20. amores com data de validade

corria os dedos pelo pescoço, emaranhava os dedos nos cabelos curtos e negros, deslizava os lábios pela bochecha, e encarava com os olhos arregalados os olhos fechados. sorria com o canto da boca enquanto desbravava com o nariz cada centímetro do pescoço. encaravam-se por alguns segundos, e sorriam envergonhados.

as mãos juntas, entrelaçadas, alinhadas, carinhosas sobre o colo, enquanto o outro braço viajava pelas costas, desenhando linhas sinuosas, perdidas, causando arrepios, apertando com força um corpo contra o outro. as bocas reunidas, movimentando-se alinhadas, em direções opostas, mas convergentes.

cabeça no ombro, olhares vagos, o relógio apitando baixinho. beijos de despedida no meio da noite escura. o lampião aceso, iluminando tudo ao redor, menos os dois. escondendo sob a sombra da árvore um segredo confuso, e divertido. levantaram-se, pegaram as malas e foram até a entrada do aeroporto.

conversando para se distrair, olhares cruzados, fugidios, está tudo bem. as risadas contidas, e os toques já meio embaraçosos, as vezes é difícil entender como chegamos até aqui. chamada final. hora do ultimo abraço, apertado, corpos unidos pela ultima vez. um último cafuné, suave, nos cabelos encaracolados, aquele último cheiro no pescoço. últimas vezes tão interessantes quanto as primeiras vezes. foi assim que chegaram até aqui.

aquele aceno distante, já entrando numa espiral deformada de memórias que começam a desaparecer quanto mais se tenta apegar a elas. sorrisos de despedidas que soariam tão falsos, mas são sempre os mais verdadeiros. obrigado por tudo. dando as costas, literalmente, para algo que desde o começo sabia-se que estava com hora certa para terminar.

encarava pela janela do avião o céu azul respingado de nuvens brancas, lembrando dos dois últimos dias, da correria, dos almoços rápidos, da cama do hotel, e dos beijos no fim da noite.

encarava pela janela do ônibus, e sorria lembrando daquele sorriso besta, daquela noite estranha, dos pés descalços, dos gritos no elevador, e da estranha sensação de segurança.

questionavam ao mesmo tempo, sem saber, se haviam se entregado ao desconhecido por medo, ou por coragem. sem números de telefone, sem endereços, sem sobrenomes… completamente entregues ao acaso.

teria sido amor? é amor quando se sabe a data e a hora certa em que ele vai acabar? se os amores vêm, eles também têm o direito de ir.