Por trás da vitrine

Por: Marysol Cooper, Ellen Ribeiro e Fhabiana Credideu.

Foto: Fhabiana Credideu

Visitantes admiram, fotografam e até brincam com os animais em vitrine na Expointer durante os nove dias de evento. Mas como é feita a preparação desses animais até a chegada, durante e pós-evento?

Bovinos, ovinos, equinos e caprinos integram há 40 edições a maior feira do agronegócio da América Latina, em Esteio. Cabanheiros e peões focam constantemente em animais trazidos de suas propriedades em agosto de cada ano. A maioria deles viaja vários quilômetros e passa de 10 a 15 dias envolvidos com a Expointer. Todos os entrevistados pela equipe do blog de Jornalismo Econômico da UniRitter estão de prova: a participação dos bichos na feira vai muito além da comercialização.

Neste ano, em menor número, são 1.437 rústicos à venda, enquanto 3.207 animais de argola foram transportados para o evento para participar de julgamentos, conforme os dados divulgados no site da feira, que terminou neste domingo (03/09).

Boa alimentação, banho, trato e doma são alguns dos cuidados básicos para manter os animais na exposição. Mas além dos zelos diários durante os dias de realização do evento, os tratadores fazem uma preparação pré-Expointer. “Em abril já estamos trabalhando nos animais até que cheguem no Parque Assis Brasil”, conta Moacir Nunes, 46 anos, de Cristal, que trabalha na feira há 16 anos. Ele, junto com parceiros de outras cabanhas do interior passa em contato com os bichos da primeira hora da manhã até à noite.

Na foto, os irmãos Aparício (E) e Eracildo Nunes ( C). Foto: Fhabiana Credideu

Com sete animais para cuidar e uma família para sustentar, Aparício Nunes, de São Sepé, se desloca para Esteio há mais de 30 anos. Ele “vem tentar alguma coisa todo ano”, afirma. No fim de cada feira percebe o quanto é bom trabalhar, pois, para o cabanheiro, o retorno financeiro é muito bom. “São 11 dias bem difíceis. Estamos acostumados com a estância e chegamos aqui e muda toda a nossa rotina”, acrescenta.

O irmão de Aparício, Eracildo Nunes, de Alegrete, também participa há tempos da exposição. Juntos, passam o dia limpando e arrumando o velcro das ovelhas que vão desfilar no Parque. “É um trabalho prazeroso, mas complicado. Arrumamos o pelo dos bichos o dia todo”, conta. Demora pelo menos duas horas para uma ovelha ficar pronta para ir para a pista.

Hora do descanso

Em 2008, o Ministério do Trabalho proibiu os tratadores de animais de dormirem junto aos animais durante a Expointer. À noite, eles dividiam o espaço com os animais em um camping. A medida foi tomada para melhorar a estadia dos próprios trabalhadores.

Na época, o assunto tornou-se polêmico, hoje, é tanto trabalho que as horas passam despercebidas e quando chega à noite, por volta das 20h, eles sentem que o descanso pode ser realmente concretizado. Assim como uma parte dos cabanheiros e peões em atividade na feira, os irmãos Aparício e Eracildo se recolhem em um acampamento. “É bom ficar lá. Tem nossos caminhões e cozinha com geladeira. Ficamos bem à vontade”, explica o segundo.

Não é todo mundo que descansa nas barracas. A maior parte dos funcionários das propriedades rurais fica em alojamentos instalados dentro do Parque Assis Brasil. É o caso da estudante de zootecnia em Dom Pedrito, Thaís Honório, de 20 anos. Pela primeira vez trabalhando na feira, passa suas poucas horas livres com mais sete meninas no alojamento.

Desafios

Flavia Lavrack (E) e Thais Honorio ( C). Foto: Fhabiana Credideu

O maior desafio para a colega de quarto Flavia Lavrack, 21 anos, de São Paulo, é estar em contato com outras pessoas.

“Principalmente os homens. Na faculdade isso não acontece, é tudo um aprendizado”, destaca a estudante, que afirma gostar apenas do contato com o cabanheiro que a chamou para trabalhar na Expointer. “Com ele é tudo mais fácil. Ele gosta do que faz, é educado e trata todo mundo com respeito”, relata.

Já com os outros peões o contato é retraído, porque conforme Flavia, quando ela e suas colegas levam os animais para o julgamento os olhares são maliciosos. “Eles acham que não podemos estar aqui, mas vamos vencer isso. Eu sou apaixonada por isso aqui, minha vida é esse cheiro”, enfatiza.

O real valor do trabalho

Estar empregado é uma grande conquista quando o país passa por momento de retração econômica. O desemprego atinge a marca de 13.3% da população brasileira em 2017, segundo publicações divulgadas pela mídia tradicional no primeiro semestre do ano. Quando agosto bate na porta, milhares de pessoas ficam atentas nas vagas ofertadas pela Expointer. Não é diferente para os cabanheiros entrevistados.

“Mesmo assim, a Expointer não tem dado mais retorno como antes. Trazemos 15 funcionários para a feira para tentarmos uma quantia melhor, mas eles estão fazendo falta lá na propriedade”, conta Henrique Lamego, 50 anos, de Quaraí. Dono de cabanha, ele percebe que, nem no posto de chefe é fácil garantir o ganha pão. Ele possui mais de 1.000 ovelhas e apenas 20 delas são levadas para a Expointer para desfilar, serem julgadas e vendidas.

“A feira possui toda essa grandiosidade, mas tem muitos custos com os quais temos que arcar”, explica Lamego. Os gastos com transportes, inscrição, estadia e alimentação dele e de seus funcionários ultimamente vêm dando prejuízo.

Quem paga para os animais comporem a grande vitrine da Expointer é o produtor, que está sentindo a crise na pele. O tempo de trabalho e o retorno financeiro, para alguns não é problema, pois é do que sobrevivem. Mesmo com as dificuldades, os anos passam, e a feira continua fazendo parte não só da vida desses trabalhadores, mas dos seus animais também.

Ovelha pronta para exposição e julgamento. Foto: Ellen Ribeiro

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Marysol Cooper’s story.