Descobrindo o seu eu

Por Bruna Padilha, Isabelle Silva e Marysol Cooper

Ao subir ao palco, com as luzes apagadas e uma plateia aguardando ansiosamente pelo espetáculo, Thallya Rodrigues, 19 anos, sentiu que ali seria o local ideal para mostrar o seu verdadeiro “eu”. Há muito tempo lutando contra o hábito das pessoas de julgarem sem conhecer algo ou alguém, sentiu que aquele seria o momento em que passaria a tocar as pessoas — e que isso transformaria a si mesma. Homossexual assumida, sentia medo do julgamento após se aceitar. Decidiu fazer aulas de teatro para que aos poucos pudesse se conhecer melhor e exibir um universo de feridas que poderiam ser curadas.

Thallya decidiu aceitar a sua própria natureza. Foto: Isabelle Silva

A atriz conta que desde pequena tinha sentimentos por pessoas do mesmo sexo, porém pelo fato de crescer em uma família religiosa tinha medo da rejeição, pois havia aprendido na igreja que frequentava que homossexualismo não era certo. “Achei que minha família não iria me amar mais, que Deus iria me matar ou que eu iria para o inferno”. Quando completou 14 anos, Thallya decidiu que iria se assumir quando se apaixonou pela primeira menina. “O que a gente sentia uma pela outra era muito bonito, não tinha porque matar esse sentimento” , a menina conta.

No ano de 2015 Thallya decidiu que iria participar de uma oficina de teatro, na cidade de Guaíba, denominado “Teatro do Oprimido”, projeto que busca ajudar o ser humano a criar, imaginar e transformar em forma de arte os maiores anseios da sociedade, promovendo o fortalecimento da cidadania, atuando para que as camadas da sociedade oprimida se afirmem como as próprias protagonistas de sua arte e vidas.

Representar seus sentimentos através da expressão, é uma característica do homem desde que os tempos são tempos. Seja para cultuar deuses e logo após, exibir atividades culturais, o teatro tornou-se um grande transformador de personalidades. Nos festivais religiosos gregos, no século 6 (antes de Cristo), em homenagem ao deus Dionísio, nasceu o primeiro esboço do que viria a ser o teatro. Na Grécia, surge o primeiro ator, após regente do coro alegar estar representando Dionísio, dando assim o primeiro passo para a consolidação do teatro como o conhecemos hoje.

Iniciar uma atividade no âmbito das artes na infância ou na adolescência pode auxiliar nas mais variadas formas de entender o mundo, segundo a psicopedagoga e professora de Educação Infantil, Fabiana do Nascimento Beeta de Mello. “Todo tipo de manifestação que venha a trabalhar com o cérebro e ações corporais desencadeia comportamentos sociais e morais”, afirma Fabiana.

Algumas das Escolas Municipais de Porto Alegre já aderem no currículo da Educação Infantil as múltiplas linguagens — e, dentro delas, o teatro está incluso. O jogo simbólico de recriar a realidade é característica da arte e também integra diariamente as maneiras de expressão dos alunos. “De uma forma espontânea e com o tempo, as crianças vão desenvolvendo a maturidade emocional”, explica a psicopedagoga.

Fugindo das regras

Logo que começou as aulas de teatro, Thallya se decepcionou. O papel de menino, que seria dela, foi dado a um menino “de verdade”. Deixar a parte superior do corpo à mostra e ter cabelos compridos foram os principais motivos pelo qual foi impedida de fazer o personagem desejado. “A partir daí, senti que minha vida seria melhor se eu realmente fosse um menino”, afirma a atriz. Na avaliação de Fabiana, normalmente os jovens projetam em um personagem momentos que estão vivenciando.

Thallya conta sua história após assumir homossexualidade

Em casos de problemas pessoais, segundo Fabiana, o jovem não sabe de que maneira reagir. “Vivenciar o drama no teatro faz com que ela possa depositar no personagem o sentimento e possibilita maior facilidade em contar aquilo que está perturbando”, ressalta. Em sua experiência profissional, a psicopedagoga e professora já presenciou a escolha dos alunos em quererem fazer o papel de Lobo Mau. “Eles buscam maneiras de fugir das regras, deixar o personagem bonzinho de lado, para que eles possam mostrar que também ficam bravos e se sentem chateados”.

