A Tirania dos Especialistas

I´m gonna break my rusty cage and run.

Soundgarden, “Rusty Cage”.

Todos serão julgados. Sendo assim,
Mestre do escrúpulo e da sutileza,
roga por nós, os fariseus da escrita,
os mortos como os vivos. Porque, enfim,
ao que parece, é mesmo desmedida
nossa vaidade; porque há mais nobreza
em muitas obras do que em tantas vidas,
não roga só por mim, Mestre, intercede
pela traição de todos os escribas.

W.H. Auden, “At the grave of Henry James”, traduzido por Bruno Tolentino.

1.

Na palestra que deu em 1937, a convite da Federação Austríaca do Trabalho, e que depois seria transformada em um primoroso ensaio, publicado sob o título Sobre a Estupidez (Editora Äynié, Biblioteca Antagonista, R$ 19,00), o escritor Robert Musil parte do princípio que, por incrível que pareça, há uma relação íntima entre as benesses da inteligência e as confusões da estupidez. Um raciocínio que deveria ser paradoxal, mas não é. Segundo o autor de O Homem Sem Qualidades (possivelmente um dos maiores romances do século XX), não se pode definir exatamente o que seria a tal da estupidez porque ela corresponde “tão pouco aos hábitos do pensamento da nossa época quanto às perguntas sobre o que é o bem, a beleza ou a eletricidade”, uma vez que o sujeito que pretende falar sobre a estupidez jamais admitirá para si mesmo que é também estúpido. Logo, parte-se do pressuposto que discorrer sobre a estupidez dos outros implica em admitir que só ele seria o inteligente acima dos demais. Neste caso, a inteligência sempre representará uma ameaça para o mais forte que ainda suspeita que não descobriu a sua estupidez, pois esta não se alimenta do seu “desespero”.

Na verdade, Musil acredita que a verdadeira atitude estúpida é justamente “gabar-se da sua inteligência”. O inteligente que pretende esconder a sua estupidez (mesmo que momentânea) não chegou à seguinte conclusão de que isto é, sobretudo, um “distúrbio do decoro” — e que a prática do “autoelogio fede”. Tal hábito só pode ser legitimado se o inteligente fizer parte de um grupo que defenda esse mesmo tipo de visão de mundo. Afinal, quando essas mesmas pessoas “se sentem forçadas a falar desse assunto, parafraseiam-no falando de si: ‘Eu não sou mais estúpido do que os outros’. Mais comum ainda é fazer a observação da maneira mais indiferente e objetiva possível: ‘Posso dizer que possuo uma inteligência normal’. E às vezes aparece velada a convicção da própria inteligência em expressões como: ‘Não deixo que me façam de tolo!’. E mais digno de nota ainda é que não só o ser humano individual, secretamente em meus pensamentos, se vê como bastante inteligente e bem-dotado, mas também o ser humano com atuação histórica, que tão logo detenha o poder para tal, diz ou manda dizer que ele é infinitamente inteligente, iluminado, digno, sublime, clemente, escolhido por Deus, predestinado para a história. E gosta de dizer o mesmo de outros quando se sente iluminado por seu reflexo. Em títulos e formas de tratamento como majestade, eminência, excelência, magnificência, prelado e afins, isso se conservou fossilizado e quase inconsciente. Mas se revela de novo com toda a vitalidade quando o ser humano de hoje fala como massa. Sobretudo, existe certa classe média baixa do espírito e da alma que carece de pudor diante da necessidade de presunção, assim que aparece em defesa do partido, da nação, da seita ou do movimento artístico e pode falar nós no lugar de eu”.

Roger Kimball comenta, no seu ensaio dedicado a Musil na coletânea Experimentos Contra a Realidade (publicado no Brasil pela É Realizações), que, pelo fato do austríaco ter tido uma formação técnica-científica e depois migrado para o campo das artes, era um obcecado pela busca e pela unidade entre “precisão e alma”. Se por um lado Musil queria encontrar um rigor para as coisas que perturbavam o mundo, por outro não queria transformar essa exatidão em um irracionalismo pueril. Como Kimball resume bem essa atitude dúplice, “ele lutava para resgatar” tanto “o sentido da dignidade espiritual do homem dos escombros das desacreditadas Grandes Ideias” como “o materialismo grosseiro”. Era, ao mesmo tempo, um homem “extremamente empírico” que surgiu como “um defensor dos valores espirituais em face de duas ameaças: o racionalismo dissecado e o irracionalismo entusiasta. O que equivale a dizer que Musil era, a um só tempo, um partidário da ‘alma’ e um crítico mordaz e muito divertido da ‘Alma’ — em maiúscula e entre aspas”.

