“A Coerência das Incertezas” — um ensaio narrativo (III)

But think on: that which is difficult

preserves democracy.

Geoffrey Hill, “On reading Crowds and Power”.

Santinho de Getúlio Vargas

ORAÇÃO GETULISTA

Creio em Getúlio Vargas, todo poderoso, creador das leis trabalhistas. Creio no Brasil e no seu filho, nosso patrono, o qual foi concebido pela revolução de 30. Nasceu de uma Santa Mãe, investiu sobre o poder de Washington Luiz, foi condecorado com o emblema da República, desceu no Rio no terceiro dia, homenageou os mortos, subiu ao Catete e hoje está assentado em São Borja, donde há de vir para nova vitória. Creio em seu retorno ao palácio do Catete, na comunhão dos pensamentos na sucessão Presidencial, Amém.

Salve! ó Pátria Gloriosa

Salve! ó Céu azul de anil

Salve! Getúlio Vargas

Orgulho do nosso Brasil

Salve! este povo que sofre

Deste país rico e forte

Salve! Getúlio Vargas!

Do Brasil, de sul a norte!

Salve! ó intrépido heroe

Désta raça varonil!

Salve! Getúlio Vargas!

Salve! nosso Brasil!

Nota: Para o bem da nação tire cópias desta oração e envie a seus amigos patriotas.

Parece que alguém cumpriu à risca o que a nota ordenava. No Rio de Janeiro em fins de 1948, com o calor subindo aos poucos, até atingir o seu ápice em meados de março, qualquer pessoa que andasse pela rua recebia de um desconhecido ou até de um amigo este papel. Em várias assembléias do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), o partido de Getúlio Dornelles Vargas, o ex-presidente que foi deposto do Catete em 1945, mas, quatro anos depois, preparava a volta com a previsível calma, todos comentavam a sua provável candidatura. Vargas sabia que o Poder ainda não o abandonara — ele apenas fazia o papel de mero observador, aproveitando-se do seu cargo como senador (uma forma de desculpas e de agradecimento do povo pelos quinze anos de ditadura) para se retirar displicentemente na fazenda Santos Reis, em São Borja. Contudo, a Oração Getulista distribuída de maneira planejada mostra como o movimento do queremismo estava organizado e como Getúlio Vargas continuava na mente do povo a ser o eterno pai dos pobres, o único homem que acreditava no trabalhador brasileiro quando, na verdade, ele usava essa ilusão — afinal, é disso que o povo se alimenta — para reaver o que lhe era mais precioso: a glória da História.

E se havia um jornalista que pressentia o que iria acontecer — a Segunda Vinda do Salvador — era Assis Chateaubriand, o paraíba que lhe chamava de “Ditador”. Agora, Chateaubriand não tinha apenas um ou mais jornais: possuía uma rede de empresas que se espalhava pelo Brasil e tinha o nome de Diários Associados. Era o homem que comandava qualquer informação do país. E tudo isso foi alcançado no prazo recorde de dez anos e graças ao apoio benevolente do seu pai dos pobres, o caudilho Getúlio Vargas.

Na terça-feira do Carnaval de 1949, Vargas voltava de uma rotineira cavalgada pelos prados de Santos Reis quando o criado o avisou:

— Chegaram uns jornalistas querendo conversar com o senhor, Vossa Excelência.

— Quem são?

O criado lhe entregou um cartão. Estava escrito: “SAMUEL WAINER — O Jornal — Diários Associados”. Vargas não sorriu. Esperava aquele homem há algum tempo.

— Diga a eles para esperarem que não tardarei ao encontro deles. E, por favor, sirva um copo de água bem gelado a cada um dos senhores.

Um copo de água gelado era tudo o que Samuel Wainer queria enquanto olhava o sol se pondo no horizonte gaúcho. Fazia um calor excessivo, muito parecido com o do Rio de Janeiro. Sua testa suava um pouco. Ao lado do fotógrafo Laudo Porto e de Thadeu Omar, repórter do Diário de Notícias, Wainer pensava em como o ex-ditador iria recebê-lo. Os dois se falaram poucas vezes. Na maioria das vezes, informações para alguma reportagem da revista Diretrizes — e nada mais. A fama de Wainer era de comunista — categoria que todo jornalista tinha como carimbo aos olhos de Vargas. Mas eles eram a imprensa brasileira, e a imprensa é sempre a principal causa de uma derrota. A vitória fica para os que pensam em agradar os jornalistas. E jornalista é a raça mais ingrata do mundo — a raça na qual você só pode confiar se o Poder o proteger e se o interesse for mútuo e significativo, pois é ele que move o mundo.

