É proibido pensar
“Aqui está o seu café.”
“Ah, sim. Obrigada.”
(Eu pedi café? Eu quero muito um café, é verdade, mas não me recordo de ter pedido…)
“Moça, a senhora entrou aqui e disse que precisava de um café…se não quiser, não tem problema…”
“Não, tudo bem, eu fico com ele. Muito obrigada, desculpa viu?”
“Nada”
(Eu em, devo estar ficando louca…essa semana tem que acabar logo)
“[suspiro] Nem fala, essa cidade tá deixando todo mundo meio maluco”
Saí da padaria depois daquela conversa esquisita com o copo na mão, deixei o dinheiro e fui para a estação. Já estava acostumada a correr, a estar atrasada. Chego lá. Meu Deus, uma fila grotescamente grande. Fazer o que, é a vida…
Parada na fila, chega uma mãe com uma garotinha linda, de uns 3 anos de idade. Uma flor. Uma pena eu estar de péssimo humor.
(Nossa, por que alguém não aparece aqui e me mata de uma vez!? Mas que inferno, uma hora parada e não andei dois metros…também, com aquela velha ali na frente só terremoto pra tirar ela do lugar.)
A garotinha olha para mim assustada e puxa a saia da mãe.
“Mamãe…por que a moça ali quer que matem ela…?”
“O que, filha, não fala essas coisas, que bobagem.”
“Mamãe, o que é tembemoto?”
“O quê? Filha, a mamãe tá ocupada, depois a gente conversa…” — e voltou a mexer no celular.
Quando ouvi a garotinha meu coração parou por um instante.
(Não é possível. Eu não FALEI aquilo. Eu PENSEI. Isso é loucura.)
“Hahahaha”- a menininha deu uma risada.
Eu olhei assustada para ela. Eu tinha que testar. Não, besteira, isso é coincidência. Mas explica o negócio do café. Não tinha mais nada para fazer mesmo, então resolvi entrar na minha loucura de cabeça e torcer para que estivesse errada.
(Ei, garotinha. Você tá me ouvindo?)
A menina fez que sim com a cabeça.
(Se está ouvindo isso, repita o número 6.)
“Seis.”
(Meu Deus. Está acontecendo mesmo. Não é sonho. Estão lendo meus pensamentos!! Não…não..não, não, Não!! Para de bobagem. Não tem cabimento.)
“Moça, dá licença, você pode falar um pouco mais baixo..? Me desculpa, mas é que tá assustando a minha filha..”
(Claro. Até porque eu disse alguma coisa.)
A mulher fez cara feia.
Saí da fila, saí da estação, procurei um lugar vazio.
(Não é possível. Preciso ir pra casa, esfriar a cabeça, beber alguma coisa. Vai passar. Tenha fé. Será que tem um táxi por aqui?)
“Precisa de táxi?”- Gritou um sujeito que inexplicavelmente surgiu do nada.
“AAAHH!! Nossa, que susto!! Não, não vai embora, eu tô sim..!”
“Tá o que moça?”
“Precisando de táxi.”
“Ah..então, meu carro tá ali na frente.”
E fui. Tentei não pensar em nada, dadas as circunstâncias. Seria uma viagem longa até minha casa.
“E aí, pra onde você vai?”
“Bairro da Boa Morte, por favor.”
(Nomezinho horrível…)
“Haha, verdade. Tá pra ser descoberto um mundo onde tem morte boa.”
(Assustador. Está acontecendo mesmo. Ih, falei de novo..falei não, pensei né)
“Como é, moça?”
“Nada não.”
(Já sei. Mas que calor, não? Tá precisando de chuva esses dias)
“Tá mesmo, insuportável. O problema é: Sem chuva, calorão horrível; quando chove, desaba o céu e tem enchente, engarrafamento..tá difícil!”
(É mesmo)
Foi uma boa estratégia. Para que falar, se eu podia apenas pensar? Dali em diante fiquei apenas pensando em trivialidades, coisas que se fala em um táxi. Ou, no meu caso, pensa.
Cheguei em casa. Paguei o motorista, agradecendo com um pensamento agradável e colorido. Deve ter sido o melhor “obrigado” da vida dele. Peguei uma cerveja na geladeira, deitei no sofá. Liguei a TV, era a moça do tempo falando ao vivo. Fiquei até com medo de que ela estivesse lendo minha cabeça, afinal, era ao vivo né!?
(Tudo bem. Estou sozinha. Chega dessa loucura, amanhã eu dou uma desculpa lá no escritório. Vou dormir, é a melhor coisa a se fazer. Amanhã é um novo dia)
Era uma manhã chuvosa. Saí cedo, tentando driblar o trânsito, que já estava infernal. Aparentemente um caminhão tinha tombado bem na principal, deixando uns cinquenta mil carros parados atrás. Um deles era o meu.
(Por que não fui de metrô!? Que droga!)
E a chuva caía.
(Merda de chuva, aposto que o bastardo do cara do caminhão bateu por causa dela)
Saí do carro e fui lá ver. Já tinham tirado o caminhão. O que tinha agora eram dois guardinhas de trânsito “balizando” a saída de pessoas. Por balizando, leia-se atrapalhando.
(Ai Deus! O que esses filhos da puta metidos a besta estão fazendo aí!? Saí daí seu gordo ridículo, deixa passar e vai comer rosquinha!)
E o guarda olhou para mim. Ajeitou o cinto na barriga gorda, deu uma apitada na minha cara e disse:
“Como é que é?”
Ah não. De novo não.