Em Sobre a Estupidez, fica nítida essa postura de acrobata, tentando harmonizar os dois lados simultaneamente. Se não era uma postura para demarcar a sua inteligência, também não era estúpida suficiente para perturbar o decoro. Contudo, para um homem que sabia que “toda inteligência tem sua estupidez” — sendo que, no primeiro caso, acreditava-se à época que ser inteligente era ser meramente competente em termos técnicos, e ser estúpido seria o oposto — é um fato que essa relação íntima e promíscua só poderia afetar a sociedade se fosse legitimada por meio de um grupo ou — o que é pior — uma corporação composta justamente por esses “seres humanos com atuação histórica” que criaram, aos poucos e de forma imperceptível, uma tirania sobre todos nós: a dos especialistas.

2.

O termo “especialista” é um eufemismo para outro tipo de atitude diante do mundo, infinitamente mais nociva do que aparenta ser, e que deve ser nomeada de uma nova forma para vermos o problema dentro das exigências da precisão e da alma que Robert Musil nos ensinou. Recentemente, o ensaísta libanês (naturalizado americano) Nassim Nicholas Taleb rebatizou o “especialista” (em inglês, expert) com o termo “Intellectual Yet Idiot” (Intelectual, Porém Idiota, em português, mas chamado doravante com as siglas de IYI para facilitar a leitura). Taleb faz, com este apelido, a mesma relação inusitada que Musil articulou entre a declaração da inteligência e a ocultação da estupidez de quem se vangloria da primeira categoria. Em outras palavras, não é porque um sujeito é um intelectual que não deixa de ser um idiota — o que parece ser uma afirmação complicada nesses tempos em que vivemos um fetiche pela inteligência, mas um completo desprezo pelo caráter que possa estar envolvido nela.

Em uma lista hilária, repleta de classificações antípodas, Taleb mostra quais são as principais características do IYI (e que podem ser igualmente aplicadas no Brasil, apenas com sutis variações). De acordo com suas palavras, o IYI é um típico produto da modernidade (algo já diagnosticado por Musil) que se acelerou nos últimos anos, em especial no início deste século XXI. Seu comportamento consiste basicamente em “patologizar” tudo aquilo que ele não consegue entender nos outros, sem admitir o fato de que é o seu entendimento das coisas que se tornou limitado. Ele pensa que as pessoas devem agir com base no bem comum e no melhor interesse do que seria este bem, com o detalhe de que o IYI é o único que sabe o quê seria isto. Por isso, mal compreende o que acontece quando a sociedade age contra o que seriam esses interesses e, do nada, passa a chamá-la de “deseducada” ou então com o nome do momento — “populista”. A “democracia”, segundo sua concepção, só existe quando as pessoas aceitam os termos dele. E, claro, tudo isso sancionado pela relação direta que há entre um voto e uma vaga em qualquer repartição corporativa — de preferência, uma universidade de elite (no caso do Brasil, uma universidade pública como a USP, que treina os meninos ricos a serem futuros IYIs travestidos em militantes políticos, ou uma faculdade particular como o Insper, que os aprisiona ainda mais em suas bolhas cognitivas).