Samuel Wainer e Getúlio Vargas

O criado chegou com três copos de água sobre uma bandeja de prata. Wainer tomou-o rapidamente. Queria estar pronto quando Vargas chegasse. Como seria esta conversa? Nem ele sabia — tinha algumas perguntas sobre a sucessão presidencial, sobre a situação do petróleo. E só. Em uma de suas raras vezes na sua vida de repórter, Samuel Wainer não tinha preparado uma pauta. A única coisa que conhecia era plantação de trigo, plantação de trigo e plantação de trigo — pelo menos, era essa a missão que Chateaubriand lhe havia dado: provar que o Brasil não tinha condições de se sustentar na sua agricultura. Entretanto, ao ver Getúlio Vargas entrar na sala de visitas de Santos Reis, bronzeado, bem humorado, os olhos brilhando com uma estranha satisfação, Samuel Wainer percebeu que trigo era o que menos importava para Chateaubriand. Vargas não estava sorridente com um repórter porque tinha acordado com o pé direito. Aquela entrevista não estava acontecendo por acaso. E, do mesmo modo que Wainer notou que estava sendo usado pelos homens mais poderosos do Brasil, ele decidiu que iria usá-los para o seu próprio interesse.

Na manhã do dia 3 de março de 1949, as manchetes de O Jornal afirmavam: “SIM, EU VOLTAREI. NÃO COMO LÍDER POLÍTICO, MAS COMO LÍDER DE MASSAS”. Quem provava o mito do eterno retorno era Vargas, como sempre. Ele seria o exemplo de que a política não é fazer a arte do possível, mas sim a de ressuscitar várias vezes. Na reportagem escrita por Samuel Wainer — e aprovada integralmente por Assis Chateaubriand — o ex-presidente Getúlio Vargas confirmava a sua candidatura nas eleições presidenciais de 1950. Com uma tiragem diária de 9 mil exemplares (um número baixo, sem dúvida, mas multiplique isso pelos outros vinte jornais que faziam parte dos Diários Associados e pelas emissoras de rádio), a matéria de O Jornal fez a publicação triplicar a tiragem e provocou uma reviravolta nos bastidores do Catete. A volta de Vargas seria o estopim de um episódio que a História do Brasil não conseguiu terminar até hoje.

Chateaubriand ficou exultante com o trabalho de Wainer. Depois do encontro com Vargas, o filho de imigrantes judeus se tornou “o príncipe dos Diários Associados”. Ia com o chefe em reuniões, jantares, almoços onde uma outra sociedade que ele nunca viu se apresentava e via o jornalista franzino, de bigodinho, como “um animal de estimação, um ursinho”. Conforme conta em sua autobiografia Minha Razão de Viver, Wainer foi com Chatô em um almoço na casa de Jonh McCrimmon, o superintendente da Light no Brasil. A Light era a empresa britânica que comandava a luz, o gás, a água e os telefones do País na década de 50. E McCrimmon, um escocês gordo, sarrista, tinha todos os donos de jornais na palma da mão — até mesmo os comunistas — pois distribuía propinas anuais para a manutenção das empresas. Wainer encontrou com os convidados no almoço e sentiu-se envaidecido: afinal, quem ia a estes eventos tinha uma grande reputação social. Eles querem saber — em especial, McCrimmon queria saber — como estava Getúlio Vargas no seu isolamento em São Borja. E Wainer contava tudo detalhadamente, e todos gargalhavam, McCrimmon, Chateaubriand e o homem ao lado dos dois últimos, o presidente Enrico Gaspar Dutra. Dutra e Chatô riam sem parar, e o dono dos Diários Associados chegou ao ponto de dar um tapinha no traseiro do presidente.

— Temos que continuar essa ditadura — dizia ele — Aquele homem precisa ser liquidado.

