De quantos Eduardos Cunhas o Brasil é feito?

O homem que se colocou ao centro da política nacional no biênio 2015–2016 demorou onze anos para ser conhecido pela população brasileira. Foi eleito para a Câmara dos Deputados pela primeira vez em 2003, antes disso ocupou cargos públicos na Telerj, Cehab e a suplência na Assembleia Legislativa fluminense. Também teve passagem discreta na liderança do PMDB em 2013.
Mas em 1º de fevereiro de 2015, o jogo virou para Eduardo Cunha. Foi eleito em primeiro turno presidente da Câmara dos deputados. Como conquista pessoal, além da presidência, gerou a primeira instabilidade na relação PT-PMDB, que culminou, tempo depois, na destituição da presidente Dilma Rousseff.

Após 19 meses, dezenas de manobras e centenas de aliados a menos, Cunha foi cassado por ampla maioria no plenário da Câmara. Mesmo ambiente que assistiu seus mandos e desmandos durante o período. Seu crime: ter mentido no Conselho de Ética. Mínimo perto das denúncias enviadas pela Procuradoria Geral da União.
Esse é o ponto: quantos Eduardos Cunhas o Congresso esconde?
O pemedebista usufrui dos cargos públicos desde a época da Telerj, em 1991, para fazer lobby com empresas. Recebeu propina de diversos setores empresariais, atuou nos bastidores e fez fortuna. Seu pecado mortal? A ânsia do poder.
E se Cunha não fosse eleito presidente da Câmara? Ou conseguisse mais flexibilidade na relação com o governo? E se ele não tivesse sido o centro do segundo impeachment da história democrática brasileira? Os crimes do ex-deputado teriam sido descobertos?
Cunha utiliza a máquina pública há mais de 25 anos em benefício próprio, mas só foi notado pela PGR nos últimos dois, quando sua atuação política chegou ao tamanho dos escândalos em que estava envolvido.
Na sombra do anonimato, quantos dos 513 deputados também não estão recebendo propina? Se eles conseguirem minimizar sua ganância, terão seus crimes descobertos?
O site Congresso em Foco noticiou que, na sessão do Impeachment, 150 deles eram investigados por crimes que iam de corrupção à lavagem de dinheiro.
Cunha foi um dos pontos mais antiéticos da política nacional recente. Porém, aparentemente, está mais para regra e menos para exceção. Sua história pode estar sendo reescrita diariamente em Brasília, dezenas de vezes. Mas ainda é um ponto cego nas investigações, que tendem a se nortear pelos grandes nomes.