Como se tudo isso não bastasse, Taleb identifica um IYI internacional porque ele assina a New Yorker (aqui é um habitué da Folha de São Paulo durante a semana e do Estadão e da Veja aos domingos); acha que xingar nas redes sociais é falta de educação (aqui alega que “não está disposto a entrar no debate”); fala de “igualdade racial” e de “igualdade econômica”, mas jamais conversou com um motorista de táxi (no Brasil, chega-se ao ponto de jamais conversar com a própria empregada doméstica); acredita que Tony Blair foi um grande estadista (o mesmo ocorre por essas bandas quando falam de Lula ou de Fernando Henrique Cardoso, sem saber que ambos são farinha do mesmo saco, ou então ousam citar Getúlio Vargas como alguém que colaborou para “o desenvolvimento do país”); as únicas palestras que assiste são no estilo TEDx (no Patropi, podem ser adicionados os eventos da Casa do Saber, do Fronteiras do Pensamento e qualquer cópia mal feita desses últimos, que já são terríveis por si próprios); não apenas vota em qualquer membro do Partido Democrata (como Hillary Clinton) porque acha que quem votou em Donald Trump é perturbado mentalmente, mas também porque sabe que não tem como escapar do seu próprio círculo vicioso psíquico (o mesmo paralelo pode ser feito entre nós quando optam por qualquer político do PSDB em oposição ao PT ou vice-versa e, assim, não conseguem entender sob nenhuma hipótese o surgimento de um Jair Bolsonaro, um patrimonialista de marca maior com toques liberais); ademais, ele confunde ciência com cientificismo (nas nossas universidades, existem professores que realmente acreditam que o “aquecimento global” é um fato e que Al Gore é um sujeito sério); é incapaz de refletir sobre as consequências imprevisíveis das suas ideias e das suas ações; não sabe qual é a diferença entre a ausência de evidência e a evidência de ausência; suas previsões estão erradas sobre absolutamente tudo — Stalinismo, Maoísmo, petismo, Iraque, Líbia, Síria, lobotomia, planejamento urbano, jihad global, previsão de eleições — e, mesmo assim, acha que está absolutamente certo sobre tudo o que comenta; faz parte de um clube de membros privilegiados; não sabe usar estatísticas porque acredita que são uma descrição do mundo real; vai aos festivais literários (por aqui, ir à FLIP — ou FLOP, para quem entende do riscado — é um atestado pleno de que se trata de um IYI); adora uma intervenção médica quando esta não é necessária; estuda gramática antes de aprender uma língua (algo comum nas redes sociais tupiniquins, em especial os que fazem parte deste gênero mórbido que é a Nova Direita, recentemente alçada ao poder legislativo com o nome de “República do COF”); tem sempre um parente que trabalhou com a Rainha da Inglaterra ou com o Presidente dos Estados Unidos (no Brasil, o trunfo é ser parente de algum membro do Judiciário); nunca leu John Gray, Michael Oakeshott e Joseph De Maistre (no Febeapá é pior: quando alguém lê ou ensina os escritos destes pensadores, como é o caso daquela turma que promove apenas o Estado da Arte das baboseiras, logo os classifica como “conservadores”, “reacionários” ou “de direita” — ou, no caso de Gray, “bastião do pensamento liberal esclarecido”, seja lá o que for isso); nunca ficou bêbado com um russo (é o meu caso); jamais sabe o que é Hecate e o que é Hecúba (eu era assim até os dezoito anos de idade); sempre menciona física quântica pelo menos duas vezes em uma conversa que não tem nada a ver com física (da minha parte, mal sei o que é física, muito menos física quântica); sempre sabe que, mais cedo ou mais tarde, suas ações ou suas ideias podem prejudicar a sua reputação e, portanto, coloca esta em primeiro lugar (quanto a mim, não tenho nenhuma reputação a zelar — mais sobre isso daqui a pouco); e, last but not least, ele sequer pratica levantamento de peso (o que eu também não faço, mas insisto em caminhar todos os dias depois de escrever textos como este. Será que isto me faz ficar de fora desta classificação? Suspeito que não).

Agora, vamos deixar o tom satírico de lado, para seguir um outro conselho de Taleb. O problema com o IYI dos nossos dias — enfim, com o especialista que é um estúpido, se voltarmos a Musil — é que ele não sabe mais fazer a distinção entre a letra da palavra e qual é o espírito que a anima. Como diz Paul Johnson no seu arrasador livro Os Intelectuais, a questão que preocupa qualquer um que decidiu viver a nobre vocação da vida do intelecto é saber como jamais substituir um ser humano concreto por uma abstração conceitual e nunca trocar a realidade por uma ideia. Os IYIs pensam apenas em termos ocos, vazios, como democracia, populismo, educação, racismo, igualdade, evidência, racional, e por essa mesma razão são capazes de fugir de qualquer espécie de responsabilidade perante os seus atos. Quando alguém aborda justamente esse pecadillo, logo se armam de vítimas, enganando a todos por meio do “paralogismo de curto-circuito” descrito por Daniele Giglioli e ampliando ainda mais o “campo de distorção da realidade” que também contamina os seus pares. Trata-se mais do que uma doença mental: é uma pneumopatologia que também se estende pelo resto da sociedade que não depende diretamente desses sujeitos, mas que se deixa influenciar por suas ideias (é o caso específico da elite econômica), graças ao “clima de opinião” que impede que se alcance uma orientação adequada. É a tirania de uma minoria, sem dúvida, mas uma minoria que tem a força e o poder de dominar a maioria justamente porque esta permite que isto aconteça — e o motivo desse fenômeno é deveras simples: essas pessoas aparentemente bem educadas têm a ilusão de que precisam ser governadas por alguém aparentemente superior a elas.

