Resenha: “Beijo Estranho”, Vanguart

29/04/2017

Por Lorenzo K. *

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Beijo Estranho (2017, Deckdisc/Estúdio Tambor)

Gênero: Indie, Indie Rock, Folk

38 minutos

Capa de Beijo Estranho (2017), pelo artista chileno Juan Pablo Mapeto
Divulgação

Com algumas canções remetendo à fase mais rebelde da banda, as 11 faixas de Beijo Estranho apresentam melodias e arranjos bem trabalhados, destacando-se o violino de Fernanda Kostchak e a performance de Julio Nganga, da formação original do Vanguart, que assume piano, cravo e órgão hammond como músico convidado. Não são menores os elogios às guitarras de David Dafré e ao arranjo de Homem-Deus, garbosamente engendrado pelo maestro Wagner Tiso.

Rompendo com a temática de Muito Mais Que o Amor, Flanders abre Beijo Estranho avisando: “Hoje eu vivo em mim”. É necessário ressaltar que, apesar da decepção com as rasas e melosas letras do disco antecessor, o frontman do Vanguart sempre foi um grande letrista. Seja em Vanguart (2007), em Boa Parte de Mim Vai Embora (2011) ou em seu disco-solo de 2015, as letras de Hélio sempre vêm carregadas de feeling.

Se Boa Parte de Mim Vai Embora era um soco no estômago da existência, Beijo Estranho parece tratar da maturidade, da sobriedade, do sossego. É evidente que as canções do Vanguart ainda muito falam sobre o amor (“O teu amor me pôs de pé”). No entanto, este é um álbum composto por quem tem os pés no chão. Se Santo Agostinho considerava que a medida do amor é amar sem medida, o Vanguart de 2017 pondera: “O amor é mais simples do que amar”. Ou ainda: “Um dia isso volta a doer”.

Os versos discorrendo sobre existencialismo (“A alma é vazia / Sem corpo / A espera é cruel”) e religião (“Quem manda no tempo é o céu / Quem manda no céu é Deus / Quem manda em Deus é o homem / Homem-Deus”), somados à melodia intimista, revelam a delicadeza da banda neste trabalho. Uma das músicas mais criativas, Pancada Dura, faz jus ao nome com uma letra áspera e melodia forte (Fernanda Kostchak novamente brilhando), sem abandonar de todo a pegada rebelde outrora ostentada pela banda. Com menos candidatas a hits de novela que o disco anterior, temos desta vez canções mais trabalhadas. Ora na serenidade de Casa Vazia, a predileta de Hélio Flanders, ora na faixa-título do disco, com um fantástico arranjo de cordas.

Sobre ombros de gigantes como Walt Whitman, Dorival Caymmi e Cida Moreira, o Vanguart tem enxergado longe. Não se sabe qual será a temática do próximo disco. Todavia, uma coisa é certa: o Vanguart de 2017 conseguiu, como nunca, ser muito mais que o amor. Longe dos lugares-comuns, reafirma-se uma banda engenhosa e cada vez mais disposta a se reinventar.

* Lorenzo K. é poeta, produtor cultural e, ocasionalmente, músico.

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