O Homem mais Poderoso do Mundo


O Homem Mais Poderoso do Mundo

O presidente roía as unhas enquanto olhava fixamente para a paisagem da janela do escritório. A imagem em si era a mais tranquila possível: Um vale rodeado por uma floresta de carvalhos, um rio de águas tranquilas repousando ao pôr do sol. Aparentemente, isso não era suficiente para ele. Em uma fúria repentina, deu um soco na janela, que se quebrou, levando consigo a calma e a tranquilidade do panorama.

Limpando os cacos de vidro da mão, pegou o telefone:

_Monica, preciso de uma nova película.

_Sim senhor.

_Chame um médico também.

_Sim senhor. Eh… sr. Presidente?

_O quê?

_O sr. está bem? Afinal, é a terceira vez só nessa semana que…

O homem respirou fundo. Deu uma olhada na verdadeira aparência do exterior –basicamente, vermelho- e disse:

_Sim. Agora faça seu trabalho.

Nunca pensou que chegaria ao ponto de sentir tédio, e ainda estava na metade de seu mandato de dez anos. Se sentia usado, enganado e sozinho, embora o último censo tivesse apontado um total de 12.036 habitantes no mundo. O mundo em questão, que por séculos fora fascínio dos humanos, era Marte. Há controvérsias sobre o que teria levado nossa espécie a empreender o processo de colonização do Planeta Vermelho. A versão oficial, eternizada pela célebre frase “uma pequena viagem de 5 anos para alguns homens, um gigantesco passo para a humanidade” de autor desconhecido, foi criticada após o depoimento de um bilionário russo que afirmava “estar cansado de pilotar seu iate nos imundos oceanos da Terra”.

Durante cinco anos, nunca havia deixado a Torre Central. Vivia dentro de um quarto intransponível, em uma redoma de 10km de diâmetro. Há uma década que respirava ar artificial. E, o que mais o assustava, só havia percebido isso agora. Bateu duas vezes na mesa de madeira da sala — não era madeira de verdade -, num gesto de decisão, e saiu em direção ao elevador.

Dois seguranças imediatamente começaram a segui-lo.

_Não quero que venham. Preciso sair sozinho.

_Lamento senhor, mas não podemos permitir.

Ficaram se encarando por cerca de dois minutos, tempo em que o presidente examinou cuidadosamente os homens que ali estavam, parados, prontos para dar suas vidas em troco da dele, se preciso fosse. Toda a sua vida. Cada pequena ou grande, insignificante ou categórica decisão que havia tomado, cada um dos grandes feitos que conquistara, as noite em claro, o tempo perdido bajulando pessoas indignas de sequer comer um pedaço de seu cocô, os sapos que engolira, as crises de consciência que o assombraram até que finalmente tivesse se transformado em uma dessas tais pessoas. Ah, sim. Tudo isso em troca do mais precioso dos bens que um ser humano desejaria: O poder.

Era como se andasse em um jardim, observando lá de cima milhões de caramujos lutando para sobreviver, tontos, lerdos e ingênuos. Os caramujos nem se dão conta. Podem ser esmagados a qualquer momento. E, nem assim, se dariam conta — estariam mortos. Mas o presidente decidiu que, ao invés disso, ia deitar-se e rastejar ao lado dos caramujos, sujar seu terno sob medida, seus sapatos sob medida. Decidiu que, dali pra frente era ele quem ia medir sua vida. E olhou para os dois caramujos com cara de otários, espantados:

_Por que fazem isso?

_É nosso trabalho, senhor. Nosso dever.

_Não fazem isso porque querem fazer. Mas sim porque precisam.

_Correto, senhor presidente.

_Ora, mas isto é uma grande mentira.

Agora eram otários de olhos arregalados e de bocas abertas.

_Vocês não precisam disso. Não está em seus genes, seus instintos. Percebam, eu fiquei trancado por cinco anos naquela sala, sem falar, olhar ou me dirigir a vocês. Vocês morreram por isso?

_Eh, não senhor. Não senhor.

_Claro que não. Vocês já estavam mortos. Por cinco anos, o trabalho de vocês foi especular se um homem num terno caro ia sair por aquela porta, para que pudessem segui-lo e, vejam só, protegê-lo. Durante todo esse tempo, eu não dava a mínima por vocês. Nem sequer sabia de suas existências, talvez porque vocês não existissem. Porque decidiram abrir mão de suas vidas, a única coisa que possuíam, e entregá-las a um ser igualmente insignificante, que no caso sou eu. Mas não se sintam mal. Apenas deem meia volta e tentem não parecer transtornados. A partir desse momento eu não sou mais presidente. Agora eu sou o nada que sempre fui.

O presidente percebeu que no fim das contas, sendo águia ou caramujo, não importa. O jardim é infinito, e essa não é uma medida de grandeza, mas sim de tempo. O tempo passa. É isso que ele faz. Ele não liga para o mandatário ou para o trabalhador, a caça ou o caçador, predador e presa. Porque são ambos faces da mesma moeda.

O ex-presidente buscava sua liberdade. Essa sim, a mais valiosa forma de poder. Tem valor imensurável, mas continuamente vê-se pessoas a oferecendo por quase nada, ou até mesmo por dinheiro. A falsa sensação de poder criada em torno dele lhe rendera muitos inimigos. O pior de todos era si próprio. Mas geralmente não podemos ganhar de nós mesmos. Então ele continuou descendo.

Três meses depois

Na Terra, os presidentes de Brasil, Rússia, EUA e China tentavam, em vão, tranquilizar os que os questionavam porque a comunicação com Marte havia cessado, junto com os trilhões de dólares que vinham mensalmente da exploração do silício marciano.

A imprensa divulgava imagens de diversas naves comerciais adentrando na atmosfera terrestre como um enxame de abelhas. Os representantes religiosos decretavam o Apocalipse. Dentro das naves, milhares de pessoas desciam em direção ao imundo e estúpido planeta Terra, não como sombras, mas luzes.

Mal havia desembarcado, o ex-presidente recebeu uma enxurrada de repórteres, ávidos por qualquer suspiro, pedaço de palavra ou imagem daquela personagem.

_Presidente, o senhor colocou a perder o projeto mais ambicioso da raça humana, que tem gerado trilhões em recursos e desenvolvimento econômico. Pode nos dizer por quê?

_Eu só queria sentir o vento no rosto mais uma vez. Vocês deveriam tentar.