— Conta! Conta! Conta mais!

Wainer esboçava um riso. Eles acreditam que Vargas está isolado do povo, de tudo. Estão enganados. E o motivo pelo qual Chateaubriand pode dar um tapa carinhoso na bunda do Presidente da República é que ele pretende fazer a primeira estação de TV brasileira e que Dutra é um fracote. Vargas nunca deixaria isso acontecer. Nada aconteceria sem o seu aval.

— Conta mais! — repetia McCrimmon.

Ele contaria pela milésima vez. Gostava daquele mundo. Mas não gostava de ser usado, de ser tratado como bom ursinho de pelúcia. Usaria eles também — e teria ajuda justamente daquele que debochavam.

Um dos elementos mais interessantes ao narrar uma história que envolva o tema do Poder (e qual história não envolve esse tema?) é o fato de ter sempre os duplos. Isto é, quando você pensa que um sujeito é um canalha, existe um outro pior ainda. Assim são os duplos: duas pessoas que se dizem estarem em lados opostos mas estão querendo a mesma coisa. E o fim comum é o Poder. Não seria diferente com Samuel Wainer. Ele tinha o seu duplo, um duplo que não devia a nenhum dos requisitos básicos para a conquista da glória, um duplo que seria outros duplos, e não só o do judeu Wainer, mas do caudilho Vargas, do paraibano Chatô e de um exército de militares. Este homem foi o eterno se da História brasileira: e se ele tivesse feito isso? E se ele tivesse conquistado aquilo? E se ele tivesse andado para a direita ou para a esquerda? A História também se nutre de permanentes suposições, mas Carlos Lacerda era mais do que uma suposição: era a concretização de todas as suposições. Carlos Lacerda era o duplo que Samuel Wainer não queria ter e seria o corvo que arrancaria as primeiras pelotas de carne de Getúlio Vargas muito antes dele dar o tiro no coração no dia 24 de Agosto de 1954. Sua habilidade política, sua ferocidade de polemista, o faro de jornalista e a visão do erudito o transformavam no mais perigoso dos adversários. E o que o tornava mais perigoso era que ele tomara posse do controle da moral e dos bons costumes — algo que pessoas como Getúlio Vargas usavam apenas como máscara de piedade. Wainer estava certo de chamá-lo de “O Corvo”, apelido que pegou até mesmo na redação de seu jornal A Tribuna da Imprensa onde os funcionários o chamavam respeitosamente de “A Ave”. Carlos Lacerda era o único que podia entrar pela janela e anunciar, com todos os adjetivos possíveis, que tudo iria se acabar.

Como a ave que lhe apelidaram, Lacerda entrava no jogo sem tempo para brincadeiras e sabendo muito bem o que queria: ganhar. Não se importava em derrubar um presidente. Ao saber da candidatura de Vargas, escreveu um polêmico editorial afirmando que “O Sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”. Por “revolução” não confundir com “revolução socialista” — Lacerda havia abandonado suas ligações com o Partido Comunista depois de ter sido acusado de delator por causa de uma reportagem na qual citava nomes de integrantes que estavam na prisão ou então refugiados (entre os nomes, estavam Rodolfo Ghioldi e Arthur Ewert, organizadores da Intentona de 1935). A revolução que Lacerda empregava como solução tinha um outro fim: alçá-lo de vez ao centro do poder, em especial no centro do Catete. Sua batalha pela moral e os bons costumes era mais um passo neste caminho.

Carlos Lacerda

Lacerda tinha aliados interessantes. A Igreja Católica e toda uma série de partidários descontentes tanto com a direita como a esquerda. Se alguém quiser fazer uma classificação da posição política de Lacerda pode-se dizer que ele era um ferrenho anti-comunista, um homem de direita chegando às raias do reacionarismo. Mas, na verdade, ele sempre foi como Assis Chateaubriand que, independente de qual lado o Poder estivesse, a lógica de ambos era a polêmica, nada mais que a polêmica.

