Just relax

Bérgamo/Leco, 27 de dezembro de 2016

No bilhete estava escrito “Flixbus”. Saí do aeroporto de Milão — Bérgamo e peguei um ônibus para a estação. O motorista me informou rispidamente onde eu deveria descer e lá fui eu com a minha mochila azul. A estação era de trem, não de ônibus. Me perguntei onde estava o ‘bus’ do ‘Flix’, mas desisti de tentar entender quando vi que o destino e horário que estavam impressos no meu ticket coincidiam com a saída daquele trem com pintura esverdeada, bem ali na minha frente.
Entrei no trem, cochilei um pouco e o comboio já estava na estação final. Mas como assim? Deveria ter durado 3h de viagem. Estranho.

Descendo as escadas estava um senhor negro que aparentava ser ator de filme americano. O abordei. Ele falava inglês. Inglês e Itália estão separados por um abismo. Fiquei feliz, estava com sorte. O senhor disse que tinha algo errado e pediu que eu me dirigisse ao balcão de vendas. Fui saltitante e descobri, sem nenhuma cerimônia da moça sutilmente maquiada, que eu deveria ter pegado um ônibus e não um trem. Uau! Agora sim o nome Flixbus fazia sentido na minha cabeça. O que não fazia sentido é que eu havia perdido o meu transporte para Veneza e estava a mais de 200 km do meu destino, em outra região da Itália.

Maryanna tinha que comprar outro ticket. 20 euros. Maryanna não comprou.

Maryanna ficou chorando. 20 euros era muito dinheiro pro seu bolso de mochileira e aquele era só o primeiro dia dos 60 e tantos que viriam pela frente. Sentei, respirei e lembrei de uma brasileira que viajou pelo mundo e recebeu ajuda das pessoas mais inusitadas. Fiquei ali, sentadinha, esperando a luz do santo que protege os mochileiros de primeira viagem.

A ajuda veio com nome e sobrenome: Anthony Williams.
Esse nome de artista não podia vir de outra pessoa, senão do senhor negro com cara de ator.
Ele me pegou pela mão, me colocou sentada em uma cadeira da lanchonete e perguntou o que estava acontecendo. Expliquei, ele sorriu como um hipopótamo que boceja e disse: “Just relax”.
Me serviu um suco de laranja natural e conversamos por alguns minutos. Eu estava ali rindo e havia esquecido que eu deveria seguir estrada.

Conheci dois amigos do Anthony. Um, que estava bêbado às 11h da manhã, me perguntou 8 vezes de onde eu era e elogiou a minha mochila. O outro, desviava o olhar e estava visivelmente tímido com a minha presença. O tempo passou e eu disse que já tinha ganhado o dia e que agora poderia pagar aqueles suados 20 euros. Não podia mais, o trem já tinha partido e outro só no final da tarde… Por 42 euros. Quarenta e dois euros. Cento e noventa reais. Dessa vez eu não conseguia me desesperar porque o ator estava na minha frente, me fazendo rir daquela tragedia.

O bêbado foi dormir e Anthony e o amigo tímido me convidaram para almoçar. “Se calhar”, era uma boa ideia. Fomos a um restaurante chinês. O tímido era apaixonado pela chinesinha com a pele marcada pela acne. Ela nos serviu e na entrada eu já estava com a barriga cheia. Ainda consegui comer metade do prato principal. O que estava por vir virou uma marmita e no futuro se tornou o meu jantar. Não gastei um tostão com o banquete.

O almoço acabou e demos um passeio pela cidade. Lecco. Nunca tinha ouvido falar, mas deveria, porque é apaixonante. Voltamos para a estação. O tímido saiu por alguns instantes. O tímido voltou, e voltou acompanhado. Não, não foi com a chinesa, foi com o bilhete de quarenta e dois euros para Veneza.

Fiquei envergonha. Aquele dinheiro faria falta para qualquer pobre mortal. Disse que pagaria e agradeci a gentileza. Eles não me deixaram pagar. O senhor negro sorria e dizia que aquilo só era dinheiro, que eu deveria me apegar ao simbolismo da gentileza. E assim segui. Aceitei o bilhete, amarrei fitinhas do Senhor do Bonfim no braço deles e peguei meu trem.

Passei o caminho todo sorrindo e agredeci por ter ido para um lugar completamente diferente do planejado e ter conhecido pessoas tão especiais.

Sobre o santo dos mochileiros de primeira viagem, ele apareceu várias outras vezes nesses 13 dias, com o nome de Anthony, Tania, Alessandro, Stefano, Gianluca, Kirby… Mas essas já são outras histórias. Acho, definitivamente, que sou uma pessoa de sorte.