmos raros, atingem a qualquer um. O que Taleb propõe como o oposto de frágil — e aqui surge o seu terceiro e talvez mais importante conceito — é o AntiFrágil, o que não só aceita a incerteza causada pelo Black Swan, mas também a deseja porque sabe que pode sair mais fortalecido com o seu encontro[3].

Nossa exposição a estes eventos acontecem em dois tipos de domínio da realidade: o do Mediocristão e o do Extremistão. Estes conceitos são complementares aos de Black Swan e aos de AntiFragilidade. Segundo Taleb, o Mediocristão é o domínio onde todos nós vivemos e onde podemos fazer nossas previsões, independentes se errarmos, porque o erro terá consequências mínimas na sociedade (Por exemplo: um acidente de trânsito na sua rua certamente não iniciará um colapso no tráfego de uma metrópole). Já o Extremistão é o domínio dos grandes sistemas complexos e interdependentes, onde é impossível se ter uma previsão exata, pois qualquer fato improvável terá um enorme impacto no tecido da sociedade (como o uso excessivo de energia elétrica em um dia intenso de verão, que causará uma pane no sistema energético e certamente iniciará um blecaute em toda a cidade)[4].

Estes fatos que ocorrem no Extremistão podem ser um Black Swan positivo ou negativo tanto para quem sofre as consequências dele como para quem os provoca — o que aumenta ainda mais o terreno de incerteza onde esses sistemas intrincados se encontram.

É neste ambiente instável que a obra de Taleb surge como uma meditação filosófica de extrema seriedade, sem, contudo, cair no reducionismo de querer mitigar os temores dos seus leitores a respeito do que pode e do que não pode acontecer em suas vidas. Ao estudar as infinitas variações do risco e da incerteza, usando dos diferentes instrumentos da filosofia, da economia, da estatística, da literatura e da matemática, Taleb pretende nos ajudar a entender melhor o que motiva a ação humana e como podemos aperfeiçoar nossas decisões em um mundo que, atualmente, parece estar repleto de “cisnes negros”.

II

Taleb escreveu e publicou quatro livros nos últimos quinze anos, mas eles formam, na verdade, uma única obra — um ciclo orgânico, sem começo nem fim definidos, chamado Incerto e que, segundo o próprio autor, registrará o trabalho de uma vida inteira[5].

O primeiro livro foi Fooled by randomness (no Brasil, traduzido como Traídos pelo acaso), lançado em 2001 e que causou uma considerável sensação no mundo de Wall Street. Ele fazia algo que poucos traders do mercado financeiro gostariam de fazer: colocar todas as supostas regras que comandam o jogo em uma saudável suspeita. Taleb afirmava a quem quisesse ouvir que nada era certo e que nenhuma lei conseguiria explicar a instabilidade do mundo real, mesmo no mais fugaz dos ambientes que é o da bolsa de valores. Portanto, o que um bom negociador tinha de fazer era se preparar para algum evento traumático — e aqui encontramos o germe do conceito de Black Swan — e deixar que o acaso o fortalecesse, apesar de todas as previsões feitas ao contrário (seja no aspecto positivo como no negativo)[6].

Taleb levaria esta concepção da incerteza ao limite em seu segundo livro, The Black Swan — The impact of the highly improbable (2007, tradução nacional: A lógica do Cisne Negro). É aqui que o conceito de “cisne negro” alcança notoriedade internacional, chegando ao ponto de Taleb ser considerado como uma espécie de guru (algo que ele não suporta) simplesmente porque previu, com um ano de antecedência, que uma crise econômica sem precedentes atingiria o mundo, tal como aconteceu em setembro de 2008. Mas o livro é muito mais do que isso: ao contrário de Fooled by randomness, que ainda parecia algo hesitante entre um trader com ambições diletantes e um scholar que queria escapar das amarras do mercado financeiro, The Black Swan é um longo ensaio sobre como podemos confrontar com os fatos que mudam completamente nossas vidas — e como temos a capacidade de nos reconstruir e, até mesmo, de nos precaver contra eles, se assumirmos de que, neste mundo, não sabemos de nada. Em um estilo repleto de deliciosas digressões, Taleb passeia pela literatura — a parte em que ele explica o que é um Black Swan usando O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati (1906–1972), é memorável –, nos faz descobrir os trabalhos científicos de Daniel Kahneman e Benoit Mandelbrot (1924–2010) e eleva ao estado da arte uma das suas principais diversões: a de ofender com contundência e elegância os sujeitos que são pagos para falarem besteiras em público, como os economistas e os cientistas políticos que acreditam prever a incerteza e acabam prejudicando o resto da sociedade por causa das suas opiniões sem nenhum fundamento (os IYIs, “Intellectual Yet Idiot” — em português: “Intelectuais, Porém Idiotas”).

