Horizonte

Alguém batia à porta, de um jeito impaciente. Meio acordado, meio dormindo, Juan praguejou, levantou-se e foi atender. Só de cuecas, pisou em um pouco de vômito da semana passada e praguejou de novo. Ao abrir a porta, a luz do sol era novidade, quase uma bênção.

_Santo deus, amigo. Você parece bem.

_Oh, aprecio seu sarcasmo, Stevie. Tenho um presente pra você — mostrou-lhe o dedo do meio.

_Haha, ok. A gentleman. Na verdade, quem trás presente sou eu.

Stevie era um irlandês ruivo, que carregava uma barba rala no queixo de um rosto magro cheio de sardas, algo parecido com um bode. A vida na pequena fazenda de sua família era miserável, então aos vinte entrou clandestinamente em um barco cujo destino não fazia ideia. Foi descoberto, e os marujos não aliviaram. Fizeram-no de escravo por cerca de um mês, até a nau atracar em Nova Iorque. Após arranjar emprego de garçom em um pub irlandês (os únicos que entendiam seu sotaque), permaneceu na cidade por cerca de três anos. Mas o marasmo da vida de garçom o enlouquecia, então abandonou as mesas do pub e entrou no barco pesqueiro de um mexicano, conhecido como Capitão Boba. Gostara da vida no mar, vida sem preocupações, sem barulho, sem asmo.

Aconteceu que não havia trabalho algum, o Capitão estava falido. O ano era 1979. Boba enganara a tripulação, largando-os no porto de Tampico. Foi quando conheceu Juan.

_Desembucha logo então. Estou meio ocupado aqui.

_Posso ver. Olha, tem uma aranha no seu cabelo. Ah não, é só o cabelo mesmo.

Juan soltou um cuspe no chão da sala e já ia fechando a porta, mas Stevie o deteve, falando em tom sério:

_Espera. Ramón precisa de pescadores, vem coisa boa aí. Partimos em uma semana. Me encontre no bar mais tarde, te explico os detalhes.

_Hm. Certo. Seu pedaço de merda, não precisava vir tão cedo só pra isso.

_Achei que você gostaria de uma surpresa. Ganhei até um presente seu! — E saiu gargalhando, enquanto Juan batia a porta atrás dele.

Foda-se. Deitou-se de novo na poltrona.

Quando Juan chegou já era madrugada, o bar estava vazio. Mas, bem ao fundo, fora da vista estava Stevie. Puxou uma cadeira.

_Você demorou.

_Eu estava ocupado, dormindo.

_Sei.

Após uma longa pausa, Stevie respirou fundo, virou um shot de tequila e apontou o dedo na direção do balcão, dizendo lugrubemente:

_Havia uma mulher bem ali que ia me levar pra casa dela. Falou que gostava da minha barba. Mas eu disse que não, que estava te esperando. Então ela foi embora.

_Que pena. É uma cidade pequena, afinal de contas. Você vai vê-la de novo, talvez.

_Mas eu aposto que ela não é daqui.

_Talvez não seja.

_O que vai beber?

Conversaram e beberam por algumas horas, até o dono decidir fechar o botequim. Foi um dia particularmente ruim para os negócios. Os dois nem tocaram no assunto da viagem. Fosse o que fosse, ambos sabiam que não havia outra opção senão ir.

Juan, agora sozinho, caminhava para casa. Um vinho barato na mão esquerda, um cigarro na direita. Tropeçando nas imundícies da rua, um vulto negro rodopiava na outra calçada. De olhos semicerrados, Juan encostou-se num poste a observar, entretido. Era um homem, que parecia procurar alguma coisa. Poderia ter trinta, poderia ter sessenta anos, tinha um rosto ambíguo. Ao notar que estava sendo observado, voltou os olhos para Juan, que permaneceu imóvel.

_O que está procurando?

O homem se aproximou, emanando um odor fétido ao dizer:

_O mesmo que você.

Juan notou que seu cigarro havia apagado. Respondeu com um grunhido de concordância, colocando a mão no bolso e tirando uma caixa de fósforos. Só restava um palito. Entregou a caixa ao homem.

_Faça bom uso, é o último.

