A Faca do Nada

“Nada é uma faca sem cabo que perdeu a lâmina”.
Ditado anônimo

A
Inútil aparentemente,
sem alguma profundidade.
Lâmina fraca, inexistente,
um brilho que sequer reluz.
Tentar um corte no tecido:
sem gotas de sangue a cair.
Dura, inflexível, fina ponta,
nem pode criar um ralo pus.

B
Da tosca madeira cria
um cabo sem uma espessura.
A ápora lasca que se desfia
é a lesma boba que se mata.
Em um formato inacabado,
seu vulto (seu contorno) insinua.
Ao tocá-lo estará o vazio, só,
corroído como uma podre prata.

C
A inépcia fiel do bom débil
será a sua única qualidade.
O “deus-Nunca” foi o contábil
estilo que encobertou a função.
Do ruído sob a muda pedra
começa a marcha da passagem.
E nua, inerte, descoberta
ao dobrar-se no manto da unção.

D
Longo mirar no incolor alvo,
um claro ponto sem retorno.
Escrever sobre um morto calvo — 
duro ofício oriundo do nada.
Esta educação é a de um poeta
sem punhal, sem ar, sem fogo.
Apenas o tempo correto
naquela lápide semeada.

E
Por princípio acobertam a dor,
sem cabo ou lâmina e nada mais.
Mas há o detalhe denunciador
de uma sucessão inevitável.
Um embaralhamento na arte
da fuga e/ ou da disciplina.
Rigor simétrico que pulsa
neste poema lamentável.

F
Restam nos outros dois casulos
a proximidade deste fim.
Moldar da nau a espuma aos pulos,
destruir aquele velho rumo.
Um outro nasce da procura
pela precisão de sua bainha.
Algemar esses adjetivos
e, enfim, recuperar o prumo.

G
Assim, somaremos os fios
de caos com esta geometria.
Talvez a paralisia do rio,
o adocicado da benzina.
Eis o resultado da astúcia:
cravar no enigma a clara marca.
O epitáfio do adeus a esta
dura estética cabralina.

H
Pode ser a faca do nada,
um reflexo da perda ao cubo.
Cumpre como uma iluminada
sua função com extrema calma:
a de ferir corretamente
onde ela — só — provoca a queda
no rol dos esquecidos deste
poema ar punhal memória — 
alma.