Às vezes é preciso entrar na escuridão para perceber a luz.

O Casarão

Avistei o casarão ao dobrar a esquina. Era notável que uma construção daquelas ainda pudesse resistir ao tempo e permanecer ali, bem no coração da cidade. Em meio ao vazio dos prédios, do asfalto cinza e da multidão de pessoas abarrotando as calçadas largas, um grande portão de ferro separava-o do resto do mundo. Era como um organismo vivo, um velho senhor que por teimosia se recusava a ceder ao pensamento de quem quer que fosse, determinado a manter-se intocado — incólume — até na loucura.

Apesar do estranho convite, a dúvida que pairava em minha mente não me permitia recusá-lo.

“Convido o senhor a uma tarde agradável por ocasião de seu aniversário, em meus aposentos na rua […]”
De seu parente mais próximo.

Eu não tinha parentes na cidade, ainda mais que morassem em um lugar como esse. Seria um tio que nunca conheci? Irmãos eu não tinha… O mais provável era que fosse um lunático qualquer. Mesmo assim, ele sabia o meu aniversário.

Ansioso, anunciei minha presença pelo interfone, ao que um homem de voz rouca me deu boas vindas. Então o portão se abriu e eu pude olhar através dos espessos muros de pedra. A fachada do casarão era construída em madeira de um aspecto frágil, e até patético. Parei por alguns instantes antes de prosseguir até a porta, então observei o quão simples era a arquitetura daquele lugar. Não havia luxo, nada suntuoso, ao contrário. Ali, tudo estava em seu devido lugar e era necessário. As cicatrizes do tempo já se acumulavam nas paredes e no telhado, uma festa para as lagartixas e as samambaias.

Caminhando pela área gramada ao redor da entrada, senti a tensão inicial e ansiedade baixarem, talvez pela maciez da grama em meus sapatos. Meu contato com a natureza era raríssimo, mas de alguma forma eu me sentia confortável, tal como se estivesse em casa.

Então esperei.

Um senhor abriu a porta, e no momento em que o vi um frio percorreu minha espinha. Havia algo indefinido nele, que me incomodava. Era de estatura mediana, cabelos escassos prateados e nariz adunco. Tinha olhos negros cansados, e olhava com desdém. Aquele velho parecia alguém que acabara de perder nas apostas.

Além disso, seus traços eram de uma semelhança surpreendente para comigo, donde acreditei ser aquela figura, de fato, um parente meu.

_Bom, olá. Como vai? — Perguntei, meio sem jeito.

_Olá. Vou vivendo, assim como você. Vamos entrando.

Acenei com a cabeça ligeiramente e passei os pés pelo tapete. O velho parecia notar meu mal estar.

_Preciso me ausentar por um minuto, por que não dá uma olhada por aí?

Me vi sozinho. Com as mãos nos bolsos, fui andando vagarosamente pelo salão, ouvindo o eco de meus próprios passos. O teto era alto, típico de construções antigas. As tábuas do piso estavam absolutamente limpas, intocáveis. Ao fundo do hall havia uma estante carregada de livros, a qual não pude deixar de olhar.

Mas qual não foi meu espanto ao notar que, até onde eu poderia lembrar, todos os livros que ali estavam eu já havia lido! Atônito, fui investigando minuciosamente cada palmo em busca de qualquer obra desconhecida, mas — desde livros infantis até obras científicas — absolutamente todas eu já havia lido. Gargalhei no salão vazio, emitindo um som mais alto que eu gostaria, então dei uma olhada de lado, disfarçando. E nesse momento meu coração parou.

Amigos de infância, da escola, vizinhos, colegas da faculdade e do trabalho. Estavam todos ali, na parede lateral, em grandes quadros emoldurados. E, ao lado, um grande espelho. A expressão facial dos rostos era rígida, emitiam um olhar grave diretamente para mim. Era como se desaprovassem o que eu estava fazendo. Até meu próprio reflexo me censurava. Era muito perturbador.

Voltei à porta com intenção de ir embora, sentindo que isso já havia ido longe demais. Estava trancada. Peguei o celular e disquei o número da polícia.

_Eles não podem te ajudar — O velho apareceu, com uma garrafa de café — Aceita?

Não dei ouvidos a ele, e esperei até que atendessem. Informei o endereço, dizendo que algum louco estava me mantendo em cárcere.

Na outra linha, o policial retrucou:

_Muito engraçado, um cara adulto passando trotes para a polícia! Pega esse casarão e…

Desliguei.

A clareza fugia a meus pensamentos. Tudo aquilo era muito estranho e eu me sentia mal, invadido. Não havia onde me esconder. Logo eu, que há anos vinha fazendo isso. Esbravejei com o velho, que estava encostado à parede:

_O que quer de mim? Quem é você, seu nome!?

