[A BRUTA FLOR DO SENTIR]

Ela tinha olhos bem castanhos, da profundidade do miolo da Terra. Na sua pele branca sentia querer aquela rosa bem preta de querer sentir bem profundo, meio velório…
E gostava de ver essas profundidades nos olhos dos homens também.

Imagens: Otavio Souza / Agrund / Peça “Bruta Flor do Querer”

Rodrigo tinha profundidade de escorpiano, era um ímã dos bons. Mar revolto de tsunami. Arrasava tudo pela frente, e deixou ela com os acordes prontos, acordes de mar, aqueles que você navega, navega, parece que foi, mas não foi, pura confusão deliciosa. Uma hora pensando nele passava em 5 minutos. Out of time. Cinza, profundo, bem espiralado, em rodas, Rodrigo. Prisão de alças folgadas…

Luis era pura cor. Rosa. Azul claro. Bem ternura, “distinguished gentleman” ele uma vez falou na rede social. Mas tinha um lado dele muito sanguíneo, guitarra de rock, ela imaginava, porque ainda não tinha visto. Intensidade muito distinta, perfeitamente cabia, no quadrado. Escalas, Scalene. Formas em duas dimensões, algo centrado, algo definido. Calhou de ser um capricorniano na loucura desvairada da canceriana. Costurou, mas não deu ponto, incompletudes da vida…

Imagens: Otavio Souza / Agrund / Peça “Bruta Flor do Querer”

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Ela coçava a nuca toda vez que lembrava de um dos homens de sua vida. Sabia saborear as músicas que tinha escolhido para cada um deles. Ela sabia e sentia as energias de cada um deles, vamos para o próximo, o mais hard core de todos. Vermelho rubi na tonalidade preta da noite.
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Heleno era geminiano, pura suntuosidade em ser estátua grega ostentada nas idéias. Olhos castanhos de homem latino muito arrogante e de mãos fortes. Peito forte, barba muito volumosa, linhas do rosto entre a altivez e os obséquios. Alto e bem forte. Galanteios quase brutos, mas exatos nos toques corteses. Ela gostava, gostava de um jeito que não podia falar pra ninguém, nem pra própria consciência. Foi de uma intensidade que só ouvindo Alabama Shakes pra entender. Furacão em terra, cor de ocre, potência de poder na água. Será? Imaginem a dissolução, terra na água. “Too good to be true”, ela ouviu muitas vezes, a primeira foi premonitória, as outras, sem querer resistir, foi escutando pra sentir, ela sentia para estar viva. Dispensou-a de bate e pronto. Ecafedeu-se, como diziam.

Bruno foi. Foi muita coisa e não foi nada, foi muito mais e muito menos, quem poderia dizer? Quem poderia escrever e ler o Oráculo de Libra com Câncer? Balanço na balança. Coisa nenhuma definitiva e quebradiça. Amigos na homogeneidade, amigos, afinal. Somos. Apenas somos e estamos. E num brilhantismo de decisão, não mais estivemos juntos, depois de tantos brilhos de lantejoula, aquela que é a mais barata no armarinho, a que quebra mais fácil na roupa. Aquela que brilhou pra mim sozinha, solitária, porque foi a primeira que vi. Eu sei, e sabia. Lantejoula de carnaval, muito fugaz, a mais fugidia. Aquela de alegrias gritadas, muito altas, no segundo andar do sobrado, de tão forte fez-se melodia esquecida, meio jogada na esquina, perto do paralelepípedo. Multicolor, tristes confusões de formas em formas de coração e coração partido, desenhado com caneta bic na folha de caderno, sempre na certeza que vai rasgar e jogar fora. A música? Já nem sei mais… Foram tantas!

Um filme que tinha acabado de lançar, ela viu na rede social: “A Bruta Flor do Querer”, melhor seria se fosse “A Bruta Flor do Sentir”, espinhenta e onipresente… Tantas onipresenças!

Imagens: Otavio Souza / Agrund / Peça “Bruta Flor do Querer”