Quem conta um conto
Não havia viva’lma na cidade de Casca Preta que não conhecesse o Zé Capita. Ele era uma dessas pessoas que vira folclore, entra pra história e pro imaginário popular, vive pra sempre. Depois que se aposentou do negócio da carpintaria, foi uma comoção geral e o povo demandou que ele virasse prefeito, posto que ele fosse gente de bem e tinha que dar um jeito na sociedade casca pretense, mas ele recuava e recusava. “Não sou político”, ele dizia — e não era mesmo — mas esse era o principal motivo pra todos o quererem na prefeitura. O que o Zé fazia de melhor era contar histórias.
Um dia era aniversário dele, a família e os muitos amigos todos reunidos à mesa, todos esperando a próxima peripécia dos seus tempos de menino, ou uma dança com as damas da sua mocidade. Mas uma pessoa não parecia muito interessada. Esparramada no sofá, com os pensamentos em outra dimensão, a pequena Carol lia avidamente um livro de capa vermelha. O Capita achou graça da neta, e foi sentar-se ao seu lado.
_Posso?
_Ah, oi? Sentar, pode ué.
_Não quer ouvir a história que o vovô vai contar?
A menina franziu a testa, escolhendo as palavras. Não sabendo o que dizer, soltou um suspiro longo e fechou o livro.
_Tá bom…
O avô notou que a pequena murchara, e impediu que ela se levantasse.
_Espera. O que você está lendo? É bom?
Os olhos dela brilharam e um sorriso largo apareceu.
_É o Sherlock Holmes! — Desviou os olhos para o chão e, coçando a cabeça, continuou — Eu não entendo direito as coisas que estão acontecendo, eu acho. Eu só gosto de imaginar as casas, as carruagens, as moças com os vestidos grandes, as ruas, tudo…! Quando crescer, eu vou ser escritora. Gosto muito mais dos livros que das bonecas.
_Hahaha! Que bom, Carol. Vou deixar você aqui lendo. Não precisa ir lá pra mesa, não. Quer saber? Antes, vem aqui fora comigo. Vou te contar um segredo.
E saíram os dois para a varanda na frente da casa. A paisagem lá fora contrastava com a cabeça da menina. Enquanto a ansiedade fervilhava e as possibilidades eram infinitas para Carol, no campo nada de novo. O mesmo sacolejar das árvores ao vento, o mesmo vento soprando do sul. Uma nuvem ou outra anunciava preguiçosamente ameaça de chuva.
_As histórias que eu conto pras pessoas, Carol.
_O que tem elas, vô?
_Elas são, bem… São todas mentiras. — O velho parecia muito mais velho agora. Com o olhar fito no vazio, a expressão séria fez as rugas reaparecem por detrás do semblante antes sempre alegre e sereno.
_Hahahaha! Eu já sabia, vô!
_Quê?! Mas como você pode saber uma coisa dessas? Eu nunca contei isso pra ninguém! — E agora o tom desconcertado e curioso assumiu as feições do homem.
_Como que você podia ter feito aquele tanto de coisa? Só se tivesse uns 200 anos de vida. E hoje é seu aniversário de 70!
_Aham. Espertinha, hahaha… Sabe, eu também sempre quis ser um escritor. Desde que meu pai, seu bisavô, me ensinou a ler e escrever eu fiquei encantado com aquele mundo. Mas morando na roça com 12 irmãos mais novos, não é coisa que um menino possa pensar, é o que dizia minha mãe. Mas mesmo assim, eu pensava. E cheguei mesmo a escrever algumas coisas. Acho que foi por isso que acabei virando contador de histórias. Ninguém na roça ia saber ler mesmo! — Soltou uma risada consternada.
_Que legal, vô! Depois me mostra as coisas!
_Ah, não… Já devo ter jogado todo aquele lixo fora.
_Aposto que eram muito legais. Queria ler! — De novo o brilho nos olhos. E o velho lembrou de si mesmo. Assustou-se um pouco com a passagem do tempo. As mãos já tinham a pele fina, os cabelos eram brancos e escassos. Só lhe restavam as histórias. Eram tudo o que lhe restara. E mesmo essas, eram mentiras que só ele sabia. Ele e Carol, agora.
