Empreendedorismo feminino no Brasil e seus desafios

Por Ellen Ribeiro, Fhabiana Credideu e Marysol Cooper

O crescimento do empreendedorismo feminino no Brasil, a independência e autonomia que isso proporciona às mulheres

Michelle Ferraz e Fernanda Nascimento, fundadoras da cerveja Macuco no café Ginkgo Foto: Fhabiana Credideu

Buscando independência e autonomia no mercado de trabalho, Fernanda Nascimento, 33, e Michelle Ferraz, 37, decidiram seguir no ramo de cervejas artesanais. Começando em 2013, as empreendedoras viajaram até Belém do Pará para conhecer mais sobre cervejas. “Esse negócio de ir para Belém do Pará, nós conhecemos cervejas muito exóticas, cerveja com açaí, cervejas com frutas que nunca ouvíamos falar e uma delas era Bararuri, todas muito diferentes”, descreve Michelle.

Após essa viagem, Michelle resolveu se especializar na área, entrando num curso de tecnologia de alimentos. E mesmo com viagens feitas e cursos em andamento, as empreendedoras não ficaram só nisso. Em 2015 estavam em busca de um fornecedor e um ato de modelo de negócio. Viajaram para fora em busca de um “TUC, TUC” e o trouxeram de Minas Gerais para Porto Alegre. Após todo esse preparo, a cerveja foi lançada em 2017. “Pra gente é liberdade e independência, eu já não estava satisfeita com a minha profissão e a Fernanda tinha essa questão do doutorado, de ter uma vida acadêmica muito longa”, conta.

Mesmo com toda essa conquista, o fato de estar em uma área que é predominante o homem, as criadoras da Cerveja Macuco já sofreram muito preconceito. Elas contam que são questionadas em feiras sobre como funciona o negócio. “Ele quer ver se tu sabe do negócio, e as pessoas nos veem nas feiras as vezes e acham que a gente é funcionária e quando se refere a quem seria o dono, é sempre no masculino”, relata Fernanda. 
Sobre empreendedorismo feminino, as meninas contam que acham bem positivo o público feminino nessa questão, pois também atendem muitas mulheres e acham importante essa representatividade.

As mulheres representam 53 % das iniciativas para abertura de empresas

Com a força dos movimentos liderados por mulheres, sua atuação em cargos que somente tinham homens na atuação, agora possuem espaço para as mulheres. Segundo pesquisas do Serasa Experian, empresa brasileira de análises e informações, mostram que o número de mulheres empreendedoras no Brasil é cada vez maior e elas já representam 53% das iniciativas para abertura de empresas no país.

As mulheres vem usando a sua capacidade e disposição como complemento ou até mesmo como principal fonte de renda familiar. Conforme o Sebrae, cerca de 85,1% das empregadoras possuem CNPJ e a porcentagem formalizada das que trabalham por conta própria é de apenas 19,9%. Ainda que obtenham lucro, há dificuldades para a mulher conseguir um espaço significativo no mercado de trabalho. Embora o número de mulheres com curso superior completo seja 20% em comparação aos homens, menos de 5% dos cargos executivos em diretorias de empresas e presidências são ocupados por mulheres.

Uma das dificuldades para as mulheres se motivarem a subir de cargo é o desencorajamento no ambiente de trabalho. De acordo com o Sebrae, 80% dos empreendedores reconhecem que ainda há muito a ser feito para que as mulheres sintam-se atraídas por cargos de liderança, mas apenas 13% acreditam que essas mudanças sairão do papel. Esse desencorajamento reflete em uma taxa de 43% de mulheres que deixam de começar seu próprio negócio. Assim, a queda da proporção da oportunidade no grupo das mulheres passou de 71%, em 2014, para 56% em 2015.

Outro desafio da mulher é a educação desigual. Em outras partes do mundo, aproximadamente 60 milhões de mulheres são privadas de estudar e em uma pesquisa feita na Austrália, segundo o Sebrae, 57% dos homens entrevistados declararam acreditar que tinham as habilidades e o conhecimento para abrir um negócio, em contrapartida, apenas 30% das mulheres têm essa mesma opinião. Carla Tellini, com apenas 26 anos abriu a sua primeira empresa, a Agência TH. “Fui a primeira mulher dona de agência e diretora de criação do Rio Grande do Sul, áreas antes dominadas apenas por homens. Já ganhei mais de 20 prêmios”.

Abrir um negócio e ser uma empreendedora no Brasil pode não ser fácil, mas existem outras formas da mulher se inserir no mercado de trabalho e com mais facilidade. Um dos exemplos são as motoristas por aplicativos, uma profissão que até o momento era predominada pelo homem.

Mesmo com a facilidade para entrar nesse ramo, os desafios e as dificuldades são bem parecidos. “O desafio era o medo de pegar um passageiro que eu nunca vi. Uma pessoa que eu não conheço, que vai entrar dentro do meu carro e vai conversar comigo, eu vou levar a pessoa. Isso meio que me assustava no início”, relata Cristina Pedroso, 46, motorista do uber.

Já Lisie Minuzzo, 35, afirma que ainda existe muito preconceito e que é preciso mudar isso. “Ainda existe preconceito e a maioria acha que não temos competência para exercer com maestria a profissão. Precisamos mudar muito o pensamento sobre igualdade de gênero, pois mesmo com todos os avanços das lutas feministas, ainda estamos muito atrasados”.

Contratados pela revista Exame, os Especialistas do Grupo de Pesquisa em Direito, Gênero e Identidade da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, fizeram uma pesquisa sobre políticas e processos, como o monitoramento da equidade de gênero e o equilíbrio entre o trabalho e vida pessoal. A segunda diz respeito aos dados demográficos da presença de mulheres por nível hierárquico.

Em média, de acordo com a pesquisa feita, as empresas obtiveram pontuação equivalente a 32% da nota máxima. E 20% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres entre as participantes. Dois setores com maior presença feminina são o da saúde e o farmacêutico, com 46% e 43% de mulheres na liderança, respectivamente.

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