Não é difícil chocar o povo brasileiro — esta é uma das maneiras de enganá-lo. Principalmente em 1950, com uma eleição tão estranha, assustadora, histórica, na qual Getúlio Vargas concorreria com Eduardo Gomes da UDN (o candidato apoiado por Carlos Lacerda), Cristiano Machado do PSD (partido do presidente Dutra) e João Mangabeira, do Partido Socialista. O vencedor era claro desde o início — ninguém vai distribuir aquela oração sem esperar que seu deus lhe retorne a paga. Vargas ganhou a disputa com 48,7% dos votos. O antigo ditador do Estado Novo voltava como líder democrático, o pai dos pobres que veio para uma segunda chance, o homem que iria entrar numa viagem dentro da tormenta. No entanto, o povo continuava como um mero espectador, sem uma verdadeira participação ativa, sendo bombardeado por insultos e farpas e ameaças de morte, tudo muito confuso e apenas com uma certeza que também podia ser uma pergunta: Quem estava ganhando com tudo aquilo?

Com a vitória de Getúlio Vargas, não era Assis Chateaubriand. E por incrível que pareça, pela primeira vez o tão destemido paraíba estava com medo do caudilho de São Borja. Em um desses erros táticos que qualquer um comete, Chateaubriand escreveu um artigo violento xingando o ex-presidente de “O Monstro”, antes da reeleição. E o monstro retornou como presidente — o que fazer? A vingança é um prato que se come frio, e Chateaubriand não queria ficar congelado com Vargas. Isso poderia atrapalhar os planos da estação de TV que desejava criar no Brasil. Foi Samuel Wainer quem propôs o reencontro.

— Ele não me recebe — respondeu Chatô.

— Eu me encarrego de estabelecer o contato entre você dois — reafirmou Wainer.

Os olhos de Chateaubriand brilharam. Ele vestia um smoking para mais uma festa com a alta sociedade. De repente, perguntou a Wainer:

— A propósito, seu Wainer, o senhor tem automóvel?

— Não. Não tenho carro. Nem sei dirigir.

— Mas um homem como o senhor tem que ter um automóvel.

— Então que o senhor aumente o meu salário.

— Eu compro.

— Como?

— Eu compro o carro. E logo que Vargas e eu fizermos as pazes, tomaremos a Schering, e o senhor será diretor da Schering.

— Não quero, obrigado. Não quero ser outra coisa além de jornalista.

Mas Chateaubriand continuava falando:

— Eu lhe farei diretor da Schering.

Isso, continue a me tratar como um bichinho. Não quero ser diretor da Schering. Sou um jornalista — um grande jornalista. Trouxe um homem do fim do mundo e o levei de volta ao poder. E não recebi nenhum convite para ter um cargo de importância nos Diários Associados. Continuei sendo um repórter. Pensam que vou aceitar essa humilhação. Estão enganados. Muito enganados.

— Pode trazer, não tem importância.

Getúlio Vargas falou dessa forma a Samuel Wainer sobre o encontro com Chateaubriand. Como sempre, Vargas sabia que Chatô era útil, e Chatô sabia que Vargas era uma peça fundamental na sua vida. Logo, seria claro que os dois reatariam seus contatos — o que realmente aconteceu, num almoço na casa de Epitacinho Pessoa, onde Vargas e Chatô resolveram seus problemas em menos de dois minutos e passaram o resto da tarde contando piadas e anedotas. O único detalhe foi quando Chateaubriand entrou na casa de Pessoa. Um segurança enorme estava parado na porta. Ao ver Chatô, se aproximou dele e, sem dizer uma palavra, o empurrou. Wainer e Chateaubriand ficaram espantados. Resolveram entrar como se nada tivesse acontecido. O nome do segurança era Gregório Fortunato.

Em 31 de Janeiro de 1951, Vargas tomou posse. O povo o carregou pela rua do Catete. A imprensa, inimiga do ex-ditador (com exceção dos Diários Associados), ficou em silêncio. Em Petrópolis, Vargas convocara a primeira reunião ministerial. Somente Samuel Wainer dos Diários e uma repórter da Agência Nacional estavam presentes. Wainer tinha um nome para aquela reação da imprensa em geral — era uma conspiração do silêncio.

À noite, Wainer foi convidado para jantar com o presidente. Depois da refeição foram para uma sala reservada. Vargas acendeu um charuto e começou a andar calmamente, de um lado para o outro.