A gênese desta ideia estaria em Platão, mais especificamente no diálogo A República, na famosa parte em que Sócrates defende que a polis deveria ser comandada por um “rei-filósofo” e seus asseclas — os guardiães. De acordo com Robert A. Dahl no livro A Democracia e Seus Inimigos, o governo dos guardiães, a guardiania, é sempre uma perene alternativa ao regime democrático atual porque, “segundo essa concepção, é absurdo imaginar que se possa confiar que as pessoas comuns entendam e defendam seus próprios interesses, quanto mais os interesses da sociedade em geral”. Essa “atração poderosa ao longo da história da humanidade” de que uma minoria de pessoas saiba exatamente o que o resto da sociedade deseja aparentemente não veio apenas de Platão; dominou também as ações de Confúcio, os tratados de Marx e Engels, os manifestos de Lênin e as terapias behavoristas de B.F. Skinner. Apesar de serem homens marcantes da nossa trajetória espiritual, também tinham seus lances de IYI (como todos nós). Confundiam a competência técnica e instrumental dos seus respectivos assuntos sobre os quais tinham absoluto controle (a arte de governar, economia, psicologia, filosofia, etc.) com a competência moral de terem a certeza a respeito do que seria o bem comum para os outros. Por isso, não à toa que se consideravam nada mais nada menos como “especialistas” com a missão de determinar o curso de um país.

Porém, não é apenas o ponto da especialidade que incomoda — é também o fato de que os IYIs têm a crença absoluta de que o seu conhecimento técnico e instrumental é a garantia do progresso da humanidade. Sem eles, jamais chegaríamos às notáveis inovações que hoje fazem a nossa alegria. É aqui que a observação de Robert Dahl sobre a origem da guardiania nos escritos de Platão se mostra equivocada. O filósofo grego nunca colocou o conhecimento técnico em detrimento do conhecimento moral; na verdade, este último era o único conhecimento que bastava — e a filosofia era um método ascético para alcançá-lo e que, no fim, sempre viveria em constante tensão com a ação política, como o próprio deixa claro não só em A República, mas, sobretudo, em seu último diálogo, As Leis. Para seremos mais exatos, se levarmos em conta que A República não é uma obra sobre uma utopia e sim o seu contrário — ou seja, sobre um governo que não tem como ser efetivo simplesmente porque é composto de logoi, de palavras — fica claro que Platão acreditava em uma guardiania que nascia espontaneamente e que tinha como meta suprema a paideia, a educação da alma, para se alcançar a eudaimonia, a bem-aventurança.

Este percurso filosófico seria corrompido na modernidade, com o seu germe instalado no humanismo cristão, por meio dos escritos de Erasmo de Rotterdam e Thomas More (este exceto na última fase da sua vida), e depois levado aos limites da loucura pelos philosophes franceses como Diderot e Barão de Holbach e um polemista suíço chamado Jean-Jacques Rousseau. Para estes sujeitos, o conhecimento técnico e instrumental era fundamentado pelo uso da razão humana que, por sua vez, suplantava o conhecimento moral do que seria o bem e o mal, desde que, obviamente, passasse pelo filtro do pensador que decidiria o que era um e o que era o outro. Eis aqui o começo dos nossos IYIs.

A diferença essencial entre os guardiães de Platão e os guardiães modernos é que os primeiros pretendiam libertar o homem interiormente enquanto os segundos usavam do conhecimento e da inteligência de cada um para a construção de um projeto de poder para dominar e — mais — mudar a natureza humana. Atualmente, na nossa era repleta de tecnologia interconectada e de intervencionismo estatal (um assunto fomentado pelos IYIs, como veremos em breve), este projeto de poder se transformou em uma fortaleza integrada dedicada à expansão das forças progressistas, uma Catedral (de acordo com a terminologia de Mencius Moldbug), que controla absolutamente todas as estâncias do saber, como as universidades, a imprensa, a cultura e as instituições governamentais — tudo em função desta mentalidade totalitária que pretende controlar o homem a qualquer custo.

As consequências disso são terríveis porque, em primeiro lugar, ninguém sabe o que isso provocará para os demais cidadãos que não vivem dentro desta bolha cognitiva — ou seja, as pessoas normais que sequer ousam ser IYIs — e, em segundo lugar, esses sujeitos brincam com algo que não pode ser reduzido — no caso, a própria definição do que seria a inteligência (e, por sua vez, do que seria a tal da estupidez). Este é, por exemplo, o argumento principal de um dos livros mais perturbadores já publicados nos últimos tempos, The Bell Curve (“A Curva Normal”, de 1994), de autoria de Charles Murray (cientista político) e Richard Herrnstein (psicólogo behavorista) e que apresenta semelhanças assustadoras com o mesmo diagnóstico feito por Christopher Lasch em A Revolta das Elites e a Traição da Democracia (também de 1994).