_Nunca deixe ninguém dizer que você não pode ser escritora. Se é isso que você quer, então seja. — Estendeu o dedo mindinho para a neta, que fez o mesmo, selando o pacto.
_Posso voltar pra sala, vô? Tá frio aqui.
Zé fez que sim com a cabeça, sorrindo. E ali ficou. As nuvens pareciam menos preguiçosas agora e o céu começava a ficar cinza. Os pássaros voavam velozmente, e o velho por um instante desejou ser pássaro. Os pássaros, lá do alto, só podem julgar. Nunca são julgados. Apenas somem no ar, tornam-se ar.
O tráfego parado na cidade de São Paulo é barulhento. E isso Carol sentia na pele no banco da condução. Ia perder a entrevista, não tinha mais jeito. Sentia ódio, de tudo e de todos, e das buzinas, malditas buzinas incessantes e estúpidas. Quando já calculava uma hora de atraso, desceu do ônibus. Ainda pegou chuva no caminho de casa, e ao chegar apenas se jogou no sofá e mordeu uma almofada. No celular umas 300 mensagens não lidas e o e-mail já não abria há tempos. Dedicara-se por uma semana inteira para a entrevista. Não por entusiasmo, mas por necessidade. Não era o emprego dos sonhos, era apenas o sonho de ter um emprego, levado pela chuva.
Fechou os olhos e respirou fundo. Afinal de contas, por que queria aquele trabalho? Desde que entrara na faculdade de jornalismo tinha imaginado várias situações, mas nenhuma envolvia um tabloide de fofocas. Não era pra isso que ela tinha estudado, isso era certo. De certa forma, agora sentia-se bem por ter perdido a oportunidade. Os olhos agora abertos encontraram o calendário na mesa. O aniversário do seu avô. Lembrou-se daquele dia, e percebeu que já 20 anos haviam passado. Estaria ele orgulhoso? Imaginou. Não era religiosa, mas mantinha uma certa espiritualidade, que a ajudava a entender o mundo. A figura do avô era sempre uma memória presente.
Em que parte do caminho ela havia se desviado? Talvez ao perceber a dificuldade em se tornar escritora no Brasil. Preferiu o jornalismo à letras. Mas depois percebeu. Não queria escrever como um instrumento. Queria escrever como finalidade. Tarde demais. Aos 30 anos, ela não enxergava muito espaço para mudança.
Mas a lembrança lhe trouxe uma ideia. Uma mudança de ares poderia ser bem vinda, então fez as malas e tirou o carro da garagem. Já há tanto tempo não ia a Casca Preta, e as 7 horas da viagem seriam uma boa maneira de pensar. E além do mais, poderia encontrar algo bom. A curiosidade já começava a fazer valer a pena.
Qual não foi a surpresa da Dona Marília ao abrir a porta e ver Carol do outro lado! No auge dos seus 85 anos, a senhora morava sozinha na mesma casa grande da família e não via a neta por o que ela calculou uns 5 anos. Elas trocaram abraços e as primeiras impressões e depois Dona Marília foi logo dizendo:
_Você acaba de salvar o meu dia. Ano após ano no aniversário do seu avô eu fico meio tristonha… Começo a lembrar daquele cortejo cheio de pompa e toda aquele gente em procissão pro meu Zé. E eu aqui nesse casaréu sozinha, feito andorinha que perdeu do bando. Mas o que te traz aqui?
_Ah, vó. O tempo, a saudade. Os problemas. Mas deixa isso pra lá, o importante é que, se a senhora me permite, queria passar uns dias por aqui. A vida naquela imensidão cansa a gente. É bom estar de volta.
Conversaram mais um pouco antes de dormir, e Carol fez questão de deitar no sofá da sala, apesar das milhares de objeções da avó. Ela pensou em voltar no tempo, recordar os dias de menina, mas caiu logo no sono.
Ao amanhecer, Carol foi acordada pelo cantar dos galos da casa. Achou engraçado ao pensar na possibilidade de algo assim acontecer em São Paulo. Dona Marília serviu o café na mesa, e a moça reparou num quadro do avô na parede da cozinha, o que a fez lembrar do porquê de estar ali.
_Vó, você ainda tem as coisas do vô guardadas aqui?
