A serenidade de AmarELO
Emicida lançou seu novo álbum AmarElo, mas antes como uma introdução divulgou o clipe Silêncio nos dando uma dica do que estaria por vir nas faixas do álbum.
E que me fez imediatamente associá-lo a filosofia africana. Não sei se esse paralelo foi feito de maneira consciente pelo Emicida, mas ao ouvir o álbum senti em mim o pulsar de África.
Tudo que bate é tambor
Todo tambor vem de lá
Se o coração é o senhor, tudo é África (Principia)
O filósofo kemético (do Egito antigo) Amenemope tem como um dos objetos de sua filosofia o conceito de coração como fonte de conhecimento, o objetivo do filósofo é fazer com que seus discípulos examinem o seu próprio coração tornando assim uma pessoa serena. A ética é vista como conduta de silêncio.
Na cultura kemética, ética diz respeito ao agir reto, à capacidade de viver em equilíbrio consigo diante dos desafios e escolhas. O que passa por um exercício filosófico de afastamento da inflamação que impede o discernimento. A capacidade de discernir é um tipo de travessia existencial dentro de uma barca que não se deixa levar pelas intempéries externas. Ou seja, mesmo diante dos problemas concernentes à vida, não devemos ter pressa em respondê-los, correndo o risco de que a irritação seja guia do pensamento e das palavras. (NOGUERA, 2013)
Ao pontuar sobre pessoa serena e silenciosa, por vezes tendemos a confundir com passividade. O silêncio trazido pela filosofia kemética nada tem a ver com isso, o silêncio aqui é visto como reflexão silenciosa para medir as coisas, as palavras e a forma de agir. Como pontua Emicida ao fim do clipe anteriormente postado “Quando todos querem falar, Silêncio é um convite a reflexão.”
Em Amenemope, o coração é sede do pensamento, das ações e do caráter. Para se chegar ao estágio de pessoa verdadeiramente serena, o coração precisa estar leve. É necessário praticar a cardiografia, conceito desenvolvido por Renato Noguera:
Se para bem viver é preciso examinar o coração e alcançar serenidade diante das tempestades mais dilacerantes e difíceis, a cardiografia impõe-se como percurso filosófico incontornável (…) Cardiografar quer dizer fazer que as palavras que passem pelo coração sejam equilibradas, harmônicas, isto é, tenham o mesmo “peso” da verdade. (NOGUERA, 2015)
No país e no momento em que nos encontramos, vivendo de maneira descarrilhada, como um trem que continua em movimento fora dos trilhos, vendo nossos iguais sendo destruídos fisicamente e psicologicamente de maneira coletiva e individual, essa filosofia da serenidade pode parecer utópica.
Na oitava faixa do álbum, Ismália, a realidade negra brasileira é exposta. Estamos ainda buscando reconhecimento e acreditando que a vitória individual será o suficiente.
E como analgésico nós posta que
Um dia vai tá nos conforme
Que um diploma é uma alforria
Minha cor não é um uniforme
Hashtags, Preto No Topo, bravo!
80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo (Ismália)
O grito inflamado por vezes proferido até contra nossos irmãos não causa o efeito esperado, até pra gritar sobre nossa dor afim de ser entendido é preciso um conhecimento que só a serenidade do silêncio é capaz de doar, um reconectar com os nossos, ajudando os nas tormentas desse mundo, fazendo com que a travessia seja mais fácil.
Pra arregaçar como um ciclone (Entendeu?)
Pra que amanhã não seja só um ontem com um novo nome
O abutre ronda, ansioso pela queda (Sem sorte)
Findo mágoa, mano, sou mais que essa merda (Bem mais)
Corpo, mente, alma, um tipo Ayurveda
Estilo água, eu corro no meio das pedra (AmarElo)

O álbum AmarElo para mim, foi como um afago. Não precisamos e não queremos só reagir, gritar ao mundo, mostrar nossas dores, somos mais do que isso, as pequenas alegrias da vida adulta também são vividas pelo nosso povo, “é um sábado de paz onde se dorme mais, o gol da virada quase que nos rebaixa, emendar um feriado nesses litorais” e precisamos nos lembrar disso todos os dias para que consigamos no meio desse caos reconstruir nossa saúde mental.
Nós que nos dedicamos à saúde mental do povo africano não devemos enxergar como mentalmente saudável o desejo de Zumbi de ser africano e livre? Poderíamos até classificar esse desejo como pulsão palmarina e afirmar essa necessidade palmarina (o desejo de ser africano e livre) como tão irresistível quanto o desejo de ser reconhecido, de ter valor ou a necessidade de comida e água. (NOBLES, 2009)
Referências:
EMICIDA. AmarELO. 2019
NOBLES,W. Shaku Sheti: Retomando e Reapropriando um Foco Psicológico Afrocentrado. São Paulo: Selo Negro, 2009.
NOGUERA, R. A ética da serenidade: o caminho da barca e a medida da balança na filosofia de Amen-em-ope. Ensaios Filosóficos, Volume VIII — Dezembro, 2013.
NOGUERA, R. Amenemope, o coração e a filosofia, ou, a cardiografia (do pensamento). In. BRANCAGLION, Antonio. Semma. Estudo de Egiptologia II. Rio de Janeiro, 2015.
