“A Coerência das Incertezas” — um ensaio narrativo (IV)

But think on: that which is difficult

preserves democracy.

Geoffrey Hill, “On reading Crowds and Power”.

Calendário feito sob os auspícios de Júlio César

Roma fede a desorganização. As guerras deram a César o destino de Roma, mas agora o destino precisa ser mudado. O Senado elege-o “O Pai da Pátria”; o povo está desconfiado, insatisfeito. César precisa acalmá-lo.

Ainda assim, tem grandes planos. Um mapa do mundo passa à frente dos seus olhos todos os dias, todos os minutos. Lutaria nos Partos, depois atravessaria a Hircânia, seguindo o Mar Cáspio, o Monte Cáucaso, entraria na Sítia, na Germânia, os países próximos à Germânia, voltaria pelas Gálias, chegando na Itália com a intenção de construir um canal de Roma até Circeu, conduzindo o rio Tibre até o mar perto de Terracina, abrindo novas rotas de comércio até Roma, além de secar os pântanos que cercavam as províncias de Pomércio e Cécia e fertilizar os campos, levantando barreiras contra o mar, com novos diques, reformular portos e abrigos para conter o maior número de navios que protegeria e espalharia o legado de Roma, transformando-o em um império que tinha como único limite e fim o próprio César e, talvez, o Oceano.

No entanto, seus achaques aumentam e ele se envergonha até da calvice precoce, puxando seus cabelos para frente. O Tempo parece escoar a cada movimento que faz. Como controlá-lo? Um dia, chama alguns filósofos e matemáticos: quer resolver o problema de coincidir as festas das estações. A confusão é tão grande que o Inverno é comemorado na Primavera e o Verão é comemorado no Outono. Sob a supervisão do próprio César, resolveu-se o impasse da seguinte forma: regulou o ano de acordo com o curso do sol, de maneira a durar trezentos e sessenta e cinco dias, suprimindo o mês que indicava a mudança de um novo curso solar, e acrescentou um dia a mais a todos os períodos de quatro anos. E como a ordem do tempo concorda com o mês de Janeiro, colocou entre Novembro e Dezembro mais dois meses. Assim, o ano passou a ter quinze meses, reequilibrando o Tempo para Roma, para o destino dos romanos (que antes estavam à mercê dos caprichos dos sacerdotes) e para as mãos trêmulas de César, que escreviam seus relatos de guerra com uma rapidez espantosa, as palavras registrando para História o que já era passado, ajudando o futuro a entender qualquer presente — o Tempo agindo como se estivesse sob o poder de Caio Júlio César. Ele conhecia os mistérios do mundo, mas não todos. Desconhecia, por exemplo, que sua arrogância irritava profundamente o Senado. Desconhecia que um dos tribunos, Cassio, junto com Bruto e alguns outros, decidiram que o tempo de César deveria acabar. Desconhecia que Roma tornar-se-ia o império que tanto desejava depois que seu fim foi decretado secretamente. Desconhecia que, desta vez, quem iria estapeá-lo seria aquele que tanto lhe prometeu glória e eternidade.

Às cinco e meia da manhã do dia 24 de Agosto de 1954, o repórter da revista O Cruzeiro — a maior publicação dos Diários Associados — Arlindo Silva chegou ao Palácio do Catete. Fazia um frio estranho naquela noite. A reunião ministerial durara horas e horas para decidir a situação de Vargas. Não estava nada fácil: o presidente não confiava mais nos militares e os militares nunca confiaram nele. O atentado na Rua Toneleros contra Carlos Lacerda foi a gota d´água — no dia 5 de Agosto, em torno da uma e meia da manhã, um desconhecido atirou no jornalista quando ele se prepara para entrar no seu prédio. O major da Aeronáutica Rubem Vaz, que acompanhava Lacerda, foi atingido no peito e morreu rumo ao hospital. Estava desarmado. Lacerda levou um tiro de raspão na ponta do pé.

Descartando qualquer possibilidade do autor ter sido Samuel Wainer — “Ele não é homem dessas intrigas”, disse o seu rival jornalístico— o único que poderia se envolver numa situação dessas era alguém envolvido com o presidente. Um dos principais suspeitos era Benjamin Vargas, filho de Getúlio. As investigações foram rápidas e, em cinco dias, chegaram ao mandante do crime — Gregório Fortunato, fiel chefe de segurança de Vargas, que confessou tudo, mas afirmou que o presidente não sabia de nada. “Ele não tem culpa do que aconteceu. A culpa é minha”, repetiu Gregório inúmeras vezes.