O homem aceitou com uma meia continência. Acendeu seu cigarro e viu o outro sumir na esquina. Depois só o silêncio.

Em casa de novo, procurava algo pra beber. Ia passando pelo quarto, mas deteve-se no espelho. Parecia o seu pai. Uma versão mais feia dele, sem esperanças, sem vida. Maldito velho bêbado, eu estou ganhando de você, pensou.

À poltrona.

O primeiro passo em direção à antiga escuna Fortuna quebrou uma tábua do pier, afundando sua perna esquerda na água. Um velho sentado ao seu lado em um barril, olhando a cena de perto, disparou:

_Garoto, devia ter entrado com o pé direito…

Se esforçando para tirar o pé do buraco, Juan olhou de soslaio para o velho. Uma criatura peculiar, o velhusco. Vivia ali nas redondezas a tanto tempo que a sua presença era quase uma espécie de névoa, uma brisa passageira que sopra nos ouvidos de quem passa carregando e descarregando as embarcações atracadas no porto. O rosto magro e a pele endurecida tinha o aspecto similar à madeira das tábuas, e ele ficava todo esbodegado no barril com seu sombrero.

_É o que meu pai sempre dizia.

O velho soltou uma risada seca, como que adivinhando o que Juan ia dizer, acrescentando em tom sério:

_Pois então… Dessa vez ele estava certo.

_Meu pai era um imbecil. Assim como o estúpido nome desse barco.

Mas o velho cochilava, e Juan tinha muito trabalho a fazer. Stevie acenava da proa, ora rindo, ora mandando acelerar os caixotes com as redes. Juan resmungava, amaldiçoando aquele irlandês com cara de bode. Após manhã longa de trabalho, o capitão decidiu fazer uma pausa para o almoço e um cochilo. Depois, os doze homens fariam sua marcha nobre e invisível mar adentro. Juan e Stevie tomaram uns goles de vinho:

_Está ansioso?

_Não. É só uma viagem de mierda –disse desinteressado, logo mudando de assunto- Já tinha reparado naquele velhote?

_Sim, está cochilando. É o que os velhos fazem.

_É, mas…

_Vamos, Ramón já está gritando como uma vaca parindo. Maldito apressado!

Os reparos no mastro castigado pelo tempo funcionariam, garantiu –rezando para que fosse verdade- o capitão. Da proa Ramón sentia a presença do mar calmo, de bons presságios, e ia ajustando a vela mestra a barlavento, para em seguida ordenar os homens do convés. O cocinero já começava os preparativos daquele que seria o primeiro jantar do grupo. Juan e Stevie puxavam e conferiam uma última vez os cordames remendados, tendo o cuidado de fortalecer os nós. A experiência os fazia encarar tudo aquilo de maneira natural, descontraída.

_Já te conheço há o que, uns 4 anos?

_Acho que sim, acho que sim… -Juan fitava o horizonte.

_Mesmo assim, não sei quase nada sobre você.

_Eu poderia dizer o mesmo. Não faço ideia de quem seja Stevie.

_Hahahaha, não é de se espantar. Afinal de contas, meu nome nem é Stevie.

Juan parecia disperso, os olhos fixos no porto agora quase invisível. Então se deu conta do que ouvira, e virou-se para o outro com uma cara de interrogação, de quem diz “como assim, meu camarada?”

_Pois é. Meu verdadeiro nome é Alan, hahaha. Abandonei esse nome pouco antes de deixar a America. Na minha terra, significa pedra. Falo sério.

_Por que diabos Stevie, então?

_É o nome de um guitarrista de blues. O melhor que eu já vi, sem dúvidas. Acho que é do Texas.

Os dois se entreolharam, e caíram na gargalhada juntos. Juan fez questão de dizer que era a coisa mais idiota que já vira na vida.

_Um nome. Não significa muito, eu acho.

_É, pode ser. Juan é um nome bem comum. Talvez meu pai quisesse se certificar da minha mediocridade em todos os sentidos. Ficou surpreso quando eu aprendi a ler.

_Eu também ficaria. Hahaha, calma, é brincadeira. E o que aconteceu depois?