O primeiro livro foi criticado erroneamente por aquilo que não é. Seus acusadores alegaram que seria uma obra racista, uma vez que ela faria a relação entre raça e inteligência, ao falar da existência de uma divisão extrema de classes na sociedade americana, fundamentada nas habilidades cognitivas dos seus habitantes. Para Murray e Herrnstein, a inteligência é um “dom”, um “mistério”, um “lance de sorte” que muito provavelmente tem uma origem genética ou, em alguns casos, circunstancial, e que pode ser desenvolvida ou refreada conforme o ambiente social em que o sujeito vive. Contudo, os dois pesquisadores não caem no determinismo de carteirinha. Conforme ocorre a leitura dos gráficos e das estatísticas, eles mostram que, justamente por causa da inteligência ser um fator que depende do acaso, os membros privilegiados daquilo que Murray e Herrnstein chamam de “classe cognitiva” teriam a obrigação moral de auxiliar os que fazem parte da classe menos desenvolvida e provocar o seu desenvolvimento educativo e social de maneira adequada. A inteligência é um “dom”, sem dúvida, mas um “dom” que também pode ser incrementado ou, no caso da falta dela, substituído por outras habilidades que ajudariam no sustento do menos privilegiado. Não é o que acontece. The Bell Curve afirma que a “classe cognitiva” se isolou entre seus membros, justamente para preservar os dons da inteligência entre eles, não repartindo-os com os demais, em especial os pobres e os necessitados, entrando em um círculo vicioso que, para diminuir a culpa, é transformado no poder progressista de alimentar um Estado paternalista que, no fim, precisa deformar a natureza humana para manter-se intacto.

Murray e Herrnstein descreveram precisamente o funcionamento da Catedral diagnosticada por Moldbug e o modo como “a revolta das elites” vista por Lasch transformou para pior o funcionamento da nossa sociedade democrática. No fundo, não somos dominados pela suposta aleatoriedade da nossa inteligência, e sim pelas pessoas que tentam controlar o rumo desta incerteza. A Catedral, a “classe cognitiva” e as elites revoltadas são prismas de um mesmo problema. Trata-se da “tirania dos especialistas” que, no fundo, só se preocupam com a manutenção do seu poder, mesmo que eles continuem com o comportamento de idiotas que conduzem outros idiotas — no caso, nós, pobres mortais.

3.

Em um livro chamado justamente The Tyranny of Experts — Economists, Dictators and the forgotten rights of the poor (usado também sem pudor para nomear este ensaio — um hábito de muitos IYIs, entre os quais me incluo, sem dúvida), o cientista político William Easterly descreve os supostos pontos teóricos que mostram onde está o erro dos IYIs que pretendem decidir sobre o nosso futuro e o nosso bem-estar.

Segundo o raciocínio de Easterly, a abordagem convencional desses senhores, especialmente nas áreas do desenvolvimento econômico e das políticas públicas, é baseada em uma ilusão tecnocrática — isto é, a crença de que a pobreza e a desigualdade social são problemas puramente técnicos que podem ser remendados por meio de soluções igualmente técnicas. Graças a esta ilusão tecnocrática, os especialistas dão, de maneira involuntária, novos poderes e uma legitimidade ao Estado como o único que aplicará essas soluções técnicas. Em geral, este “círculo dos sábios” é composto por economistas que têm uma ingenuidade ímpar em relação aos assuntos do poder ao acreditarem que este sempre ficaria sob os seus domínios, de acordo com o controle exercido pelo seu conhecimento instrumental. Assim, Easterly brinca que, se antes tínhamos o “direito divino dos reis”, agora temos o “direito de desenvolvimento dos ditadores”, justificado por um desenvolvimentismo autoritário, uma tecnocracia que, no fim, pretende mostrar que deveríamos ser “comandados pelos especialistas”.

O resultado evidente disso é que esses mesmos especialistas, movidos por suas abstrações, passam a violar os direitos individuais dos pobres, dos necessitados, e depois da classe média, até atingir justamente aqueles que os sustentam: a elite especulativa econômica. Os IYIs se esquecem que os problemas técnicos pelos quais os pobres sofrem (a fome, a falta de assistência sanitária, a segurança) são um sintoma da pobreza, não uma causa da pobreza. O motivo desta tragédia contemporânea que vivemos, nas palavras acertadas de Easterly, é que a “tirania dos especialistas”, ao justificar o poder do Estado para executar suas loucuras sofisticadas, permitiu a completa ausência dos direitos políticos e econômicos que encontra sua raiz no descaso pelos direitos individuais de cada cidadão, ao serem substituídos por uma consciência coletiva que vê o ser humano igual a uma estatística.

Um exemplo deste tipo de abstração conceitual perigosíssima é a eterna discussão do conflito entre o Estado e o mercado — algo muito comum no Brasil, principalmente na “classe cognitiva” dos soi-disant liberais e libertários. O que esse pequeno grupo não percebe é que a própria existência desta discussão fortalece ainda mais o poder estatal, pois o que está em jogo não é a regulamentação do mercado pelo Estado ou o afrouxamento das leis para permitir o respiro da “mão invisível”. O risco está em se esquecer do óbvio ululante de que, seja lá qual for o lado que ganhará este debate infinito, qualquer Estado é capaz de violar os direitos de indivíduos particulares sem ter nenhuma perspectiva de ser punido. Além disso, é o líder do Estado que decidirá, graças às leis, o que significa uma política de “mercado”. Portanto, a função dos IYIs é criar uma teoria requintada que justifique tamanha espoliação.