Ao aproveitar o embalo de sua obra como uma espécie de “revelação literária”, Taleb resolveu lançar um pequeno livro de aforismos, The bed of Procrustes (2010, ainda não traduzido no Brasil). Se ele não chega aos pés de um Blaise Pascal (1623–1662) ou de um Joseph Joubert (1754–1824), ainda assim não fica a dever a um Karl Kraus (1874–1936) ou a um Nicolás Goméz Dávila (1913–1994) na arte de dizer muito com poucas palavras. O leitor pode encontrar, ao acaso (e é óbvio que Taleb faz questão de escrever em uma forma literária que privilegia exatamente essa atitude), sentenças que nos deixam com um sorriso, como esta: “É muito menos perigoso pensar como um homem de ação do que agir como um homem que pensa”; ou então: “Um profeta não é apenas alguém que tem visões especiais; é apenas alguém que está cego para aquilo que a maioria das pessoas vêem”[7].

Apesar da sua brevidade e da sua aparente despretensão, The bed of Procrustes é importantíssimo para se entender a intenção primeira na obra de Taleb — e, pela primeira vez em seus livros, ele deixa isso muito claro logo no parágrafo que abre o posfácio:

O tema geral do meu trabalho são as limitações do conhecimento humano, e os erros e os preconceitos charmosos e nem tão charmosos, quando lidamos com assuntos que estão fora do nosso campo de observação, aquilo que não observamos e aqueles que não observamos — aquilo que nos é desconhecido e o que está no outro lado do véu da opacidade.

Como nossas mentes precisam reduzir informação, somos propensos a querer espremer qualquer fenômeno em uma cama de Procrusto, dentro de qualquer categoria reconhecível (amputando assim o que é o desconhecido), em vez de suspender a classificação e torná-la tangível. Graças às nossas faculdades para percebermos falsos padrões, junto com os verdadeiros, o que é aleatório parecerá menos aleatório e mais correto — pois os nossos cérebros hiperativos estão mais propensos a impor a narrativa simplista e errada do que nenhuma narrativa que explique o que aconteceu.

A mente pode ser um instrumento maravilhoso para o auto-engano — e ela não foi feita para lidar com a complexidade e com as incertezas não-lineares. Ao contrário do discurso comum, mais informação significa mais ilusão: nossa capacidade de detectar falsos padrões cresce cada vez mais rápido como um efeito colateral da modernidade e da sua era da informação. Há um desencontro entre a aleatoriedade confusa do nosso mundo enriquecido pela informação, com suas interações complexas, e nossas intuições a respeito desses eventos, oriundos dos nossos hábitos mais simples e mais antigos. Nossa arquitetura mental vai num crescente desencontro com o mundo em que nós vivemos.

Isso nos faz chegar ao problema de “quem pagará o pato”: quando o mapa não corresponde ao território marcado, há uma certa categoria de tolo — o hipereducado, o acadêmico, o jornalista, o leitor de jornais, o “cientista” mecanicista, o pseudoempirista, aqueles que são dotados com o que chamo de “arrogância epistêmica”, esta habilidade maravilhosa de descontar o que eles não vêem, o que não é observado — e que entram em um estado de negação, imaginando que o território tem de se encaixar ao mapa. De forma geral, o tolo que descrevemos aqui é alguém que faz a redução errada apenas pela redução em si mesma, ou então retira algo essencial, cortando suas pernas, ou, melhor, uma parte da cabeça de seu hóspede, enquanto insiste que ele manteve o corpo dele com 95% de certeza. Olhe ao redor e encontre os leitos de Procrusto que criamos, alguns benéficos, outros mais questionáveis: governos reguladores, que tomam decisões de cima para baixo, a academia, os trens, os arranha-céus, as relações humanas involuntárias, os empregos, etc.

Desde o Iluminismo, nesta grande tensão que existe entre o racionalismo (como gostaríamos que as coisas fossem para que elas fizessem sentido) e o empirismo (como as coisas são), nós culpamos o mundo por não se encaixar nas camas dos modelos “racionais” e tentamos mudar os homens para eles se encaixarem às tecnologias, alteramos nossas éticas para satisfazermos nossas necessidades por empregos, pedimos à vida econômica que se molde às teorias dos economistas, e pedimos à vida humana que fique espremida em alguma narrativa.

Somos robustos quando os erros na representação do desconhecido e na compreensão de efeitos aleatórios não nos levam a efeitos colaterais — e somos frágeis quando isso acontece de outra maneira. O robusto se beneficia de eventos como o do “cisne negro”, o frágil é quem é atingido de forma severa por ele. Estamos cada vez mais frágeis, em torno de uma espécie de registro cientificista e autista, ao realizarmos alegações cheias de confiança sobre o que desconhecemos — e levando-nos a grandes problemas sobre a nossa dependência ao erro humano[8].

