13. Baú de Cartas: Antônia

Queria lhe dizer que estou com saudades. Saudades. Isso mesmo. Era só isso que queria lhe dizer. Porque parece que esquecestes de nós. Não me importo que tu tenhas esquecido desse povo daqui, é normal, mas de mim?! Como ousas?! Enfim, se esquecestes mesmo, estou aqui para te lembrar que estou viva, e que lembro de ti todos os dias, pois sou obrigada a passar pela sala e ver aquele maldito quadro que pintastes quando tinha teus nove anos.

Nunca vi patacoada maior, mas Dona Creusa insiste em dizer que tem algo de especial naquela pintura que tu fizestes, que aquele mar lembra mesmo o mar da Bahia, que ela sente até mesmo o cheiro do sal, veja só! Essa velha te ama muito mesmo, e este é mais um motivo para que tu não te esqueças de nós. Por mim, colocava aquela tralha toda que tu deixastes na despensa, mas todos foram contra mim. Se um dia retornares, estará tudo exatamente no mesmo lugar, e muito mais limpo.

Tia Celeste passou mal dia desses, mas não te preocupes que está tudo bem. Foi um susto. Assim como foi um susto o dia em que sonhei contigo. Jogaste uma praga em mim João? De repente comecei a sentir tua falta todos os dias. Até as tuas músicas irritantes, estou ouvindo, apenas pra ter raiva de ti novamente, e lembrar que partistes sem me dizer adeus. Tu sabes o quanto eu sofro com essas viagens sem despedida. Fizestes de propósito, não foi?

Claudionor veio aqui em casa por esses dias também. Sentiu tua falta, e veio me visitar. Decidiu fazer as pazes pra poder voltar a frequentar a casa. Sem tu, ele voltou a andar sozinho e cabisbaixo pela cidade. Nos encaramos por alguns minutos, e fizemos um pacto em silêncio de não falar nada sobre o que havia acontecido entre nós dois. Eu já o tinha perdoado fazia muito tempo, estava apenas maltratando-o porque ele se importou mais contigo do que comigo.

Mas agora está tudo bem, ele anda por aqui todas as manhãs, e ás vezes a noite, e mamãe o mima como se fosse tu. Te confessarei em segredo aqui que queria muito que tudo tivesse dado certo. Claudionor cresceu comigo, é teu melhor amigo, é conhecido na casa, e nos divertíamos tanto, que não faço idéia de como de repente tudo descarrilhou naquele inferno que insistimos em chamar de namoro. Seria perfeito demais eu acho, e a vida não admite este tipo de perfeição, não é mesmo? Pelo menos é isso que quero acreditar.

Espero que tu estejas se divertindo com Samira por aí. Te desejo tudo de bom meu irmão, e espero que voltes o mais rápido possível. Por mais que eu encasquete contigo, meu peito as vezes dói, só da falta que tu me fazes! Irmão ingrato! Da próxima vez, vês se me levas contigo, escondida em tuas bagagens, ou então deixa essa tua namoradinha birrenta por aqui, e me dê a passagem dela!

Sabes que tua casa é aqui. Precisamos ir de novo pra Bahia, pra que tu pintes um quadro melhor que esse. Um que realmente tenha o cheiro do sal, e a quentura do sol. Te amo, não te esqueças.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.