Não estamos condenando os especialistas por si, muito menos defendendo o anti-intelectualismo em favor de uma sabedoria prática do “senso comum”. O que se discute aqui é a completa falta de suspeita que os IYIs têm das suas ideias, ao acreditarem que elas seriam imunes aos labirintos do poder. Não estão. É só lembrar o que aconteceu na Alemanha Nazista na década de 1930. Sem os intelectuais, não existiria Hitler. O historiador Richard J. Evans conta em detalhes impressionantes, no seu livro A Chegada do Terceiro Reich, como “a maioria dos professores alemães permaneceu nos cargos [universitários]”. Eles “compartilharam em muito a visão dos parceiros nacionalistas da coalização de Hitler de que a democracia de Weimar tinha sido um desastre e que estava mais que na hora da restauração das velhas hierarquias e estruturas. Muitos, porém, iam além disso e positivamente saudaram o Estado nacional-socialista, em especial se lecionavam ciências humanas e sociais. Em 3 de março, cerca de trezentos professores universitários emitiram um apelo aos eleitores para que apoiassem os nazistas, e em maio nada menos que setecentos integraram um abaixo-assinado em favor de Hitler e do Estado nacional-socialista. Na Universidade de Heidelberg, o sociólogo Arnold Bergsträsser justificou a criação pelo regime de unidade entre Estado e sociedade como sendo uma forma de superar o fracasso patente da democracia; enquanto isso, o advogado Walter Jellinek defendeu a ‘revolução’ de 1933 como antiliberal mas não antidemocrática e declarou que os cidadãos adquiriam a dignidade de ser plenamente humanos apenas por meio da subordinação ao Estado. Membro do Partido Popular Alemão e um forte oponente de direita da República de Weimar, Jellinek concordava que as medidas antijudaicas do regime eram necessárias devido à superlotação da classe acadêmica. Também achava — pressagiando a visão de historiadores posteriores — que o poder de Hitler seria limitado pela existência de outros centros de poder no Reich. Mas, onde quer que isso pudesse ter acontecido, não foi o caso da política do regime em relação aos judeus; na verdade, Jellinek era judeu, e, por isso, foi devidamente removido de seu cargo no decurso da revolução nacionalista que ele tão calorosamente havia recebido. Outros professores da mesma faculdade reivindicaram que a lei fosse a expressão da alma do povo, e que os juízes dessem seus vereditos de acordo com a ideologia nazista. Um professor de alemão declarou que a revolução nazista havia dado novo sentido patriótico ao estudo da língua alemã. Condenou o ‘pensamento judaico’ e a ‘literatura judaica’ por minar a ‘vontade de viver’ alemã”.

A mesma coisa aconteceu na União Soviética. Não só intelectuais, professores e juristas se fecharam em uma “espiral do silêncio” para deixar Stalin em pleno domínio de suas existências mesquinhas, mas também os artistas — entre eles o músico Dmitri Shostakovich, numa trajetória brilhantemente dramatizada por Julian Barnes em seu romance mais recente, O Ruído do Tempo. Independente da discussão que ocorre entre os scholars de música erudita, ao afirmarem que o russo usava de estruturas musicais repletas de ironia para marcar sua verdadeira posição diante do regime comunista, o que interessa a Barnes é o modo como um sujeito genial cria ilusões sofisticadíssimas para conseguir viver consigo mesmo em um ambiente pleno de brutalidade política. Na perspectiva do Shostakovitch ficcional, tudo vale a pena para a sua criação artística, mesmo que use a desculpa de ser um “técnico da sobrevivência” ou então que não admita para si mesmo que foi um pusilânime ao negar publicamente sua admiração por Igor Stravinski. Barnes descreve explicitamente esse arranjo como uma “destruição da alma humana”, na qual a vida deixava de ser “um passeio no campo”, com a tal da alma podendo ser “destruída de três maneiras: pelo o que os outros faziam; pelo o que os outros obrigavam a fazer; e pelo que alguém escolhia voluntariamente fazer. Qualquer um desses métodos era suficiente; embora o resultado fosse irresistível quando todos os três eram combinados”.