Como já vimos, Taleb mudaria significativamente essa classificação entre o robusto e o frágil ao publicar, em 2012, AntiFragile — Things that gain from desorder (no Brasil, AntiFrágil — Coisas que se beneficiam com o caos). Mas isto não é o mais importante deste livro — e talvez seja aqui que Taleb demonstre a sua importância como um pensador para entendermos o nosso mundo atual. Para ele, ser “AntiFrágil” não é apenas uma questão de sobrevivência; trata-se de algo que todos nós podemos ser, às vezes aplicando um esforço considerável, que, a princípio, incomoda nossas rotinas e nossos hábitos, mas que depois se revela, a longo prazo, como uma vitória arduamente conquistada. O problema não é de técnica ou de uma mera disposição, e sim de uma escolha de querer sobreviver e perseverar em um ambiente onde a incerteza e o caos parecem ser as únicas constantes — como sempre foi e como sempre será, independente das nossas revoluções tecnológicas e dos nossos progressos racionalistas.

Neste ponto, é de se ressaltar que, mesmo defendendo a ciência como um método empírico de correção dos fatos, Taleb emprega muito mais outro tipo de método, retirado não dos laboratórios experimentais ou dos gráficos de estatística, e sim da literatura e da filosofia antigas. É um modo de ver as coisas que ele autodenomina como “epistemocracia” e que tem, entre seus cidadãos ilustres, além do próprio Taleb (é claro), pessoas do calibre como o filósofo estoico Sêneca ou então o pensador francês humanista Michel de Montaigne (1533–1592). Na verdade, o seu método é o do ensaísta — melhor dizendo, o do flaneur, do homem que caminha pelas ruas de uma cidade ou de um vilarejo sem meta definida, aberto ao que o acaso pode lhe dar, naquele estado de maravilhamento que o poeta espanhol Antonio Machado descreveu com perfeição nos seguintes versos: “Caminante, no hay caminho/, se hace camino al andar” (Caminhante, não há caminho,/ faz-se caminho ao andar)[9].

A atitude de flaneur é a ideal para descrever o que Taleb pretende com sua obra. As suas digressões não são aleatórias; a criação de personagens, como Fat Tony (um sujeito que repassa a quem quiser a sabedoria de ter sido “AntiFrágil” desde o nascimento) ou Yevgenia Krasnova (uma escritora russa que conseguiu ser um Black Swan em um dos mercados mais difíceis para isso acontecer, o editorial), deixam de ser ilustrações das suas teorias sofisticadas e passam a ser estudos de caso retirados da própria experiência do autor; e o uso elaborado de uma linguagem literária, repleta de metáforas, trocadilhos e ditos populares, provam que há um impulso orgânico de acrescentar algo empírico e concreto a uma especulação que, se não for bem controlada, pode cair na mais perigosa das abstrações.

Por isso, ser um flaneur, para Taleb, não é um mero capricho, mas um meio de vida que protege a sua integridade intelectual. De certa forma, caminhar sem rumo definido é o melhor exercício que se pode fazer, tanto no aspecto físico como mental, para ajudar as pessoas a viverem em um mundo onde parece surgir um Black Swan a cada canto e sem nenhum aviso.

III

Nesta caminhada, Taleb também se aproveita das descobertas de quem já trilhou pelos mesmos passos, muitas vezes reconhecendo os acertos e corrigindo os erros, sem, contudo, deixar de ratificar que o seu conceito de Black Swan possui uma originalidade que poucos conseguem reconhecer nos nossos dias.

Um dos estudiosos com quem Taleb dialoga o tempo todo, mesmo que não o cite diretamente, é Ludwig von Mises (1881–1973), em especial o de Ação Humana (1949). Neste livro, considerado por muitos como fundamental para se entender os princípios que orientam a chamada Escola Austríaca de economia — aquilo que o próprio Mises chamaria de “praxeologia” — há um capítulo intitulado justamente “A incerteza” e que lida com os mesmos temas que depois Taleb desenvolveria em sua obra.

Ambos os autores discorrem a respeito da ação humana em um ambiente de constante (e extrema) incerteza. Agir é criar a própria incerteza de sua ação que se dirige para um futuro indeterminado, uma vez que eles não constituem duas realidades independentes. Mesmo que se rejeite completamente a noção de acaso e coloque as ações humanas sob a perspectiva das leis eternas e imutáveis, ainda assim permanece claro para todos nós que, para o homem que também age, o futuro é desconhecido, sob qualquer prisma. Como o próprio Mises escreve, isso tem a ver com a própria noção de liberdade, um dos pilares da sua obra: “Se o homem pudesse conhecer o futuro, não teria que escolher e, portanto, não agiria. Seria um autômato, reagindo aos estímulos, sem vontade própria”[10].

Assim, a noção de incerteza em cada ação humana está intimamente relacionada ao problema da liberdade como possibilidade do homem conhecer o que pode fazer e o que não pode fazer. E aqui se encontra o ponto de contato oculto entre Mises e Taleb: ambos querem dissipar um pouco o que fazemos em momentos de ignorância, mas, apesar de todo o conhecimento científico disponível, esta última continua agarrada em cada nuance das nossas ações. A certeza, se houver, é apenas uma probabilidade entre tantas — e ela pode ter um aspecto tanto negativo como positivo.

