Acima do nível do mar

Jeniffer Freitas
Jul 27, 2017 · 3 min read

Não me era estranho o famigerado ditado de que a água salgada era capaz de levar embora, de sarar uma série de mazelas. Já ouvira aquilo da boca da minha avó uns bons anos atrás quando ainda era criança prestes antes de ir à casa de praia ansiando para longos banhos de mar, já ouvira aquilo quando mais velho como uma espécie de justificativa para o choro.

Se qualquer uma das duas premissas era verdadeira, eu ainda não sabia dizer, mas já havia experimentado de ambas naquela tarde (não me dando o trabalho de contar quantas vezes) e, sentado na areia com o corpo ainda molhado, desejava com um grito silencioso em meu âmago para que fosse.

Na verdade, eu me sentia um tanto quanto patético por buscar consolo no vai e vem daquelas ondas, naquela brisa que carregava o aroma pungente e salino do oceano enquanto ela procurava se curar (se é que nela existia algo a ser curado) por atalhos tão mais adocicados — fosse numa das várias caixas de chocolates que havia dado como presente para satisfazer os caprichos dela uma ou duas semanas atrás, fosse nos lábios de outro alguém enquanto dançava na saia rodada cheia de graça como aprendeu depois de três ou quatro insistências minhas (é, eu sabia que ela levaria jeito) naquele barzinho que… bom, também eu a apresentei. Hábitos que havia, ou melhor dizendo, que havíamos cultivado.

Como de costume, ela havia ficado com os pedaços bons, pedaços que foram entregues por mim. Essa afirmação carrega várias coisas, mas definitivamente arrependimento não é uma delas.

E eu? Ah, eu escolhi ter comigo só aquele colar vagabundo com uma concha quebrada de pingente, daqueles que parecia muito bem ter sido comprado na esquina mais próxima da orla. “Nada especial”. Mas era. E quem sabe por isso pesava tanto.

Era lembrança, era pedaço de Marina olhando pra baixo durante o passeio todo naquela manhã de sol procurando um resquício que fosse do mar — nem que fosse um daqueles sargaços que todo mundo costuma evitar — na terra pálida até pisar naquela parte colorida e lascada do que algum dia foi um mexilhão ou marisco qualquer.

“Olha que bonito!”
“Bonito nada, ‘tá é quebrado. Larga isso aí, Marina…”
“Deixa disso, vou é te fazer um negócio.”
“Que negócio?”
“Você vai ver depois, mas eu vou ter um igual.”
“E como, se só é uma concha?”
“A gente procura a que completa outro dia.”
“Outro dia?”
“É, e vai voltando até achar.”

Ah, Marina… Queria mesmo que a gente voltasse no dia seguinte, no depois dele e todos os outros até achar o que (entre tantas outras coisas), por alguns instantes, pareceu bem menos impossível.

Suspirei. Levantei pelo que pretendia ser a última vez e com um andar torpe — um tanto quanto embriagado por aquela memória — até ter os joelhos molhados. Com um único puxão, arranquei do pescoço aquele dia e aquela promessa. Pensei uma, duas, três vezes. Hesitei, mas finalmente o lancei para longe e o vi afundar em algum ponto da imensidão azul à minha frente.

Não me leve a mal, não queria afogar nada dela naquele gesto, até porque não acreditava que aquilo fosse possível, mas só pareceu justo permitir que as marés tomassem de volta o que lhe pertencia.

Quem sabe aquele búzio acabasse por esbarrar na sua outra metade ou tivesse mais sorte do que seu dono, e ao menos encontrasse a parte que lhe faltava.