“Homem-Aranha: De Volta ao Lar”

Um jovem sai de casa com parte de sua herança para viver como acha que deve. Após sucessivos fracassos e perder tudo que tinha, retorna pra casa arrependido e é recebido com uma grande festa por seu pai, que tanto sentia sua falta. A parábola do filho pródigo, de certa forma, exemplifica a situação de um dos heróis mais famosos do mundo ao retornar para o estúdio de onde jamais deveria ter saído.

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming), do diretor Jon Watts, só aconteceu graças a negociações entre as empresas Sony Pictures Entertainment e Marvel Studios. O personagem, que desde 2002 tem seus filmes produzidos pela Sony, passou por altos e baixos, até encontrar com a Marvel uma fórmula nova, um recomeço. Veio a pequena — e ótima— participação no filme da Marvel Capitão América: Guerra Civil, de 2016, e a parceira dos estúdios se repete para o filme solo do personagem, se mostrando eficiente e promissora.

O jovem Peter Parker (vivido pelo carismático Tom Holland) tenta equilibrar sua vida como estudante e Homem-Aranha, lidando com as crises da adolescência, a vontade de ser um grande herói e a ameaça do vilão Adrian Toomes (Michael Keaton). O longa não perde tempo em contar sua origem, já explorada tantas vezes no cinema. Em vez disso, foca no ambiente escolar, nas amizades de Parker e na relação com seu mentor Tony Stark (Robert Downey Jr), que foi iniciada em Guerra Civil. Estes novos elementos, aliados a um clima mais leve e descontraído, trazem um alívio e renovação, além de remeterem às muitas histórias em quadrinhos. Referências é o que não faltam no filme, além de diálogos realmente divertidos e sem piadas forçadas.

Holland é o Peter Parker/Homem-Aranha ideal. Entende o personagem e seus dilemas, mostra todas as nuances e complexidades e um adolescente que tem muito em suas costas e que sente a necessidade constante de se provar capaz. Seu melhor amigo, Ned (vivido por Jacob Balaton) é dos maiores acertos do filme, com um personagem cativante, divertido e que rende uma espetacular dinâmica com Parker. Michelle (interpretada por Zendaya), Flash (Tony Revolori) e Liz (Laura Harrier) completam o grupo de amigos de Peter, são eficazes e suas personalidades distintas remetem ao icônico grupo de estudantes no filme Clube dos Cinco, de 1985.

Mas a grande surpresa é Keaton. O ator, experiente em interpretar heróis no cinema, transforma seu personagem em uma pessoa real, com conflitos e motivações convincentes, passando medo, frustração e compaixão. Adrian Toomes (que apesar de jamais ser chamado de Abutre”, é este vilão das HQs em visual e habilidades) parece forçado a cometer seus atos de vilania, pois se vê em uma situação de desespero. Deste modo, suas ações chegam a ser compreensíveis. Poucos personagens tiveram essa profundidade e tratamento até hoje.

De Volta ao Lar, contudo, não possui cenas de ação inspiradas, diferente dos filmes antecessores do personagem — algumas chegam a ser confusas. É também perceptível que Holland é substituído por um Homem-Aranha digital em boa parte das sequências de luta, falha que não deveria existir, já que diversos momentos precisariam somente de efeitos práticos ou dublês. A trilha sonora é facilmente esquecível (apesar da incrível inclusão do tema clássico dos desenhos Spider-Man no começo do longa), e o roteiro deixa também alguns furos e incoerências, como o tempo e espaço entre os acontecimentos entre os filmes do universo Marvel.

Mas estes detalhes, nem de longe, estragam a experiência de ver o “amigo da vizinhança” em sua melhor forma. O filme é divertido, descompromissado e a jornada de Peter Parker ganha um revigorante capítulo, que merece continuar por um bom tempo.

Como é bom ter este filho tão querido pelos fãs acolhido em casa.

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