Para Mises, a praxeologia não é uma ciência que descobre teoremas científicos auto-evidentes e que existe com a intenção de eliminar o véu da ignorância em nossas decisões. Ela analisa o comportamento humano em seus fundamentos, mas para redescobrir a probabilidade de ser livre em um ambiente onde tudo nos leva a acreditar que é fugaz. A diferença, para Mises, é que uma probabilidade científica se refere à frequência de como um evento imprevisível pode acontecer, enquanto a probabilidade de uma ação humana tem a ver com a teleologia, a meta final [telos] em que uma escolha interfere na realidade e finalmente rompe a incerteza que cercava a sua decisão.

No primeiro tipo de probabilidade (também conhecido como “probabilidade de classe”), ela ajuda a identificar o comportamento de uma classe de eventos que são mensuráveis dentro de um padrão específico, mas este mesmo padrão nada pode fazer quando nos deparamos com “eventos singulares específicos” — uma terminologia bem ampla que Mises criou para classificar o que seria depois denominado por Taleb como um Black Swan.

Já no segundo tipo — a “probabilidade de caso” –, mexe diretamente com a “deficiência do nosso conhecimento” a respeito do que se apresenta como a realidade diante da nossa percepção. Porém, mesmo assim, essa deficiência nos força a escolher de qualquer maneira. A ação humana, aqui, deve ter um telos, uma meta final, ainda que ela não se apresente claramente. Podemos apenas tatear no escuro e correr no perigo de não encontrar um único interruptor para acender a luz do quarto; se quisermos um exemplo mais grave, é o famoso caso do diagnóstico médico de uma doença rara. Um médico pode dizer que existe 70% de cura; outro dirá que existe 30%. Quem está certo? Como podemos encontrar uma probabilidade razoável? De qualquer forma, exceto se o paciente deliberadamente não quiser se tratar, alguma profilaxia terá de ser realizada. Mas como podemos medir as chances de sucesso nisso? Novamente, a ignorância perante as nossas ações parecer ser, como uma ironia cruel, o único “imperativo categórico”.

A diferença essencial entre as reflexões de Mises e Taleb sobre os efeitos da ação humana em um ambiente incerto, é que as observações do primeiro se dão no domínio do Mediocristão, enquanto os do segundo se preocupam principalmente com o que acontece no Extremistão. A visão epistemológica de Mises ainda é moldada por um paradigma kantiano de formas restritas no tempo e espaço e que se dão em um mundo onde a interdependência não era um fato evidente, seja nas trocas econômicas, seja nas próprias relações humanas, com o surgimento posterior de doutrinas como a globalização e de revoluções tecnológicas como a da internet. Já Taleb incorpora essas rupturas como algo inerente à própria percepção da realidade, acentuando, como parte da originalidade do seu projeto, que só podemos reagir a esses eventos imprevisíveis se aceitarmos que a incerteza das nossas ações tem um impacto profundo, não só nas nossas próprias vidas particulares como na sociedade onde tentamos encontrar alguma ordem.

IV

Neste aspecto, a explicação do que seria “AntiFrágil” parece ser similar a um conceito importantíssimo de outro economista essencial para a Escola Austríaca, o Prêmio Nobel Friedrich von Hayek (1899–1992) — o de “ordem espontânea”.

Tanto Hayek como Taleb são ferrenhos opositores de uma ordem construída artificialmente, que tenha como base o “racionalismo cartesiano” que fez fama no Iluminismo francês e que depois influenciou uma parte da modernidade como modo de pensamento. Para Hayek, contudo, a ordem que deveria reger em uma sociedade saudável é algo espontâneo não só porque isso seria interessante para um crescimento propício aos cidadãos, mas principalmente porque isso tem a ver com a própria natureza humana, que lida apenas com informações fragmentadas e, ao mesmo tempo, é obrigada a reuni-las em um organismo que, para ser coerente, tem de ter uma meta que comprove uma determinada evolução natural. A “ordem espontânea” de Hayek é, antes de tudo, uma reformulação muito bem feita do evolucionismo de Charles Darwin (1809–1882) e Herbert Spencer (1820–1903), em que a organização da sociedade se fundamenta num mecanismo de seleção natural, no qual os fortes sobrevivem porque a competição entre pares é algo absolutamente comum para o homem em geral. A espontaneidade, neste caso, se torna algo mais complexo porque, além do aspecto da seleção natural, Hayek vê também o modo como nós nos expressamos, isto é, a forma como a sociedade consegue articular sua própria linguagem representativa, igual a uma ferramenta que também está em função desta meta evolucionista[11].

Em um trecho de The Black Swan, Taleb afirma explicitamente a sua admiração pelo conceito de Hayek a respeito da “ordem espontânea”. Para ele, o economista deveria ser mais estudado por seus pares, porque seus diagnósticos sobre o que tornava uma sociedade minimamente decente para qualquer cidadão que quisesse aproveitar a sua liberdade eram baseados em um sistema orgânico, feito por intuições empíricas, jamais por um raio de luz nascido em um escritório imaculado. Hayek teria percebido como poucos que a verdadeira sociedade onde vivemos sempre pensará “fora da caixa” [outside the box] e muito além de qualquer planejamento central, com aparência racionalista. De acordo com Taleb, a vitória de Hayek foi a crítica aguda ao “cientificismo” constantemente aplicado não só em governos, como também em instituições acadêmicas, grandes corporações e até mesmo nas redações da grande mídia — todos incapazes de sofrerem riscos e de viverem a incerteza[12].