_Está tudo no quarto, no guarda-roupas. Está tudo lá. Por quê?
_Posso ver? — E já foi andando em direção ao lugar.
_Pode sim, só toma cuidado que aquilo lá está dando cupim. Faz uns 10 anos que eu não mexo…
Abriu a porta da esquerda. Roupas, sapatos, não. Do outro lado, algumas fotos, umas muito antigas e castigadas pelo tempo. Outras em que ela aparecia e trazia um sentimento de nostalgia. Revirou tudo e não estavam lá. Subiu numa cadeira e olhou a parte de cima. Um espirro quase a derrubou, mas avistou ao fundo uma caixa. Era uma caixa de madeira rústica. Desceu, abriu a tampa e começou a escarafunchar.
Lá estava. Dúzias, centenas de folhas amareladas, manchadas e furadas por traças. Mas nem toda poeira do mundo foi capaz de apagar as palavras ali escritas. Nem um milhão de buracos foi capaz de transformá-las em lixo. Uma passada de olhos revelou um jovem matador de dragões, um herói que ao invés de capa tinha bigode e chapéu. Tinha mais, muito mais. E tinha uma folha nova. Uma folha que as traças ainda não haviam encontrado. Mas Carol o fez.
Este é meu último ato. Quando e se alguém ler isto, provavelmente serei um homem morto. Não sinta pena de mim por isso, a morte há muito deixou de ser um mistério para mim, e pena é um sentimento inútil. Agora fico pensando nas coisas que não fiz da vida. Por que somos assim? Sempre buscando, procurando o que fazer. Como se tudo o que fizemos não fosse o suficiente. E há também o arrependimento. Talvez eu devesse ter parado de fumar. Ou trabalhado menos e aproveitado mais. Aproveitado o quê? O tempo. Ao final, é só o que interessa. O tempo é tudo, e nada. Ele não existe. É como uma goteira pingando na nossa cabeça sem parar. Mudam as cabeças, a goteira continua. E se alguém pudesse colocar um balde? Beberia da água e voltaria 10 anos ao passado, mas isso seria um erro. Seria um erro não repetir igualmente todos os erros do passado.
Tenho uma confissão a fazer. Minha vida é uma mentira. Uma mentira das grandes. Ou não, talvez não faça sentido falar em grandeza num universo infinito. O que pode ser grande o bastante? Queria ter tido a coragem de mudar o rumo das coisas. Mudar o rumo da vida. Minha vida foi como um trem. Mas antes queria ter sido barco. Inúmeras vezes senti a mudança na direção dos ventos, mas o trilho me prendia. Uma locomotiva não pode ir para os lados, apenas para frente. Mas as vidraças — desgraça — dão para o mundo lateral. Agora cheguei à estação final. Estou muito fraco para continuar, o que vem a frente já não me interessa mais.
E se não fiz o que deveria ter feito, que me importa agora? Eu fiz o que os outros esperavam que eu fizesse. Nós não somos nós. Cada um encerra um mundo em si mesmo, e em muitos mundos nem mesmo existimos. Mundos do passado, mundos do futuro. Algumas coisas ficam, mas não estaremos lá para ver. Não existe orgulho após a morte. Não existe. Tudo é passageiro. Só que umas coisas passam rápido, outras nem tanto. Mas que adianta falar em velocidade se só há o instante?
Sou grato por ter tido a chance. Por ter sido amado e por amar. Por saber como é aprender, por ter vencido e perdido. Com essa carta, não quero reconhecimento. Tenho o meu próprio, e ele basta. Os outros não são melhores ou piores que eu. São apenas diferentes. Por que eu ia querer impressioná-los? Não se sobe numa árvore para impressionar os macacos, mas para provar a si mesmo que é possível. Quanto a isso, estou tranquilo. E odeio macacos, de qualquer forma.
A você que lê isso, talvez soe como um monte de palavras vazias de um moribundo com câncer. Talvez faça sentido. Eu, sinceramente, não me importo nem um pouco. Estou morrendo. Serei esquecido, lembrado, odiado. O que me importa é que consegui realizar meu sonho. Me tornei escritor. E dos bons.
Carol ergueu o dedo mindinho. O maldito do velho cumpriu a promessa antes dela.