You don’t need to bring any food, I have a lot

Praga, 05 de janeiro de 2016

“Maryanna, I hope that you are enjoying Prague and that you will find my place easily. You dont need to bring any food, I have a lot for me and you.” (Host number 12)

“Maryanna, espero que tu esteja curtindo pra caralh* Praga e que você ache minha casa de boa, sem perrengue. Você não precisa trazer nenhuma comida (guardem essa informação), porque eu tenho pra um batalhão (leia-se: você e eu), visse”. (Anfitrião número 12) [Tradução livre]


A história começa assim: Maryanna decide ir pra Praga, de um dia pro outro. Maryanna faz um post no grupo de couch de emergência e começa a receber zilhões de mensagens de homens escrotos que topam recebê-la — na mesma cama, diga-se de passagem. Maryanna faz uma seleção e dos 20 e tantos perfis, seleciona aquele que tinha aproximadamente 100 referências e nenhum traço gritante de machismoescrotidãosexualidade no convite.

Maryanna escolheu seu décimo segundo host e lá se foi, às 19h30, depois de bater muita perna na ensolarada (inverno decepcionante) Praga. O ônibus número 116 chegou ao destino. O destino era no meio do na.da. Cada casa tinha 200m de distância uma da outra. Amigos, a menina da mochila azul piscou, respirou e seguiu em busca do endereço Šáreckém údolí 54/96. O host desejou que fosse fácil encontrar a casa dele porque sabia que seria difícil. E foi. Depois de muitas voltas, estava eu entrando por um portãozinho azul enferrujado.

Entrei, me sentei e instintivamente perguntei: tem internet? Não era pra ver o Instagram, era pra usar em caso de emergência. Maryanna estava sozinha, no meio do nada, com um homem desconhecido que disse sem pesar: “Não tem internet.” Minha pupila dilatou e só voltou ao normal quando apareceram dois elementos na cena: uma cadela (TouchWood) e uma gata (sem nome). Abracei meus novos amigos e pensei: “Não saiam de perto de mim, estou com medo”. E não saíram. Inclusive tenho pelos de gato até hoje no meu pijama.

A noite correu normalmente: comemos uma sopa quentinha e um pão com bolor (guardem essa informação) e ele me convidou para uma festa. Fui… Porque queria fugir dali. A festa era incrivelmente bizarra e eu adorei. Celebravam os 100 anos do Dadaísmo. Fomos embora às 2h e ele disse que teríamos que fazer um trecho on foot, mas que antes disso, iríamos ao supermercado.

Se você leu até aqui, parabéns, este é o clímax.

Fomos ao supermercado. Do lado de fora. No galpão… Catar “lixo”.
Meu host número 12 entrou em uma enorme cesta de lixo, às 2h da manhã e eu não entendia o que estava acontecendo. Até que ele retira muita, muita, muita comida lá de dentro, o suficiente para encher três caixas e uma mochila. Nesse momento a sopa e o pão bolorento se reviraram no meu estômago e saudaram os irmãos recém resgatados. Nesse momento a frase “… You dont need to bring any food, I have a lot” ecoou nos meus ouvidos.

O constrangimento de alguém que estava quebrando um paradigma infame sobre catadores de lixo foi cortado quando o host número 12 tirou do cesto dois buquês de flores, rosas e amarelas. O simbolismo daquilo foi tão intenso que eu me juntei ao homem e juntos fizemos uma feira de cereja, banana, pepino, iogurte, biscoitos, pão bolorento… e flores.

Todo o meu medo ignorante se desfez como em um passe de mágica e durante 15 minutos atravessamos uma pequena mata iluminada pela lua, enquanto cantarolávamos qualquer canção com caixas de madeira na cabeça. Chegamos à casa (que descobri que era invadida) e dormi tão tranquilamente como não fazia há dias.

Obrigada, Couchsurfing. Obrigada, Petr.

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