Contudo, já em AntiFrágil, Taleb se mostra mais receoso de citar Hayek como um exemplo intelectual a ser seguido. Um dos aspectos de ser “AntiFrágil” é ter, antes de tudo, capacidade de escolher entre situações em que você está ou pode ficar exposto a um Black Swan — o que é chamado de “opcionalidade” (optionality). Por ser alguém que está disposto a tirar vantagem de uma situação caótica, o “AntiFrágil” tem de recorrer a estratégias que lhe dão uma opção, já que, direta ou indiretamente, a sua principal meta é sempre defender a sua própria liberdade. Ora, de acordo com Taleb, apesar de Hayek ter sido um pensador que era contra o planejamento central, defendendo a “ordem espontânea” — e justamente por ter um caráter evolucionista em seu pensamento (ou seja, a ação na sociedade é orgânica porque faz parte, na verdade, de uma meta que funciona em função de uma seleção natural, retirada da cosmologia darwinista) –, falta-lhe a capacidade de perceber que a opcionalidade é algo importantíssimo para que o “AntiFrágil” mantenha a sua situação. Isso retira qualquer chance da própria sociedade de escolher o seu próprio rumo, seja orgânico ou não, extirpando a “capacidade lúdica” que, para Taleb, é outro componente essencial de um ambiente que deseja tirar vantagem do surgimento de um Black Swan[13].

Na verdade, a defesa de uma “ordem espontânea”, de acordo com os preceitos de Hayek, também nos leva a um impasse ético sutil, porém perigoso se for levado às últimas consequências — e Taleb parece ter notado isso como poucos. Segundo o filósofo francês Jean-Pierre Dupuy, em seu livro O tempo das catástrofes:

O grande pensamento liberal de inspiração econômica, aquele que vai de Adam Smith (1723–1790) a Friedrich von Hayek, não hesitou em interpretar os males cometidos pelo mercado como sacrifícios que cumpre saber aceitar em nome de um interesse superior. No mercado, segundo Hayek, por exemplo, se sofre muito: as pessoas não encontram trabalho ou perdem o seu emprego, as empresas vão à falência, os fornecedores são abandonados pelos seus clientes de longa data, os especuladores apostam alto e perdem tudo, os produtos novos não pegam, os pesquisadores, apesar de longos e penosos esforços, não chegam a nada, etc. Essas sanções caem como golpes do destino, injustificadas, imprevisíveis, incompreensíveis. A sabedoria, contudo, é ‘se entregar às forças obscuras do processo social’. Este, com efeito, é movido por uma espontaneidade benfazeja e dotado de um saber inacessível a qualquer sujeito individual. Tentar opor-se à sua dinâmica em nome da justiça social ou da reparação dos destroços deixados por onde passou é largar a sombra providencial em troca de uma presa inalcançável, visto que é ilusória. Caso você faça a um hayekiano a objeção de que o capitalismo fabricou a miséria generalizando uma forma de pobreza inconcebível nas sociedades tradicionais já que ela conjuga a pobreza material ao abandono dos indivíduos à própria sorte — paradoxo inusitado, talvez o próprio Karl Marx (1818–1883) não terá conseguido desembaraçar –, lhe será respondido que se o capitalismo, de fato, multiplicou os pobres, é que ele possibilitou que um número muito maior deles pudesse viver, quer dizer, sobreviver. Tudo se passa, escreve Hayek, como se a evolução procedesse a um verdadeiro ‘cálculo vital’: ele sabe sacrificar determinadas vidas aqui e agora se isso a conduzir a aumentar o fluxo vital no seu todo. Por outro lado, observe um indivíduo ao acaso e se pergunte em que sociedade as chances de ele levar uma vida plena e feliz estão maximizadas. Para Hayek não há margem de dúvida que será na sociedade que soube dar à sua liberdade natural a ‘ordem espontânea’ do mercado[14].

Dupuy faz questão de observar que a filosofia moral de Hayek, se há alguma, não “é propriamente utilitarista ou consequencialista”, mas o fato de haver um fundo difuso de “utilidade geral” nos faz perceber que talvez a “ordem espontânea” seja frágil no sentido talebiano, pela simples razão de que, graças ao seu caráter evolucionista que amputa um aspecto central da nossa liberdade — a escolha do que fazer diante de um evento imprevisível –, ela também elimina a nossa possibilidade de encararmos a incerteza inerente à nossa humana, demasiada humana condição.