_Depois… Eu fugi. Tinha uns 13 anos. Foi quando comecei a me virar no porto, fazendo favores aos capitães. Sonhava em me tornar um, melhorar de vida. Mas me dei conta logo que a sorte não viria. Desde então o tempo apenas passou, o que é estranho. Eu nunca pensei que envelheceria…

_E seu pai? –Stevie parecia fascinado.

_Soube que morreu há muito tempo, uns dois anos depois de eu ter fugido. Ele nunca veio me procurar. Provavelmente morreu sozinho nas ruas, com uma garrafa nas mãos. Enfim, uma porcaria. Veja, sumiu -Apontava para o horizonte. Agora só havia o mar de todos os lados.

_Vamos, vamos lançar essas malditas redes! –Ramón dava ordens, olhando histericamente para todos os lados, certificando-se de que não haveria ali uma só alma descansando.

Mas ainda deu tempo de Stevie, ensaiando um sorriso, declarar baixinho:

_Saudades do meu velho… O que será que anda fazendo?

Ao final de um mês, a empreitada rendera um bom dinheiro aos tripulantes do Fortuna, que retornavam para suas famílias com boas novas. Eram tempos difíceis. O Capitão gabava-se do feito, pois colocara aqueles homens toscos para trabalhar como nunca, e o jeito deles de comemorar foi com uma bebedeira sem limites e bobagens sem fim. Por gerações, o mar provinha o sustento àquela população. Mas nem mesmo toda a grandeza do oceano parecia capaz de conter o progresso da economia. A expansão violenta da pesca industrial era protagonizada por pessoas que nunca sequer colocariam os pés em um navio, mas que reclamavam para si a propriedade das gigantescas naus e seus quilômetros de redes, que avançavam silenciosamente nas águas profundas. Ao subirem para a superfície, os emaranhados e amontoados incontáveis de peixes protagonizavam um alvoroço que reverberava nos milhares de viventes daquela região, de muitas maneiras. Com o mar ocupado –loteado- não havia mais espaço para os pescadores tradicionais.

Passada cerca de uma semana, Juan voltou ao porto. Acendeu um cigarro à distância do vaivém de pessoas. Muitos dos que ali estavam trabalhando eram o mais próximo do que ele poderia chamar de família, e ele pensou nos passantes e na fumaça que saía de seu cigarro. Concluiu que eram bem parecidos. Então olhou para a pequena escuna, Fortuna. Dessa vez, ao seu lado havia um barril apenas. O velhote não estava lá. Um homem disse que o velho estava nas últimas. E apontou a Juan a direção da cabana onde talvez a sentença já houvesse sido cumprida.

A porta estava aberta. Juan anunciou sua presença, mas como não obteve resposta, apenas entrou. O velho estava deitado em uma cama de palha seca, protegido por uma manta que não lhe cobria os pés. Estava fraco, e sua voz se limitava a um sussurro:

_Você devia consertar aquela tábua, garoto –disse com um sorriso, caçoando.

Juan se limitou a sorrir de volta.

_Sabe, aquele dia você me disse que seu pai era um imbecil. Acho que é verdade, aquele bastardo. Eu o conheci, na verdade éramos amigos.

_Eu tinha certeza que já te vira antes…

_Antes de partir, me pediu que eu cuidasse de você. Mas eu logo percebi que você estava indo bem sozinho, então observei de longe e deixei o destino decidir… E agora você está aqui –o velho soltou uma gargalhada, que se misturou com uma tosse seca, feia.

_Não se pode vencer o tempo, velhote. Veja, já não sou mais o menino que você entregou ao destino. Aliás, que porcaria de destino –Os dois deram risada.

O velho olhou uma última vez para Juan:

_Garoto, eu sabia que esse dia viria. E quando viesse, eu sabia também que não queria estar sozinho… Um homem que morre sozinho é um homem invisível, é o que eu te digo…

_Não se preocupe, velhote. Eu não vou a lugar nenhum –Juan disse, sentando-se ao lado do velho.

Por um breve momento, Juan pensou naquilo que o velho havia acabado de dizer. E pensou em seu pai, num misto de raiva e complacência. Voltou-se ao velho:

_Me diga pelo menos o seu nome, velhote.

Mas ele já cochilava.

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