“ACHEI QUE MINHA FAMÍLIA NÃO IRIA ME AMAR MAIS, QUE DEUS IRIA ME MATAR OU QUE EU IRIA PARA O INFERNO”

Quanto a Thallya, ela decidiu que seria melhor contar sua história para seus colegas de palco. Além deles lhe apoiarem totalmente, decidiram que sua história deveria fazer parte da peça. A atriz acredita que tenha sido uma experiência única poder ver de perto tudo aquilo que havia afligido ela durante muito tempo. “ Eu queria entrar na cena e mudar a situação para que não acontecesse de novo com outras pessoas. ”, explica ela.

Para a jovem, “o teatro mexeu bastante com seu psicológico”, afirma. Hoje, ela acredita ter mudado o modo de pensar em relação as às injustiças que acontecem no dia a dia. Seu objetivo é ajudar as pessoas a enxergarem o quanto uma opressão pode prejudicar.

Grupo de Teatro do Oprimido finaliza espetáculo cantando sobre preconceito. Foto: Maris Strege

Trabalhando a imaginação

Além de incentivar a maturidade emocional, o teatro também abre um leque de possibilidades quando uma criança lida com cores, formas, tinturas e diferentes culturas. “Esses materiais favorecem as expressões artísticas e as habilidades como seres humanos em si”, destaca Fabiana. Os jovens têm uma capacidade de simbolizar tudo o que aguce os cinco sentidos: visão, audição, paladar, tato e olfato.

Os parâmetros curriculares nacionais, elaborados pelo Ministério da Educação para difundir os princípios da reforma curricular e orientar os professores na busca de novas abordagens e metodologias, afirmam que o trabalho cenográfico permite o desenvolvimento do pensamento e reflexivo sobre a sua obra ao criar o cenário que representa o lugar onde acontece a cena, por exemplo, com: lugar geográfico, lugar social, lugar geográfico e social ao mesmo tempo. O cenário também , também pode significar o tempo: época histórica, estações do ano, certa hora do dia. Assim, a função do cenário é a de determinar a ação no espaço e no tempo para que o espectador possa entender os acontecimentos. Ao interpretar, o personagem utiliza a palavra, que possui funções variadas de acordo com o gênero dramático, o modo literário ou teatral.

Em momentos de recreação, Fabiana, em seu turno como professora, observa seus alunos trabalhando a imaginação. “Pegam um objeto e o nomeiam pensando em outro. Uma caneta pode ser um avião e uma boneca pode sim responder o que você fala”, relata. Essas ações, conforme a psicopedagoga, mostram a compreensão da realidade que cada criança exibe. “Essas atitudes vão favorecendo para que ele se torne um sujeito melhor de fala de sentimentos, de dizer como é que se sente e tem toda uma questão de desinibição”.

Professores trabalham a imaginação durante as aulas. Foto: Divulgação/Universus

Para Fabiana, do mesmo jeito que é importante o relacionamento entre crianças, pois nessa convivência “são colocadas à prova frustrações, tolerâncias, limite e cooperação”.

Segundo dados IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) 95% das pessoas jamais entraram em um museu, 78% nunca assistiu a um espetáculo de dança e cerca de 90% dos municípios do país não possuem cinemas, teatros, museus ou centros culturais. Outra informação vinda do site Plano Nacional de Cultura é que 14% dos cidadãos frequentaram teatro em 2010, 18% em 2013. A meta é que até 2020 o publico do teatro aumente para 22% de pessoas indo ao teatro prestigiar os artistas e diretores. Conforme a Revista do Instituto Filantropia 43% das pessoas vão aos teatros assistir as peças, 38% a peças nas ruas e 28% não sabem ou nunca foram ao teatro.

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