V

A confusão de semelhanças entre a antifragilidade de Taleb e a “ordem espontânea” ocorre porque, segundo o primeiro, a sua ética se baseia em um princípio de não-interferência que, inspirado nos termos da medicina, contrapõe o fenômeno negativo da “iatrogenia” (iatrogenics).

Para Taleb, o fundamental de um bom médico é saber quando deve e quando não deve indicar algum remédio ou tratamento para um problema de saúde que talvez consiga ser resolvido sozinho. É claro que ele também defende a interferência cirúrgica em casos graves — como a de um diagnóstico de um tumor ou de uma doença cerebral — mas o principal ponto de seu argumento é que, em muitos casos, a própria realidade soluciona o que parecia ser um assunto grave e que, se tiver a interferência humana, pode piorar ainda mais. Na iatrogenia médica, muitas vezes um problema de hormônio é resolvido se o paciente fizer uma dieta ou então aplicar um jejum rigoroso de duas semanas, sem recorrer a medicamentos que afetarão o seu metabolismo. O mesmo ocorre no funcionamento das sociedades e no modo como administramos nossas informações em relação ao mundo: o excesso de interferência humana causa mais ruído e prejudica consideravelmente o rumo natural das coisas.

Isso, obviamente, não tem nada a ver com a seleção natural que Hayek defendia, inspirado em Darwin e Spencer. Por mais empírico que fosse a sua observação do surgimento de uma “ordem espontânea”, ainda assim o economista tinha uma teoria que fundamentava todo esse raciocínio — e, por uma ironia digna de quem vive repleto de Black Swans, ela também seria uma construção racional sobre um fenômeno da realidade que não pode ser espremido em categorias abstratas.

Para escapar desse impasse teórico, Taleb passa a defender a noção de uma natureza que tem a irregularidade como princípio. Baseado nas descobertas do matemático Benoit Mandelbrot, que surgiu com os “fractais”, modelos de observação do real que encontram padrões aleatórios nos objetos sólidos e, por meio de uma intuição abstrata, Taleb percebe que eles guardam outros padrões, uns dentro dos outros, como se fossem espirais que se ramificam e que comprovam a estrutura do mundo físico — e, por sua vez, da realidade tal como percebemos — ao permitir que vislumbremos padrões inviáveis para a categorização humana.

Em outras palavras: com os “fractais”, Taleb se aprofunda na existência dos Black Swans não como uma questão de se antecipar aos eventos imprevisíveis, mas sim como um modo de concluir que a natureza da realidade é desconhecida até mesmo para quem acreditou que a decifrou completamente. Dessa forma, ir contra a iatrogenia é uma forma ética de se respeitar essa mesma natureza porque, como a realidade tem regras que jamais conheceremos, qualquer interferência prejudicará a harmonia invisível que não percebemos — e que, graças à interdependência dos sistemas altamente complexos que os seres humanos desenvolveram na modernidade, afetará a vida de cada um de nós[15].

O mapa criado pelo próprio Taleb e que mostra a genealogia dos conceitos de Black Swan e “AntiFragilidade”.

Portanto, compreender o que é um Black Swan não é apenas um problema de se precaver a uma catástrofe ou a um colapso sistêmico, já que ninguém pode fazer isso, exceto após o acontecimento do evento. É mais do que isso: trata-se de um problema filosófico essencial — o da epistemologia da realidade onde vivemos, conhecemos e agimos. Aqui, Taleb vai além de Mises e Hayek: ele compreende que a ação humana, por mais desconhecido que possa ser o futuro de onde ela surgirá, é a base da própria liberdade — e que a ordem verdadeiramente espontânea é nada mais nada menos que o desconhecimento do que temos condições de realizar para nós e os nossos próximos.

É por isso que o método de ser um flaneur, de ser um ensaísta que acumula experiências e as articula em uma linguagem literária que incorpora as irregularidades das nossas vivências se torna algo de extrema importância para se entender as bases do pensamento de Nassim Taleb. Seu estilo aglutina as informações essenciais para entendermos que, no fim, não podemos confundi-las com conhecimento, o que é algo completamente diferente. Saber sobre a realidade não é o mesmo que alterá-la e conhecer os seus fundamentos jamais será decifrá-la como se fosse uma charada fácil de ser resolvida. O flaneur caminha pelas veredas e pelas ruas dessa cidade chamada “epistemocracia”, na esperança de que o fato de não ter plano nenhum é a única salvação possível em um mundo onde, para referirmos a Marx, tudo o que parece sólido se desmancha no ar.

Isso, contudo, não implica que o flaneur deva parar de se preocupar com o seu semelhante, como se fosse um esteta que passeia superficialmente por um dos assuntos mais sérios da nossa condição. Muito pelo contrário: Taleb faz questão de afirmar que a principal qualidade de alguém que tem plena noção de se viver em um ambiente repleto de risco e de incerteza é saber viver o tempo todo com o “skin in the game”, com a pele no jogo. É justamente esse tipo de postura que elimina a artificialidade da seleção natural inerente à “ordem espontânea” de Hayek: o sujeito, ciente do risco em cada empreitada humana, sabe que há um preço a se pagar por isso e que tem de assumir uma responsabilidade moral por cada um dos seus atos, mesmo que o principal sacrifício seja o seu.

