Mortos-vivos

O cara não parava de falar e era isso que ele mais odiava nele. Mas não dava pra pensar em ódio no momento, tudo o que conseguia pensar era: Mas que merda, faz uma hora já que ele tomou aquela porcaria, já era pra ter funcionado mas esse filho da puta continua falando e falando nessa desgraça, puta que pariu.

Os dois sentados no trem e a viagem ao que parece seria longa. Tinha várias pessoas ao lado, mas não tinha ninguém. O cara viu na TV o horóscopo e começou a explicar o que ele sabia — praticamente tudo — sobre o assunto. Aparentemente ele era de peixes e isso era muito bom, mas também muito ruim, muito artístico, muito apaixonado, blá, blá…

Aí de repente o cara começa a tossir. Tosse sem parar, engasgado, o olho vai ficando vermelho. O rosto agora vai ficando roxo, e a tosse continua e continua. Tem várias pessoas ao lado, entrando e saindo do trem, as portas são automáticas. As portas abrem-se e fecham-se sozinhas, as portas automáticas. As pessoas tem que sair e entrar. E o cara para de tossir, subitamente. A boca fica aberta, cheia de espuma e a cabeça encostada à parede. O horóscopo volta a aparecer na tela. Um dia propício a coisas novas.

Ele olhou para o cara ao seu lado. Está aí, morto. Fez efeito, finalmente. Eu matei um cara, olha só. Pronto, chegou o terminal. A voz no trem anuncia para todos descerem, pois é o terminal. O homem se levanta e vai em direção à porta. Alguém esbarra no seu braço, e diz: Olha amigo, você esqueceu sua mala. O homem diz obrigado, volta e a pega. Depois sai do trem, as portas automáticas se fecham e o cara morto começa a esfriar. Não tem nada de novo nisso.