Circo

Caminhando por horas, precisava descansar. Avistou uma praça a alguns metros dali. Sentado no banco, à sombra das árvores, sentiu um leve sono, que o fez esquecer do cansaço nas pernas. Pegou o caderno e a caneta, foi rabiscando uns e outros. Aí vem o estrondo. Deus do céu. Era o Apocalipse. Não, não era. Era o mendigo, bem do seu lado, atropelado por um carro que avançou o sinal. Ficou paralisado, em estado de choque. Diante daquilo, só o que moviam eram suas mãos…meio inconsciente, começou a escrever:

“De repente, o mendigo começou a pedir desculpas, mas ninguém o ouvia. O carro partiu em disparada, deixando as marcas de pneu para trás. Uma multidão de pessoas foi se aproximando, fotos, muitas fotos. Eu ainda não conseguia me mover, mas todos a minha volta pareciam mais paralisados que eu. Até os pássaros gritavam, e as pessoas continuavam chegando, mas não chegavam. Paradas, tiravam suas fotos, depois lentamente iam saindo. O mendigo fez um sinal. Queria falar alguma coisa, chamar alguém, não sei. Eu preciso me levantar. Droga, pernas bambas.”

Era tudo muito estranho, o tempo, parado. A multidão de curiosos agora era só um punhado de gente olhando de longe. A polícia, veio, mas o Flamengo fez um gol na hora.

Em um esforço sobre-humano, o mendigo começa a se levantar.

“O cara se levantou. Vem vindo em minha direção, caramba, vermelho..vermelho…acho que vou desmaiar…”

E o mendigo se arrasta, dá dois tapinhas no rosto do homem desmaiado a seu lado, que abre os olhos, sobressaltado.

“Obrigado, cara.”

“Mas eu não fiz nada, só fiquei ali, sentado.”

“É verdade. Por isso mesmo. Você fez o que podia. Talvez morrer não seja coisa tão ruim assim nesse mundo, pelo menos agora posso me juntar aos pássaros…”

Dito isso, caiu calmamente na beirada da calçada. A praça se encheu com o canto dos pássaros.

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