Às seis horas da manhã, Arlindo Silva viu Darcy Vargas, a primeira-dama, aparecer na janela, de óculos escuros e chorando. Resolveu ficar de vez em torno do Catete para ter a chance de um furo.

Quatro horas antes, Samuel Wainer estava na redação do Última Hora esperando um telefonema de Manuel Vargas, irmão de Getúlio. Ele daria em primeira mão o resultado da reunião ministerial da noite anterior. Será que Getúlio teria renunciado? Wainer começou a redigir três tipos de manchetes. GOLPE. RENÚNCIA. DEPOSIÇÃO. Ele não tinha outras opções — essas eram as únicas saídas para Vargas. O exército pressionava, a imprensa incitava a revolta, o próprio governo estava fraco demais.

Naquela mesma noite, Carlos Lacerda comemorava com amigos e família na casa de José Nabuco. Ele tinha certeza que Vargas renunciaria. A situação se tornara insustentável para o velho caudilho. Abriram o champanhe, comeram alguns petiscos, riram muito, conversaram muito. Então, o telefone tocou.

Às oito horas da noite de 23 de Agosto, Benjamin Vargas procurou o pai no palácio do Catete. Não tinha boas notícias: ele fora intimado a depor na polícia sobre o atentado de Toneleros. O próximo intimado seria o próprio Getúlio. Os dois continuaram a conversar por alguns minutos. Depois, despediram-se. Getúlio Vargas caminhou calmamente pelo corredor até o seu quarto. Sua filha, Alzira, o viu com a mão no bolso do robe, acariciando alguma coisa.

Arlindo Silva viu Arísio Viana, chefe do gabinete do governo, saindo da ala presidencial completamente desesperado.

— Chamem o pronto-socorro, que é um ferimento grave! — gritava.

O repórter foi até o telefone da Light mais próximo do palácio e ligou para o pronto-socorro municipal para informar “um caso de ferimento grave”. Talvez alguém tivesse sofrido um acidente. Ao voltar, Silva encontrou Viana, dando murros na mesa e berrando:

— Como é que deixaram esse homem sozinho, meu Deus!

Em menos de três minutos, as ambulâncias chegaram.

Wainer continuava esperando o telefonema de Manuel Vargas. Quais seriam as manchetes? Dois minutos depois, o telefone tocou. Era o repórter Luís Costa em prantos.

Arlindo Silva observou os médicos entrando no Catete, indo em direção ao segundo andar, onde morava o presidente. Esperou por mais alguns instantes, sozinho. Um médico apareceu e disse:

— Não há mais remédio. O presidente está morto.

— O presidente acaba de dar um tiro no coração.

Foi o que Luís Costa disse a Samuel Wainer. Imediatamente, correu para a gráfica. As emissoras de rádio já haviam transmitido a notícia e os operários choravam. Wainer desenhou a primeira página rapidamente: uma foto de Getúlio Vargas, e uma grande manchete com os dizeres — “SÓ MORTO SAIREI DO CATETE: ELE CUMPRIU A PROMESSA”. Só morto sairei do Catete — ele tinha dito isso dois dias atrás.

— Puxa, ele puxou a toalha debaixo da nossa festa — disse alguém a Carlos Lacerda logo depois dele ter anunciado o suicídio de Getúlio Vargas. Ele saiu com a mulher da casa de José Nabuco visivelmente abalado. No caminho, parou no Colégio Santo Inácio, entrou na igreja e rezou. Rezou por Getúlio Vargas. Rezou pelo seu inimigo. Depois, foi para casa. Ligaram ao telefone. Era Alberto Carrera, oficial da Aeronáutica:

— É melhor você sair dessa confusão toda, Carlos.

— Seu Assis, o presidente se matou.

Assis Chateaubriand havia acabado de chegar na redação de O Jornal. Ele olhou para o funcionário que lhe deu a notícia e disse seriamente:

— Vou candidatar-me à vaga dele na Academia Brasileira de Letras.

Funeral de Getúlio Vargas

O povo invadiu o Catete durante o velório. Todos queriam se despedir do presidente. As rádios não paravam de repetir a famosa frase da carta-testamento encontrada ao lado do cadáver — “Saio da vida para entrar na História”. O prédio da Tribuna da Imprensa foi depredado. Onde estava o Corvo? Os Diários Associados também não foram perdoados: em Porto Alegre queimaram estações de rádio e arrombaram o prédio do Diário de Notícias. Agora sim, o espectro de Getúlio Vargas estava mais vivo do que nunca. Agora sim, ele tinha conquistado a glória do Poder e a permanência da História. Agora sim, a Segunda Vinda estava completa.

