O romance de costura de Léo Mackellene

09/07/2017

Por Lorenzo K.*

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“Vamo-nos construindo com pedaços das coisas, das pessoas que a gente vem encontrando pelo caminho (…). E, como uma gota de óleo atrai outra gota de óleo na superfície da água, na superfície da terra gente vem atraindo gente, espalhados nessas coisas e pessoas que a gente encontra pelo caminho, atraindo, atraindo, atraindo até que a gente se completa.”
“Aprendi, por fim, que chorar é romper a casca e renascer; que o choro é a marca que o tempo tem pra nos dizer que algo vai mudar. A lágrima é sempre o mais secreto brinquedo do tempo. A saudade é o tempo doendo.”
Trechos de Como gota de óleo na superfície da água (Editora Radiadora, 2017)
Léo Mackellene (Foto de Alex Costa)

Logo que cheguei ao Theatro São João, em Sobral, para o pocket show de lançamento de Como gota de óleo na superfície da água, primeiro romance de Léo Mackellene, percebi que se tratava de um trabalho diferente. Fugindo ao formato usual de lançamentos, Léo, sentado em círculo com amigos no chão do palco, contava e cantava histórias sobre o processo de elaboração do livro.

Antes do prefácio, assinado pela cantora cearense Laya Lopes¹, Léo faz uma advertência fundamental: “Este é um livro pra ser lido em voz alta, se possível a dois (…), um livro que procura aproximar-se da literatura em seu estado original de canto, recosturando os indivíduos uns nos outros”.

Nesse sentido, os primeiros indícios de recostura dão-se a partir das inúmeras referências pinçadas de livros, músicas e filmes, que acompanharão o leitor até a última página do romance. De frases de efeito a alusões na escolha de trilhas sonoras e nomes dos personagens, Mackellene imprime no livro uma correferencialidade² para a qual as atuais vanguardas caminham.

No entanto, é evidente que a dita recostura não se limita apenas às referências, sendo aplicada ao livro como um todo. Ainda que subjetivamente, outro exemplo ocorre na fragmentação do livro em quatro focos narrativos: o triângulo amoroso Júlio, Leila e Madalena e um narrador heterodiegético. E, embora Madalena narre menos, Léo tece com maestria as percepções dos personagens e o modo como seus caminhos se cruzam. Vinícius de Moraes poderia descrever as nuances do triângulo na máxima “A vida é a arte do encontro”. No entanto, Arnaldo Baptista seria mais categórico: “Ficamos até mesmo todos juntos, reunidos numa pessoa só”.

Servem de cenário para a trama as cidades de Pracabá, Promessa e Medida do Bonfim, desenhadas por Mackellene à luz da realidade cearense — embora o Ceará sequer seja citado na obra. O leitor notará precisão também na narração dos causos e cacoetes interioranos, sendo mergulhado muitas vezes em digressões secundárias — algumas distantes do foco, mas sempre recosturando a narrativa.

Assim, em meio a impressões e aforismos dos personagens que se confundem com os do próprio escritor, Como gota de óleo na superfície da água expõe profundamente nossas dificuldades de amar. E, mesmo que haja um gradual amadurecimento dos personagens, o livro nos instiga a refletir sobre o que é o amor livre.

Apoiando-se nas palavras de Carlos Haroldo Vasconcelos³, Como gota de óleo na superfície da água é um romance de geração. Pelas referências, pela linguagem despudorada, pelos rios que se encontram e desencontram, mas sobretudo pela nossa modernidade tão líquida, cada vez mais na iminência de ebulir. Diante disso, só nos resta uma certeza: é preciso inventar de novo o amor. Romper a casca e renascer.

[1] Laya Lopes, cantora e compositora cearense, lançou o primeiro álbum solo Laya em 2016.

[2] “Como se faz um movimento? Com correferencialidade. O primeiro passo é a gente se ouvir, se ler, ir visitar a exposição um do outro, o show um do outro, assistir, participar… comentar o trabalho um do outro, chamar pra fazer parcerias.” (Léo Mackellene, em 30 de maio de 2017).

[3] Carlos Haroldo Vasconcelos é poeta, letrista e ativista cultural.

* Lorenzo K. é arquiteto, poeta, ativista cultural e, ocasionalmente, músico.