Foto: Marysol Cooper

Doença no ar de Porto Alegre

Por: Marysol Cooper

Pesquisadores da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre decidem estudar as consequências da poluição atmosférica na saúde de alunos de escolas municipais. Até então, os estudos eram baseados em bioindicadores vegetais.

Conhecer a qualidade do ar na capital gaúcha se tornou tarefa para pesquisadores da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), que desde 2004, em conjunto com um grupo de estudos de São Paulo, busca alternativas para diminuir tanta poluição. O Laboratório de Estresse Oxidativo e Poluição Atmosférica da Universidade conta com o apoio de professores e alunos dos cursos de saúde para levar o projeto adiante.

Até 2014, a investigação em Porto Alegre ainda se baseava em vegetais, já que os recursos para pesquisas são escassos. A planta pata-de-vaca, presente em grande quantidade na cidade, foi, durante muito tempo, o material de estudo mais utilizado pelos pesquisadores. O acompanhamento da reprodução do vegetal foi o método de identificar os danos dos poluentes atmosféricos. Toda vez que a planta tinha contato com os contaminantes, ela sofria um aborto polínico, impedindo sua reprodução.

Nos últimos dois anos, o grupo de pesquisadores da UFCSPA passou a investigar tipos de alterações ocorridas em alunos de escolas da Capital. Através de um esfregaço na bochecha, foi constatado que as crianças que crescem nesses ambientes com maior frota de veículos, ou seja, contato maior com os agentes poluentes, têm suas células danificadas.

“Crianças gestadas em ambientes poluídos também crescem com dificuldade no desenvolvimento, diferente daquelas gestadas em zonas rurais, com ausência de comprometimento na qualidade do ar”, destaca a Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, Cláudia Ramos Rhodem, em entrevista ao blog de Jornalismo Ambiental da UniRitter.

A existência do volume expressivo de poluentes atmosféricos nas grandes cidades não é nenhuma novidade, mas o que muitas pessoas ainda não sabem é que as consequências do contato com esse tipo de material estão se tornando cada vez mais negativas para a saúde humana.

No decorrer dos anos, desde que iniciaram as pesquisas pelo grupo da UFCSPA, diferentes bairros de Porto Alegre foram avaliados. Foi constatado que a Zona Norte possui maior número de agentes poluentes em razão do grande tráfego de veículos. Segundo Claudia Rhoden, integrante do Grupo de Pesquisa Poluição — Estresse Oxidativo — Efeitos Biológicos.

O ato de parar e arrancar o automóvel aumenta de 20 a 30% o despejo de poluição no ar. “Os contaminantes, ao entrar em contato com os pulmões e a corrente sanguínea, podem resultar em diversos problemas. Alguns deles silenciosos, podendo dar sinais só no futuro”, alerta a pesquisadora.

Doenças pulmonares como asma e o agravamento de alergias respiratórias são os malefícios mais comuns detectados. Mas, problemas cardíacos, de reprodução, fertilidade e neuro-degenerativos (como Alzheimer) também surgem a partir da inalação de poluentes, de acordo com pesquisas mundiais. O mais preocupante para os estudiosos sobre o assunto são as faixas etárias mais propensas a obter essas doenças. “Idosos e crianças representam o maior número de casos registrados”, afirma Cláudia Rhoden.

Conforme o médico patologista Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, pioneiro no Brasil nos estudos sobre os impactos da poluição atmosférica na saúde, a inalação de poluentes causa uma sequência quase que imediata no organismo das pessoas. “Inflama, infecta e mata”, destaca. O sistema cardiovascular reage. “O poluente fecha os brônquios, o coração passa a bater devagar, bombeando menos sangue. Isso causa um curto circuito”, alerta Saldiva.

Em registros feitos em São Paulo, conforme Paulo Saldiva, junho e julho são os meses em que há maior internações devido a problemas causados pela umidade e poluição. “Quem determina o nível de poluição nas cidades é a Secretaria de Meio Ambiente, que não entende nada de saúde. Mas a Secretaria de Saúde também não coloca o problema na agenda”, constata o médico em aula disponível no YouTube.

Particulados

Na rua ou dentro de casa, ninguém está protegido. Os poluentes mais comuns como dióxido de carbono (CO2) e dióxido de nitrogênio (NO2) prejudicam totalmente o ar inalado nas ruas, rodovias e estradas. Mas o perigo pode morar mais perto do que se possa imaginar.

Aquela poeira, presente no interior das residências, chamado de material particulado, é o componente mais danoso para a saúde humana. “O pó é divido em três camadas: grossa, fina e ultrafina. Ao inalar a mais grossa o sistema defensor pode agir de forma eficiente; já as mais finas os pelos nasais, por exemplo, não conseguem expelir”, alerta Claudia Ramos Rhodem.

A poeira residencial agrega metais tóxicos, microrganismos, vírus e bactérias que utilizam o material particulado como veículo para chegar ao organismo das pessoas, causando uma resposta inflamatória. Esse resultado pode se manifestar de diversas formas, dando oportunidade para os contaminantes colocarem o corpo humano em exposição para problemas crônicos e até danos no sistema nervoso central.

“Em Porto Alegre, há um grande número de pessoas que consultam por apresentarem queixas respiratórias e cardíacas”, informa Cláudia Rhoden. Para uma avaliação profunda de conhecimento sobre os resultados dos poluentes atmosféricos, teria de haver um cruzamento de informações determinado por serviços de atendimento inexistentes nos hospitais locais.

Fazer exercícios físicos nos parques abertos de Porto Alegre também se tornou uma atividade comprometida. Uma aluna de biomedicina da UFCSPA, informa Cláudia Rhoden, realizou um teste nos horários de pico da frota de veículos nos corredores de ônibus das avenidas Osvaldo Aranha e João Pessoa, e de resultado foi visto a intensidade de poluição. “Consequentemente inalada pelas pessoas que se exercitam na Redenção, já que ao fazer esse tipo de atividade, os pulmões pedem por mais oxigênio”, adverte a pesquisadora.

Complementar os estudos nas escolas, com estudantes e suas famílias é a continuidade que o projeto de pesquisa da UFCSPA sobre poluição atmosférica quer dar. “Chamar a atenção dos órgãos políticos para um problema tão grande ainda é uma missão da cidade. Não fechamos os olhos para as consequências de tanta poluição. Persistência e dedicação é o que move as pesquisas”, afirma Cláudia Rhoden. Para alcançar seus objetivos no estudo, o grupo deverá buscar especialistas na área econômica, administrativa e biológica para que possam apresentar dados concretos sobre o assunto.

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