A combinação desses três métodos é o prato favorito dos nossos atuais IYIs, como podemos ver no lançamento recente de um livro que parece servir apenas como defesa desta corporação de luminares — um besteirol chamado The Death of Experts, de Tom Nichols, um suposto especialista em cultura russa, mas que, no final do seu pequeno tratado, confessa sem nenhum constrangimento que previu erroneamente, no início dos anos 2000, que a Russia se aproximaria da democracia com o surgimento de… Vladimir Putin. No fundo, a tese de Nichols é a mesma da de um Mario Vargas Llosa que argumenta, em seu infinitamente superior A Civilização do Espetáculo, que o especialista, ou o que o escritor peruano chama de “intelectual público” (no fundo, duas variações do IYI), está com o seu prestígio seriamente abalado na sociedade moderna porque as pessoas comuns não precisam mais de seus serviços. Aqui vão as palavras de Vargas Llosa, pelo simples motivo de que elas explicam melhor a situação do que o livro pueril de Nichols: “Em nossos dias, o intelectual desapareceu dos debates públicos, pelo menos dos que importam. É verdade que alguns ainda assinam manifestos, enviam cartas a jornais e se metem em polêmicas, mas nada disso tem repercussão séria na marcha da sociedade, cujos assuntos econômicos, institucionais e até mesmo culturais são decididos pelo poder econômico e administrativo e pelos chamados poderes de fato, entre os quais os intelectuais são ilustres ausentes. Conscientes da posição secundária a que foram reduzidos pela sociedade na qual vivem, sua maioria optou pela discrição ou pela abstenção no debate público. Confinados em sua disciplina ou em seus afazeres particulares, dão as costas àquilo que há meio século se chamava de ‘compromisso’ cívico ou moral do escritor e do pensador contra a sociedade. Há exceções, mas, entre elas, as que costumam contar — porque chegaram à mídia — estão mais voltadas para a autopromoção e o exibicionismo do que para a defesa de algum princípio ou valor. Porque, na civilização do espetáculo, o intelectual só interessa se entrar no jogo da moda e se tornar bufão”.

O erro mortal de Vargas Llosa e Tom Nichols está no fato de não perceberem — talvez por interesse próprio — que o intelectual faz parte, sim, da estrutura dos “poderes de fato”. E mais: ele é a estrutura que fundamenta tal tipo de poder que não preserva qualquer espécie de direito individual. No fundo, o que os diagnósticos do peruano e do americano mostram é o temor de cada um perder os seus respectivos empregos na Catedral dos IYIs. Segundo eles, a solução para manter alguma pureza de espírito é fugir de uma vez por todas rumo a uma “torre de marfim” — como foi o caso do falecido filósofo inglês Derek Parfit, um gênio que parece ter saído de várias páginas escritas pelo padre A.D. Sertillanges, tamanho o seu medo de perder a dignidade do pensamento diante da aspereza do real. Em um brilhante artigo escrito sobre a vocação da vida do espírito (e que usa Parfit como exemplo), o professor Gabriel Ferreira mostra que o comportamento do inglês seria uma meta ideal para a restauração de uma “terapia do debate”. Ao mesmo tempo, Ferreira sabe que este tipo de atitude é “uma dupla pedra de tropeço […] porque duas das mais recorrentes modalidades de análise e crítica da universidade — e aqui quero me ater, fundamentalmente, às humanidades na universidade — encontram em Parfit, e em outros como ele, um obstáculo, senão um retumbante desmentido, a seus pareceres”.

Essas “duas espécies de exame crítico acerca das relações entre a vida intelectual e a academia” passam pelo fato de que o debate se tornou completamente viciado tanto na universidade como também nos meios que a criticam — por sua vez, igualmente compostos por IYIs. Derek Parfit é um modelo a ser seguido, mas também é a exceção à regra porque atualmente poucos intelectuais, sejam de esquerda ou de direita, têm folego para produzir os três tomos gigantescos da última obra do inglês, chamada ironicamente de On What Matters (Sobre o que importa). De acordo com Ferreira, a situação é tão estéril que “ficamos então entre o pior de dois mundos. De um lado, uma autocrítica preguiçosa que critica o cisco, mas deixa passar a trave do afastamento de sua vocação e impulso primeiros. De outro, um mau diagnóstico externo que incorre no mesmo engodo que pretende denunciar, ou seja, em benefício próprio — seja para vender-se, seja para inflar o ego —, ignora solenemente qualquer distinção entre o joio e o trigo. Os dois lados são, portanto, vítimas de um jargão que se repete quase de maneira autômata: o jargão da má academia. Cada um a seu modo, acadêmicos e contra acadêmicos remodelam tal jargão da crítica para que ele aponte para nada além do que, para ambos os lados, atende a seus interesses”.

