12. Precisamos nos encontrar mais vezes

Norma Bruno

Levantavam as camisas, mostravam as cicatrizes nas pernas, os sinais espalhados pelas costas, as espinhas e os cravos no rosto, os pontos falhos sem cabelo na cabeça, as estrias na bunda, as pernas tortas, e riam, riam de tudo, procurando mais defeitos no corpo. Seriam defeitos mesmo?

Alguém gritava que não iria continuar com aquilo, ficar apontando os defeitos, se “detonando”, os outros riam, e continuavam a brincadeira, era uma brincadeira, não era mesmo? Rir de si próprio! Alguns nunca tinham explorado seu corpo, por vergonha talvez? Medo? Explorar o próprio corpo, quão perigoso pode ser? Mais perigoso do que explorar os sentimentos?

Outro disse que não eram defeitos! Estavam falando das singularidades, marcas de beleza, essas coisas estranhas que te fazem achar alguém atrativo e você nem sempre sabe o porquê. Contavam histórias explicando cada marca, cada cicatriz, cada ferida, tudo tinha uma história. E tudo acabava levando até aquele momento. Estariam felizes com a pessoa que aquelas marcas moldaram? Ansiosos por novas cicatrizes? Envergonhados pelas lembranças que elas traziam?

Entre um comentário e outro, tropeçaram na família. Conversas assim sempre levam a família, não é mesmo? Geralmente eles estão presentes em todas as cicatrizes. Alguns sorrisos pararam, surgiam preocupações, rostos sérios, sorrisos tristes, medo, será que… Por mais que conheçamos nossa família tão bem, ás vezes se torna impossível imaginar como eles reagiriam ao saber dos nossos segredos. Aquele silêncio estranho. Alguém disse que queria poder falar sobre tudo com os pais, seria perfeito, se abrir com as pessoas que mais amava no mundo, mas sabia que eles nunca o entenderiam.

Conversa séria demais, alguém faz algum comentário engraçado por favor! Começam a rir novamente. Vão falar de alguém, algo engraçado, vídeo novo de alguma banda, o show que ninguém mais vai, o amigo que ficou bêbado na última festa, lembra quem você beijou? Ninguém lembra de nada, ninguém sabe de mais nada, mas todos continuam sorrindo. Sorrir faz bem.

Olham pro relógio, hora de ir embora. Os abraços apertados e sinceros, as últimas risadas, as piadas de despedida, as promessas de que amanhã a gente vai conversar de novo, mas provavelmente eles não vão. Estão todos correndo o tempo todo, sempre com alguma coisa pra fazer, de onde esse tempo livre surgiu? Ninguém lembra como conseguiram fazer esse encontro acontecer! Mas um dia essa conversa vai sair, e vai ser tão boa quanto, e tão engraçada. “Precisamos nos encontrar mais vezes!”, eles gritam.

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