_Meu nome não é importante. Aliás, nome algum é importante, nomes são apenas formalidades. Agora, quanto à primeira pergunta, creio que o mais correto seria perguntar-se a si mesmo.

_Ora, vamos. Vai ficar fazendo joguinhos? Eu tenho dinheiro, só me diga o quanto você quer e resolvemos isso!

_Poupe-me do seu dinheiro. Desfaça-se desse dinheiro. Ora, que uso tem o dinheiro para você?

_O que quer de mim? — insisti.

_Não quero nada. Não movi uma palha em sua procura.

De alguma forma, eu sabia que aquele maldito estava dizendo a verdade. Ele desdenhava de tudo que eu dizia ou fazia, como se já soubesse ou pudesse ler meus pensamentos. Já que ir embora não era uma opção, de repente senti, como há tempos não sentia, coragem e avidez de ir até o fundo. E isso tornava a situação ainda mais misteriosa, afinal de contas.

_Bom, isso pode ser traumático. — O velho deu um suspiro longo, ajeitou o casaco, um casaco amarelado todo em farrapos.

_O que acontece agora?

_Venha comigo.

Deixou a garrafa de café e foi andando calmamente até o fundo do salão, onde havia uma grande porta, que eu até então não havia percebido. Ainda indeciso se devia segui-lo ou não, peguei o livro mais pesado que vi na estante para usar como arma caso o pior acontecesse.

_Você não quer fazer isso — O velho disse sem ao menos olhar para trás.

_Como sabe? Eu posso te matar facilmente — menti.

_Não, você não pode. A ideia te enoja. Você tem medo mas está curioso, o que é bom.

_Já chega. Isso é loucura. Quem diabos é você? Não dou mais nenhum passo além.

_Mas não é óbvio? — O velho abriu os braços — Eu sou você. Mais precisamente, sua consciência. Ao que alguns chamam alma ou espírito. Simples assim. É assim que eu sei tudo o que pensa, fala ou faz. Vivi cada segundo que você viveu, conheci tudo e todos que tenha conhecido. Agora, por favor, largue esse maldito livro.

O livro já havia caído das minhas mãos.

_Eu…

_Todo esse lugar também. Esse lugar é você. Por isso essa decoração péssima.

Eu sabia que não era possível, mas também sabia que era verdade. Tudo — e nada — fazia sentido. Não podia mentir para mim mesmo. Olhei para o velho e concordei com a cabeça, num gesto maquinal. Era muito o que processar, e fazer perguntas não me parecia a melhor forma. Tive medo.

_Agora vamos começar a entrar. Prepare-se, porque você está bem fodido.

A larga porta dava para um corredor do qual irrompia uma luz de cor indefinível, muito intensa. Tão forte que eu a sentia invadir meu corpo, sentia as células sendo irradiadas. Me dei conta de todo órgão ou tecido, tudo o que fluía em mim. Em união com meu corpo, percebia cada gota de sangue penetrando em meus músculos, as batidas bem definidas do coração, como um maestro que rege uma orquestra. Uma orquestra de elementos tão distintos, mas ao mesmo tempo de uma harmonia indescritível, onde cada instrumento cumpria seu papel da melhor forma possível.

Ou quase. De súbito, comecei a notar desarmonias, pequenas, pontuais. Porém tal era a conexão entre os minúsculos atores de todo esse circo, que com o passar do tempo a linha tênue da perfeição se cortou, e os erros se multiplicaram em um efeito dominó. O maestro perdera o comando da orquestra, que tocava uma sinfonia feroz, uma avalanche infernal que aumentava mais e mais de volume e proporções.

Tentei em vão consertar as coisas, que mais e mais fugiam ao meu controle, e um sentimento de frustração foi crescendo dentro de mim. O peso do fracasso e da desilusão caindo em minhas costas era insuportável, e me aterrava ao chão. Caí de joelhos. Era aquele sentimento de novo.

Meu estado de torpor foi interrompido pela voz do velho:

_Percebe o que está acontecendo?

_Eu…eu não entendo.

_Exatamente. Quem é você? Quem, afinal de contas, é você? Certamente não é isso aqui — e apontou para mim. Você é muito mais do que isso. Quando foi que se perdeu?

_Ora essa, você sabe, não é? Não sabe de tudo, senhor da verdade?

As lembranças voltaram à tona como um soco no estômago. Tomado por fúria e ódio de mim mesmo, rebentei em lágrimas, que rolavam até meus lábios e se misturavam com palavras insensatas, estúpidas. Eu, que não chorava há dez anos, desde que ela se fora.