Neste aspecto, tanto em The Black Swan como em AntiFrágil, Taleb não hesita em afirmar que o principal problema do mundo contemporâneo é o fato de que os homens que estão em posição de comando — os políticos, os empresários, os jornalistas, os educadores e até mesmo os artistas — se recusam sistematicamente entrar em situações nas quais possam ser expostos com o “skin in the game”. Fugir do risco e da incerteza não é somente um problema técnico, digno de figurar entre equações matemáticas, cálculos de probabilidade e princípios de precaução que apenas empurram as escolhas difíceis com a barriga ou para debaixo do tapete. É, sobretudo, um problema moral, no qual se cada um recusar o seu papel no complexo sistema do “skin in the game” na vida de cada um, sem dúvida causará o verdadeiro colapso no domínio do Extremistão — o de provocar a extinção de nosso próprio mundo[16].

VI

Contudo, Taleb não é um pessimista — e é por isso que o seu próprio pensamento é considerado “AntiFrágil”. Ele nos avisa dessas questões espinhosas porque acredita na infinita capacidade do homem de aproveitar-se do caos para superá-lo e assim prevalecer. No decorrer da leitura de sua obra — no qual o leitor também deve se comportar como o flaneur que Taleb faz questão de usar como se fosse um método existencial –, percebe-se que ele tem a plena certeza (e usamos o termo aqui cientes de sua ironia) que o próprio homem é também um Black Swan, um evento improvável que não pode ser explicado por meio de falsas categorizações e que surpreende a todos porque consegue sobreviver em um domínio onde o Extremistão parece querer destruí-lo a qualquer instante.

Sua originalidade filosófica é o uso de uma mão dupla igualmente irônica — e é a comprovação da “AntiFragilidade” do seu pensamento. Por mais que ele use de estatísticas, de gráficos e equações matemáticas, o detalhe que o torna único entre as diversas correntes atuais de reflexão é o retorno à tradição do ceticismo estoico de Sêneca (4 a.C. — 65 d.C.) e, sobretudo, da pesquisa interior que Montaigne realizava nos seus ensaios, confirmando para quem quiser ler os seus livros de que esta escola da “epistemocracia” é, na verdade, a ordem mais espontânea que existe. Neste sentido, Taleb é um seguidor radical do implacável raciocínio do famoso pensador francês sobre a possibilidade da morte, oculta em cada uma das nossas incertezas:

A cada minuto parece-me que escapo de mim. E repito sem cessar: tudo o que pode ser feito um outro dia pode ser feito hoje. Na verdade, os acasos e os perigos nos aproximam pouco ou nada de nosso fim; e se pensarmos, afora esse infortúnio que mais parece nos ameaçar, em quantos milhões de outros permanecem sobre nossas cabeças, descobriremos que o fim está igualmente perto de nós quando estamos vigorosos ou febris, no mar e em nossas casas, na batalha e em repouso. […] Para acabar o que tenho a fazer antes de morrer, todo o tempo vago me parece curto, ainda que seja trabalho de uma hora. Outro dia, alguém folheava meus apontamentos e encontrou uma nota sobre alguma coisa que eu queria que fosse feita depois de minha morte: eu lhe disse, como era verdade, que, estando a apenas uma légua de casa, e saudável e vigoroso, me apressara em escrever aquilo ali por não ter a certeza de chegar à minha casa. Como sou homem que continuamente está incubando seus pensamentos e guardando-os dentro de si, a qualquer momento estou preparado, tanto quanto possa estar, e nada de novo me anunciará a chegada inesperada da morte. Devemos estar sempre com as botas calçadas e prontos para partir, tanto quanto de nós dependa, e sobretudo nos precavermos para que então só tenhamos de tratar conosco mesmos[17].

Eis aqui a importância de ser um flaneur: mostrar para si mesmo que, como diria Hamlet, “estar pronto é tudo” (the readiness is all) — e assim a “AntiFragilidade” de Taleb se mostra como um método de sabedoria tradicional que dá os instrumentos necessários para o homem recuperar a sua liberdade interior num mundo onde os Black Swans podem (ou não) destruí-la em um piscar de olhos. Esta é a sua originalidade para a sociedade em que vivemos. Num ambiente onde não há mais estadistas, artistas responsáveis, sacerdotes virtuosos e empreendedores que assumem o risco, o flaneur, o caminhante, o andarilho, o peregrino se torna uma espécie de Quarto Poder, acima do Estado, da Igreja e do próprio Povo, conforme a boa lembrança de Henry David Thoreau (1817–1862), capaz de vigiar por todos e reafirmar o fundamento da liberdade de acordo com a defesa intransigente da incerteza como “a mãe de todas as disciplinas”.