— Tu reparaste que hoje não veio ninguém cobrir a reunião? — o presidente perguntou.

— Sim. Estão fazendo uma conspiração do silêncio. O senhor só vai aparecer nos jornais quando houver algo negativo a noticiar. Essa é uma tática normal de oposição, e a mais devastadora.

Então Vargas parou.

— Por que tu não fazes um jornal?

Wainer pensou: “É agora. A chance que você esperava”.

— É o sonho de qualquer repórter.

— Então, faça.

— Como quer que faça?

— Não. Nada disso. Troque idéias com a Alzira e faça rápido.

— Em 45 dias dou um jornal ao senhor.

— Então, boa noite, Profeta.

— Boa noite, presidente.

E assim começou a maior aventura da vida de Samuel Wainer, conforme o próprio define em suas memórias. Profeta. Assim o chamava Vargas. Tinha uma lógica esse apelido. Wainer foi o homem que deu ao povo o anúncio das boas novas. O anúncio da Segunda Vinda. Mas um profeta é também um homem que precisa agir — e Wainer tinha um prazo. Quarenta e cinco dias. Claro que nunca conseguiria um jornal em quarenta e cinco dias. Mesmo assim, ele faria o jornal. Conversou com Alzira Vargas, filha do presidente. “Você deve encontrar os recursos sozinho. Se você conseguir, pode fazer”, disse ela. Procurou Walter Moreira Salles, jovem banqueiro do Unibanco. Procurou Euvaldo Lodi, poderoso empresário paulista. Procurou Ricardo Jefet, presidente do Banco do Brasil. Os três aceitaram — e foram 30.000 cruzeiros para um prédio e uma gráfica abandonados do jornal Diário Carioca. A reforma foi rápida. O segundo problema se desdobrou, na verdade, em dois: livrar-se de Assis Chateaubriand e encontrar uma equipe competente. O primeiro foi fácil de ser solucionado — num almoço no Clube Internacional, Wainer pede a Chatô que veja um prédio de quatro andares que fica no fim da avenida Presidente Vargas. “Sei, aquela caixa de fósforos”, disse Chatô. “Caixa de fósforos?”, perguntou Wainer. “É que a rotativa deles só dá 12.000 exemplares por hora. Eles são loucos”.

— Eu comprei aquela caixa de fósforos, senhor Assis. Vou fazer um jornal. O meu próprio jornal.

— Desejo-lhe muitas felicidades. Mas por que o senhor não compra os Diários Associados?

O tom na voz de Chateaubriand significava “Bem Vindo ao Clube dos Inimigos de Chatô”.

— Compraria se o senhor viesse junto. Com o senhor junto, pago qualquer preço.

— Não tem preço.

Assis Chateaubriand e Getúlio Vargas

Despediram-se. Uma despedida cheia de segundas intenções — intenções que Chateaubriand deixaria claro quais elas eram ao publicar um editorial de sua autoria sobre Wainer com o título O Ladrão. No entanto, o Profeta tinha de continuar. Chamou Octávio Malta, seu velho amigo; chamou João Etcheverry, Augusto Rodrigues, o diagramador paraguaio André Guevara, Nabor Caires de Brito, Paulo Silveira, Mário e Nelson Rodrigues. A equipe principal estava pronta. Faltava o nome do jornal — Última Hora foi o escolhido. E tudo foi indo num ritmo de efervescência própria na criação de um novo jornal, com Wainer deixando claro a todos suas ligações getulistas, e Vargas supervisionando tudo junto com Alzira, aconselhando o seu Profeta em como deveria enfrentar todos, principalmente os grandes jornais do País, e também os pequenos, que eram ferozes e agourentos — como a Tribuna da Imprensa de Carlos Lacerda.

Sim, Carlos Lacerda tinha também o seu jornal. E isso o tornava mais perigoso ainda. A Tribuna da Imprensa foi fundada em 1949 com o apoio da UDN e da Igreja Católica. A Agência Nacional de Informações tinha um relatório detalhado sobre as ações da Igreja que foi entregue ao sempre atento presidente Vargas:

“Todas as ações do comando da Ação Católica estão nas mãos de elementos que sempre foram adversários intransigentes e quase inimigos pessoais do presidente (…) nesses elementos é que se encontra o núcleo de maior resistência do grupo udenista (…). As infiltrações do grupo no governo são profundas e a ação da resistência, sabotagem e campanhas em todos os sentidos, se faz sentir de forma intransigente (…) destaca-se da linha agressiva o grupo da Tribuna da Imprensa, constituindo a vanguarda socialista da Ação Católica. Desse grupo fazem parte Carlos Lacerda, Adauto Lúcio Cardoso e Odilon Braga”.

