Mulheres eu beijo no rosto, homens eu aperto a mão.
O provável sexismo na forma que nos cumprimentamos no Brasil

Aquela cena clássica que sempre acontece quando nos encontramos com amigos de amigos ou em reuniões de trabalho: homens tendem a na grande maioria das vezes cumprimentar com um aperto de mão firme. Já quando homens cumprimentam mulheres, ou mesmo quando elas se cumprimentam, as chances de acontecer o beijo no rosto, ou até o aperto de mãos seguido de beijo no rosto é alta. Não sei se existem justificativas socio culturais ou históricas que justificam tal hábitos, mas independentemente disso, eu sempre enxerguei esse diferenciação como uma clara demonstração de sexismo.
A forma que nos cumprimentamos varia de país por país. Enquanto na América do Sul grande parte das pessoas cumprimentam usando beijos no rosto, em outros países, como no Reino Unido, os cumprimentos são quase sempre restritos apenas ao aperto de mãos, independentemente dos sexos. Já no Afeganistão, os homens tendem a se cumprimentar com até oito beijos no rosto. No Japão, qualquer contato físico é evitado, a forma mais educada de se cumprimentar é se curvando em frente à outra pessoa – quanto mais curvado seu corpo está, mais respeito em relação ao outro.
Não só por estarmos passando por uma nova, e necessária, revolução feminista, mas também por um estranhamento pessoal que sempre tive, acho que talvez poderíamos repensar um pouco esse hábito. Fazendo parte da comunidade LGBTQI+, e também por ter vários amigos homens que são hétero, porém nada machistas, é super comum nos cumprimentarmos com beijos no rosto. Aí não tem diferença, seja homem com homem, mulher com mulher, o cumprimento é o mesmo, não existe diferenciação.
Provavelmente existem vários estudos e teses de doutorado que percorrem esse tema, mas fazendo uma pequena análise, eu entendo que o ato de cumprimentar um homem com a mão sela o “acordo de cavalheiros” entre o sexo que sempre “dominou” e decidiu os caminhos de nossa sociedade. Já as mulheres que sempre “precisavam ser cortejadas” recebem beijos no rosto. E assim fomos seguindo, e assim essa diferença foi se enraizando no Brasil e em outros países onde o hábito é o mesmo.
Será que não podíamos escolher só um caminho e todo mundo fazer o mesmo? Eu, particularmente, estando dentro do contexto do Brasil sou a favor de seguirmos rumo ao beijo no rosto, principalmente aquele que é seguido de um leve abraço. O leve contato físico entre duas pessoas gera uma conexão mais humana, menos seca do que uma mão que chacoalha a outra. Mas enquanto essa realidade não muda eu criei uma técnica para pelo menos equilibrar essa “desigualdade” de cumprimentos: dentro de uma situação onde vou cumprimentar indivíduos que ainda não conheço, sejam amigos de amigos ou profissionais no ambiente de trabalho.
A regra do primeiro cumprimento que dita a regra
Quando conheço amigos ou amigas de alguém que conheço eu tento definir o cumprimento “oficial” como beijo no rosto seguido de abraço. A primeira pessoa, seja homem ou mulher, que eu cumprimento recebe um beijo no rosto. Sigo então replicando esse gesto para os demais. Quando a primeira pessoa é um homem, sempre surge aquele pequeno desconforto da mão automática que vem apertar a sua e fica perdida quando ela entende que ou aquele aperto de mão será anulado, ou que ele precisará evoluir para um beijo no rosto com altas chances de abraço emendado.
Já em ocasiões de trabalho, onde a etiqueta “pede mais seriedade”, deixo o grupo definir a regra. Se a primeira pessoa do grupo me cumprimentar com um aperto de mão e for homem, eu tento induzir todas as mulheres a me cumprimentarem também com aperto de mão. E como a linguagem não verbal da conta disso fácil, essa inversão tende a fluir perfeitamente. Uma mão estendida bloqueia qualquer beijo no rosto possível.
Entre estranhamentos, e cumprimentos que falham, essa é a experiência que tenho praticado, e já começo colher frutos. Alguns homens que encontro com frequência já se acostumaram com o cumprimentos mais caloroso, e já começaram até a iniciarem o rito do beijo no rosto seguido de abraço. Já a quantidade de apertos de mão tem caído exponencialmente. Enfim, independentemente de qual seja a forma de cumprimentarmos as pessoas ao nosso redor, eu sinto essa necessidade de saudar qualquer pessoa, seja ela homem ou mulher, da mesma forma. =)
