7. A Mudança

Sentou no meio da sala, entre o velho sofá marrom e o armário antigo de discos. Tudo parecia extremamente mais alto do que realmente era. De repente toda a casa se calou. Silêncio. Ouvia o próprio coração bater agora, enquanto vagarosamente jogava as costas contra o chão, esticando as pernas, e deixando os olhos fixos no velho teto.

As mãos acariciavam as velhas cicatrizes das paredes, marcas de uma vida conturbada, de vez em quando divertida. Agora que estava se despedindo de tudo, esquecia de quantas vezes desejara com todas as forças abandonar pra sempre aquela casa amaldiçoada pelo tempo. O lado bom sempre aparece depois que algo está partindo pra sempre de nossas vidas?

Encarava o corpo ali jogado no chão da sala. Pensou em falar algo, mas preferiu deixar o silêncio. O silêncio que tanto fora negado aquela casa. Preocupava-se em separar o que era importante, mas tinha algo de importante ali? Algo que valesse a pena guardar? Preferia deixar tudo ali, e partir sem nada.

Levantou-se, começou a arrumar as coisas, e foi até a cozinha pegar algumas caixas. A pia ainda com o mesmo chato e antigo problema, pingava. Sentiu um aperto no peito. Estou seguindo em frente. Estou indo embora. Estou fazendo o que é certo. Estou… Quem diabos decide o que é o certo a se fazer?

Sentou-se no sofá, ligou o velho rádio e colocou aquele disco antigo que tanto escutara durante a infância. Odiara cada uma daquelas músicas, em todos os dias que as escutara. Sentia algo mais estranho agora ao escutá-las de novo, não sabia exatamente o que era, mas sabia que, pelo menos dessa vez, não era ódio. Era preciso seguir em frente. Estava realmente ficando mais sábio, agora que estava mais velho? Ou apenas sem forças?

Ouviu a música vindo da sala, enquanto andava pelos corredores. Olhando o velho quarto, começou a chorar. As lágrimas saíam calmas, demoravam a chegar ao fim do rosto. Segurava cada uma das maçanetas com força, e olhava com espanto para os quartos vazios, silenciosos. Alguém realmente vivera ali? Tudo parecia tão distante, e o tempo passara tão rápido. O irmão estava sentado no velho sofá. Encarava a pilha de livros antigos, que nunca tivera tempo de ler.

A casa não havia mudado nada. A casa não estava partindo. Não estava mudando. Não estava deixando nada para trás. Mas observava com calma, e paciência, tudo ser arrancado de dentro dela. Os carros indo e vindo, levando tudo que ela guardara por tanto tempo. Os meninos que ela cuidara, e protegera de tantas chuvas, também partiam agora. Estavam em pé na varanda, vendo as caixas vazias, que pareciam pesar mais do que qualquer móvel da sala.

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