— Como está César?

— Abatido. Ele está tendo os ataques constantemente.

Marco Antônio e Trebónio conversavam calmamente nos corredores do teatro de Pompeu enquanto o Senado se preparava para a sessão.

— Realmente, seu estado de saúde é preocupante e tu, como aliado, irmão e amigo, devias ampará-lo.

— Há alguns dias César reclamava dos tribunos não entenderem a sua situação. Lembra-te que ele não se levantou durante a última sessão?

— Lembro.

— Ele disse: “Os que são atacados pela minha doença perdem o uso dos sentidos, quando falam, de pé, perante um assembléia numerosa: atacados inicialmente por um tremor geral, experimentam tonturas e vertigens, que os privam de todo conhecimento”.

— Então afirmas que César está doente?

— Afirmo.

— Logo o que estaremos fazendo é o certo.

— Como?

Já faz algum tempo — indeterminado, é verdade, algo em torno de um mês, duas semanas, três dias atrás — que encontram pássaros mortos sem causa aparente no chão do Senado, que soldados queimam suas mãos mas, depois da chama apagar-se, não se vê queimadura alguma e que alguns romanos escutam barulhos estranhos nas ruas, nas casas, em plena madrugada, a noite tomando o dia de Roma, tomando a alegria dos sacrifícios nos quais, depois que o animal é sacrificado (e oferecido a César), não se encontra nenhum vestígio de seu coração.

Um dia, um advinho apareceu na casa de César e o avisou:

— Vossa Excelência corre um grande perigo nos Idos de Março.

César riu e somente respondeu:

— Se o grande perigo for a morte, que venha a morte.

Em um jantar na casa de seu amigo Lépido, César se sentia profundamente cansado. Parecia que todo o poder e toda a glória já estavam conquistados. Parecia que tudo já estava feito e não restava mais nada. Absolutamente nada. No meio da conversa, percebeu que alguém lhe fazia a seguinte pergunta:

— Qual é a melhor morte?

E ele respondeu sem hesitar:

— A menos esperada.

À noite, deitado na sua cama ao lado de sua mulher Calpúrnia, viu as janelas e as portas de sua casa se abrirem subitamente. Ao mesmo tempo, um pesadelo acordava Calpúrnia:

— Eu estava enforcando-te e chorava a tua morte. — disse ela.

Os Idos de Março

No dia seguinte — os Idos de Março — César acorda para a próxima sessão do Senado, que aconteceria desta vez no teatro de Pompeu (Por que o teatro de Pompeu?, perguntou-se César no qual foi respondido por Bruto, seu aliado e filho adotivo, que o Forum não estava atraindo a boa fortuna) e Calpúrnia lhe pede que não vá, que ele corre grande perigo, mas não a ouve e sai de sua casa, acompanhado pelo povo que o louva sempre e, no meio da multidão, alguém lhe entrega um papel avisando do complô de Cassio e Bruto, um papel que nunca será lido pois quando a História quer agir não há mais nada que possa impedi-la, nem mesmo os advinhos, especialmente aquele que avisou César dos Idos de Março, e agora apenas responde ao ouvir da futura vítima o seguinte chiste:

— Pois bem, eis os Idos de Março chegados.

— Sim, chegaram; mas ainda não passaram.

— Logo, o que estaremos fazendo é o certo.

— Como?

Gritos irrompem no Senado, os tribunos correm como animais para todos os lados, Marco Antônio tenta ver o que está acontecendo — ele sabe muito bem o que está acontecendo — , mas Trebónio o agarra por trás e sussurra:

— Aquele corpo espera a Bruto.

Marco Antônio conseguiu se soltar e, trocando sua capa de cônsul por um manto de escravo, escapou. No teatro de Pompeu, César estava deitado no chão, com vinte e três golpes marcados na carne, e ele se arrastava até chegar perto da estátua de Pompeu, cobrindo com a manta as partes pudentes para assim morrer com alguma dignidade. Os olhos de Pompeu o fitavam e os de Bruto também, aterrorizado pelo o que fez, aterrorizado pelo o que ouviu dos lábios do morto — “também tu, meu filho” — enquanto Caio Júlio César manchava de sangue o busto daquele que lhe ensinou tantas coisas sobre o Poder, mas nunca as usou como seu pródigo aprendiz.

[CONTINUA]

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