Durante dois anos, a vida adquirira um sentido em si própria. Vi que, com ela, meus antigos sonhos e projetos poderiam se tornar realidade. Mas agora eu percebi o quão egoísta é isso. Será que eu a amava? Talvez eu amasse a ideia de que ela vivia em função de mim. Era isso. Era sempre eu e mais ninguém. Nem tudo está perdido, dizia ela, sem saber que nesse ínterim ela ia aos poucos se perdendo, se desfazendo e eu nada fazia. Mas não se pode possuir uma pessoa. E a vida tratou de me ensinar isso. Subitamente, foi acometida por uma grave, desconhecida doença. Não viveria por muito tempo, diziam os médicos. Ela tinha pouco tempo. E pouco não era o suficiente para mim. De novo, era tudo sobre mim, para mim. Ela já havia aceitado sua condição, mas eu não lhe dei essa liberdade.

Afastei-me de tudo e de todos, prometendo encontrar uma saída, uma cura. Os livros eram minha esperança. Oh, o quão estúpido foi isso! Minha amada faleceu e eu nem ao menos estava lá em seus últimos momentos. Não fora capaz de cumprir a mais importante promessa. Não pude me despedir. Eu a matei. E fiz isso sistematicamente, pragmaticamente, a sangue frio. Porque eu sabia o quão doentio era isso.

_Não é impressionante a capacidade que temos de mentir para nós mesmos? Ah, eu acho que é. Fantástico! — O velhote batia palmas efusivamente e ria.

Avistei uma escada no fim do corredor, até onde corri. Um miserável como eu, que me adiantava chorar?

Corria de mim mesmo, escondia-me de mim mesmo. E corria em uma espécie de floresta, com árvores por todos os lados. Não, era um jardim. Ao longo de uma trilha pedregosa, obeliscos deformados ladeavam o caminho. Caía uma chuva espessa e negra, que parecia alimentar toda sorte de arbustos. E ali, esculpidos nos arbustos, estavam formas, não diria humanas, caricatas, grotescas.

_Hahahahaha! Assustador, não? — O velho estampava um sorriso amarelo. Veja esses obeliscos, são seus valores. Suas crenças. Estão ruindo. Você é uma farsa, me deprime.

E continuou:

_Acha que é um delírio? Não pode ser você, tal coisa…Mas digo, isso — levantou os dois braços ao alto, girando — é o que você é. O que você criou. Está criando, mais precisamente. Não quer voltar para a fachada? É certamente um visual mais agradável! Mas veja. Contemple o que se esconde por trás dela.

As formas eram muito mais humanas do que uma simples face pode expor. Angústia, raiva, ódio, frustração, arrependimento, mentira, avareza, orgulho, inveja, cobiça, e o maior de todos, o medo. Estavam ali, vivos, e cresciam, e diminuíam. Eram grandes, pequenos, infinitos. Senti o medo crescente tomar conta de mim, era cada vez maior. Olhei para trás, a escada havia sumido!

_Oh, não, não tem mais volta! É aqui que tudo acaba, morrerás aqui!

_Mas eu não posso morrer, não é possível!

_Ora, não seja tolo, já está morto. Entende, morto! Não há vida aqui, só escuridão.

_Não! Eu vou encontrar uma saída!

O velho gargalhava freneticamente, repetindo “não tenhas medo da morte, não tenhas”, e de repente ele não estava mais lá. A chuva aumentava, se agarrava em meu corpo, que parecia afundar na lama. O teto se aproximava, mais e mais, o ar era pouco, não podia respirar. Mas de alguma forma eu insistia, não poderia morrer ali, não daquele jeito. No mais distante que podia enxergar, avistei uma porta. Uma única porta, a qual me apeguei. E com extraordinário esforço, fui deixando a lama para trás, abrindo caminho por entre galhos e pedras. Então consegui correr, mas era perseguido, era o medo. Eu sentia um medo abissal, no âmago de meu ser. E era ele que me perseguia, empurrado pelos outros sentimentos, e eu podia senti-los se aproximando, tocando meus pés e rindo de mim. Não tenhas medo da morte, não tenhas, não tenhas medo da morte. Não tenhas.

Eu ria nervosamente, caído de joelhos, tateando o chão em busca de um apoio, mas a densa nuvem me puxava. Subitamente, soltaram-me. E ali eu vi minha única chance de escapar. Freneticamente, me lancei na direção da porta, agora muito mais próxima, e pensava “eu consegui, eu consegui”. Com as mãos na maçaneta, senti uma pontada no peito, e um zumbido muito agudo transtornou meus sentidos. Eu tentava girar, abrir, sair dali, mas a porta estava trancada, e o velho gargalhava, não tenhas medo, não tenhas medo da morte. Eu não consegui. Era a morte puxando pelos pés e mãos, não havia mais nada, só o abismo. Só.

A chuva parou.

Acordei sobressaltado. Me sentia cansado. Fui até o banheiro, me olhei no espelho. Repugnante. Desisti de fazer a barba, fechei as cortinas e voltei para a cama. Senti algo diferente, então puxei o travesseiro.

Tinha uma chave.

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