Todos nós somos cisnes negros, impossíveis de sermos classificados — esta é a grande lição de Nassim Nicholas Taleb para os nossos dias. Mas, ainda assim, temos de ver essa afirmação com muita cautela, como sempre acontece ao abordar a obra desse pensador, ainda em progresso e ainda em formação. Pois, já dizia o técnico de beisebol Yogi Berra (1925–2015), um de seus mestres, “it ain´t over until it´s over” — neste mundo, só acaba quando termina.

[Ensaio publicado na MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia, Vol. III, Número 1, Edição 5 (Janeiro-Junho 2015), p. 281–292]


[1] THOREAU, Henry David. Civil Disobedience and Other Essays. New York: Dover Publishing, 1993. p. 50. Fica aqui assinalado também o meu agradecimento a Marcelo Laier Franco, que me apresentou à obra de Taleb. A amizade foi embora, mas o devido crédito permanece.

[2] TALEB, Nassim Nicholas. The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable. Londres: Penguin, 2007/2010. p. 3–21.

[3] TALEB, Nassim Nicholas. AntiFragile: Things that Gain from Disorder. New York: Random House, 2012. p. 29–79.

[4] TALEB. The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable. p. 213–227.

[5] Taleb também escreveu dois livros técnicos que complementam os que fazem parte de Incerto: Dynamics Hedging (1997), que o transformou em uma lenda viva no mercado de derivativos, e Silent Risk (2014), que põe em prática várias das ideias apresentadas em AntiFragile. No caso de Silent Risk, o livro pode ser encontrado no seguinte endereço: https://drive.google.com/file/d/0B8nhAlfIk3QIR1o1dnk5ZmRaaGs/view. Acessado no dia 8 de setembro de 2015.

[6] TALEB, Nassim Nicholas. Fooled by Randomness: The Hidden Role of Chance in Life and Markets. New York: Random House, 2005.

[7] TALEB, Nassim Nicholas. The Bed of Procrustes — Philosophical and Pratical Aphorisms. Londres: Penguin Books, 2010.

[8] Idem. Ibidem, p. 105–107. É provável que foi esta visão peculiar da realidade que fez Steve Bannon, o estrategista-chefe do governo de Donald Trump, incentivar o seu staff a ler a obra de Taleb, em especial AntiFrágil, de acordo com esta reportagem publicada pelo site Politico (posteriormente replicada no tweeter do próprio Taleb, com muito orgulho).

[9] MACHADO, Antonio. Poesia. Madrid: Alianza Editorial, 2005, p. 114

[10] MISES, Ludwig von. Ação Humana: Um Tratado de Economia. Trad. Donald Stewart Jr. 3a ed. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010. p. 139.

[11] GRAY, Jonh. Hayek on Liberty. Londres: Routledge, 1998. p. 26–53; ver também: HAYEK, Friedrich von. Studies in Philosophy, Politics and Economics. London: Routledge, 1967. p. 73, além de HAYEK, Friedrich von. Law, Legislation and Liberty, vol. III. London: Routledge, 1979. p. 153–55.

[12] TALEB. The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable. p. 180–181.

[13] TALEB. AntiFragile: Things that Gain from Disorder. p. 258–259. Neste ponto, deve se observar que, apesar das conclusões lógicas corretas que Taleb chega a respeito das obras de Mises e Hayek, ainda assim ele comete alguns pecadillos filosóficos, como sua admiração pela epistemologia de Karl Popper, que o faz, consequentemente, ter uma visão completamente equivocada da filosofia de Platão, em especial sobre o que seria “a dobra platônica”. Isto, é claro, seria assunto para um outro texto, que espero escrever em breve (e, neste caso, para saber mais — e melhor — sobre Platão, sugiro ao leitor que vá atrás dos escritos do próprio Platão (é claro), de Paul Friedlander, Werner Jaeger, Eric Voegelin, Giovanni Reale, Mario Ferreira dos Santos, Mario Vieira de Mello, e também leia atentamente este ensaio sobre os equívocos que um gigante como René Girard teve sobre os diálogos platônicos, similares aos de Taleb); contudo, é de se notar também que, independentemente da incompreensão que o ensaísta libanês tem de Platão, a tese principal dos seus livros não são refutadas por este motivo.

[14] DUPUY, Jean-Pierre. O Tempo das Catástrofes: Quando o Impossível é uma Certeza. Trad. Lília Ledon da Silva. São Paulo: É Realizações, 2011. p. 61–62.

[15] TALEB. The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable. p. 253–272.

[16] TALEB. AntiFragile: Things that Gain from Disorder. p. 375–419. É de se notar que é muito gratificante aplicar os conceitos de Taleb na nossa realidade nacional recente, repleta de “Lava Jatos” e ajustes fiscais atrapalhados . Fiz duas tentativas com isso, nos textos “O Colapso Inevitável” (escrito em parceria com o dr. André Luiz da Costa Corrêa) e “O Ruído do Tempo” (publicado previamente no jornal português virtual Observador).

[17] MONTAIGNE, Michel de. Os Ensaios. Trad. Rosa Freire de Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 70–71. Grifos nossos.

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