O incrível espectáculo

É quase hora, mas ainda é preciso fazer todo o caminho até lá, o caminho é longo, há de demorar. Mas olha só, quanta gente presente! A rua está tomada: Homens, mulheres e até algumas crianças, pois sim, esse espectáculo também é para elas e para mim. Principalmente para mim, ah sim. É a redenção!

Oh amigos, para que essas correntes? Não é necessário, veja, já caminhamos algumas léguas e o palco é logo ali. Eu caminho de boa vontade, mais que isso, caminho alegremente e sorrio ante essa multidão de espectadores. Não há necessidade de correntes. Mas tudo bem, elas dão mais carga dramática ao que se sucederá! Deve ser isso, senhores. Vocês são espertos, sabem fazer um bom drama. É preciso dobrar a esquina aqui, mas veja, ainda falta tanto! Mais umas boas léguas devemos caminhar… Olhe para aquela criança, como está radiante! Olá crianças, venham assistir. Bem aventurados sejam vossos pais por trazerem-nos até aqui, pois o que há de se passar é a essência da vida! Quanta honra em participar desse momento ímpar!

Oh não, uma cusparada. Infelizmente temos também esse tipo de gente, mas diga a eles que também estão convidados para o incrível espectáculo! Quem sabe assim não aprendam a se portar com decência… Oh, eu já sinto, posso sentir. O amor transborda dentro de mim e eu perdoo vocês. Porque somente o perdão infinito salva, tenho dito. Por isso amigos, não tenham medo, não fugirei. Mas ainda falta tanto! Repare quanta demora nesse caminhar. Agora me lembrei do que disse o homem santo! Terás ainda até o último de seus dias a chance de se redimir perante o seu senhor… Sim, pois o caminho é longo!

O homem santo é muito sabido, adivinhou o que aconteceria de antemão. Se me arrependo? Ah sim, arrependo-me. Mas estranhamente, não faria nada diferente… De outro modo não estaria aqui, neste incrível espectáculo. Que seria de toda essa multidão sem o ator principal? Qual lição as crianças tirariam do dia de hoje? Ah sim, pois não se deve brincar todos os dias. O tempo urge e as crianças devem aprender a se tornarem adultos, nada é para sempre.

Ora, já chegamos? Parecia tão longe… Não apressemos o passo, deixe que o tempo resolva. Ah, as correntes puxam. Tudo bem, tudo bem, não machucam. É agora o momento, já alguns gritam na multidão, que bom! Já subo no palco principal, é ali, o banquinho.

Passam a corda fria ao redor do pescoço. A multidão enraivecida grita injúrias e atira objetos, alguns rasgam a carne. Já se pode ver o sangue pingando. A corda é apertada, esbugalham-se os olhos e a língua fica meio para fora. É colocado um saco, um pedaço ordinário de pano, por sobre a cabeça. Ouve-se o baque surdo de alguém chutando o banquinho. Os pezinhos buscam inutilmente encontrar um pedaço de chão, mas só há o vazio. A garganta e o nariz ardem, queimam como um amargo de fel. E os olhos também, parecem sair de órbita. Os dentes cerrados arrancam um pedaço da língua que pendia para fora e o sangue suja o pano, mas ninguém vê. A multidão delirante urra de contentamento, o incrível espectáculo é um sucesso. Os pezinhos param de se mexer. Ao longe, o homem santo faz um sinal com as mãos e agradece, o incrível espectáculo é um sucesso.

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