A angústia de Gabriel Ferreira é a mesma daqueles que se deixaram ficar reféns da “tirania dos especialistas”. No final do seu texto, ele se pergunta: “O que fazer da autêntica vocação à vida intelectual em nosso mundo?” Em um ambiente onde a inteligência e a estupidez se transformaram em “dons” do acaso, como o pobre coitado que deseja dedicar-se ao que realmente importa não se tornará, voluntaria ou involuntariamente, em um IYI?

4.

Não foi à toa que Robert Musil mostrou em sua palestra que esta ambição desmesurada do intelectual “não é tanto uma falta de inteligência, porém muito mais sua falha, porque tem pretensão de desempenhar o que não lhe compete”. Assim, o IYI (ou o estúpido que se julga inteligente, nas palavras do austríaco) “pode ter em si todas as características de um intelecto fraco, mas tem também todas que são causadas por qualquer afetividade em desequilíbrio, disforme, fraca, com mobilidade irregular, em suma, toda aquela que se desvia da saúde. Como não existem afetividades ‘padronizadas’, nesse desvio se expressa, mais precisamente, uma interação insuficiente entre as parcialidades do sentimento e um intelecto que não basta para refreá-las. Essa estupidez superior é a verdadeira doença da educação (esclarecendo um mal-entendido, ela significa deseducação, educação deformada ou errada, desproporção entre matéria e força da educação) e descrevê-la é quase uma tarefa infinda. Ela atinge até a mais alta intelectualidade; pois, se a autêntica estupidez é uma artista silenciosa, a inteligente é a que colabora com a agitação da vida intelectual, mas de preferência em sua instabilidade e esterilidade. Há muitos anos escrevi sobre ela: ‘Não há nenhum pensamento importante que a estupidez não saiba aplicar, ela se move em todas as direções e pode vestir todas as roupas da verdade. A verdade, ao contrário, tem apenas uma roupa em qualquer ocasião, um só caminho, e sempre está em desvantagem’. A estupidez a que nos referimos aqui não é uma doença mental, porém a doença mais perigosa da mente, perigosa para a própria vida. Decerto cada um de nós deveria rastreá-la dentro de si mesmo e não somente reconhecê-la em suas irrupções históricas” [grifos nossos].

Entretanto, ao reconhecermos a estupidez inteligente em nós mesmos, é fundamental também localizarmos a nossa responsabilidade diante dos nossos atos e, se você for um IYI, das nossas ideias. Se a grande tragédia dos nossos dias é o fato desses especialistas prejudicarem nossos direitos individuais, isto ocorre porque eles não respondem mais pelos próprios conselhos que deram à sociedade onde vivem. E esta deveria ser a primeira medida para acabar com esta jaula enferrujada que nos sufoca. Já a segunda restrição a este “círculo dos sábios” surge de outro conselho dado por Musil: como o “nosso conhecimento e nossa sabedoria são incompletos, somos obrigados a emitir juízos prematuros em todas as ciências, mas com esforço aprendemos a manter esse erro dentro dos limites conhecidos e ocasionalmente corrigi-los. Através disso, a correção reaparece em nosso agir. Na verdade, nada impede que se transfira para outra área esse julgamento e agir exatos, ao mesmo tempo, orgulhosos e humildes, e acredito que a intenção ‘Aja tão bem quanto puder e tão mal quanto for necessário, e tenha consciência dos limites de erro de seus atos!’ seria já meio caminho andado para um modo de vida promissor”.

O que Musil repete aqui é o mesmo bordão escrito por Michel de Montaigne no famoso ensaio “Apologia de Raymond Sebond”: Que sais-je? O que eu sei? Quase nada, esta é a resposta — algo que, infelizmente, graças ao progresso da tecnocracia, os IYIs se esqueceram completamente. A humildade de entender que sabemos muito pouco e a responsabilidade para assumir as consequências dos nossos atos são os dois pilares de sabedoria que ajudariam a manter a sociedade atual um pouco mais saudável. Mas, além disso, pode haver um terceiro, mais ousado e, no fundo, mais divertido. Trata-se daquilo que o escritor americano Mark Manson chamou de the subtle art of not giving a fuck — a sutil arte de ligar um “foda-se”, em bom português. O estúpido inteligente é, na verdade, alguém que só entra no jogo do poder porque se importa com a sua reputação. Tire isso dele e o IYI passa a ser um fodido. Se as pessoas normais são vítimas da “tirania dos especialistas”, estes pobres-diabos são reféns da sua “tirania” particular — a do status e do prestígio. Destrua este frágil alicerce e o castelo se revela feito de areia. Ainda assim, hoje em dia, dar um “foda-se” a tudo que está aí requer uma coragem incalculável. Mas, quem sabe, ao iniciarmos a fuga desta jaula que criamos para nós mesmos, descobriremos que esta sutil arte não é algo tão difícil?