O ódio de Lacerda por Vargas tinha um motivo: em 1937, logo depois de instituir o Estado Novo, o então presidente expulsou o pai do jornalista, Maurício de Lacerda, no cargo da Procuradoria do Rio de Janeiro por ser um simpatizante comunista. E agora lá estava o filho, pronto para retribuir o favor ao inimigo. Iria derrubá-lo de qualquer maneira — e faria isso também com os aliados dele.

O alvo principal era Samuel Wainer. Lançado no dia 12 de Junho de 1951, o jornal Última Hora parecia que resultaria em fracasso, mas, depois de dois meses, passaria da tiragem de 20 mil exemplares. Com o sucesso de uma publicação de teor getulista, quem se sentiu mais atingido foi Assis Chateaubriand. Ficou claro para ele que, apesar da concessão para a estação da futura TV Tupi no Brasil, Vargas não queria mais depender dos Diários Associados. Então, começou a se aproximar de Carlos Lacerda, que aproveitou a ocasião para ter um programa na recém-inaugurada TV Tupi.

Era um programa estranho. Lacerda tinha quinze minutos para explicar aos poucos telespectadores o que era funding de jornal, o que Getúlio Vargas tinha a ver com isso e onde o Banco do Brasil investira no Última Hora. De alguma forma, conseguiu resumir tudo isso — e os programas seguintes surgiram com uma cadeira, um quadro-negro e um telefone para responder às perguntas. Mas a TV não bastava — Lacerda precisava atingir um público maior. Veio então Roberto Marinho, do jornal O Globo, que se sentia prejudicado com Wainer, e ofereceu um espaço de quarenta minutos na Rádio Globo. Lacerda obviamente aceitou. Era o que precisava para espalhar a sua fama de “O Corvo”.

O Última Hora estava sendo acusado de ser um jornal que foi criado com dinheiro do governo, principalmente do Banco do Brasil. Era um esquema típico do Estado Novo, segundo Lacerda. Vargas não tinha apoio da imprensa, logo eliminaria os concorrentes para ter seu próprio órgão, mas com alguém como testa-de-ferro. O raciocínio era correto — mas até o “íntegro” Lacerda fazia parte do esquema. No livro Lacerda X Wainer — O Corvo e o Bessarabiano, a autora Ana Maria de Abreu Laurenza mostra um quadro de débito dos órgãos de comunicação com o governo, datado de 26 de Fevereiro de 1953. Nele informa-se que Assis Chateaubriand devia 144,8 milhões de cruzeiros e Samuel Wainer devia 106,6 milhões. Roberto Marinho ocupava o terceiro lugar na lista e, lá embaixo, lia-se o nome de Carlos Lacerda devendo 2 milhões de cruzeiros. Uma quantia irrisória perto dos outros, mas provava que Vargas mantinha todos como marionetes, mesmo os seus inimigos.

Ainda assim, os ataques continuavam. Parecia que a munição nunca acabava. Wainer teve de comparecer em uma Comissão Parlamentar de Inquérito para explicar de onde vinha o dinheiro da Última Hora, como eram as suas relações com o presidente, se era mesmo um imoral, se era ou não brasileiro ou russo ou “bessarabiano” — acusação feita pela Tribuna da Imprensa e pelos Diários Associados de que Wainer não tinha nascido no Brasil e, portanto, não poderia ser dono de um jornal. A humilhação pública era tamanha que o jornalista e o presidente tiveram de parar com os seus contatos. Contudo, quem Lacerda queria atingir não era Samuel Wainer. Ele era apenas um obstáculo. A verdadeira razão sempre foi Getúlio Vargas.

[CONTINUA]

[LEIA AQUI A PRIMEIRA , A SEGUNDA, A QUARTA E QUINTA PARTES]