Ás margens do Mississípi.

Perto da minha casa há um mercadinho, logo após uma praça. Como fica depois de uma praça, é necessário dar a volta nela para ir fazer as compras de bicicleta. O biciclo não é fundamental para chegar lá, é muito perto, acelera muito pouco o processo, mas eu gosto de andar nela.

Numa dessas voltas na praça resolvi passar por uma ruazinha que me levaria direto ao mercadinho. Quase sempre passava por essa rua. Até que um dia ao passar por ela de tarde, indo comprar pão, presunto e queijo como costumeiro, ouvi um maravilhoso som vindo de uma casa. Era o canto de um piano, o instrumento que sempre me fascinou. Dei a volta. Subi e desci a rua umas 4 vezes.

Comprei pão.

Na volta repeti o processo. Maravilhado pela canção, não queria nunca parar de passar ali.

Comecei a sempre passar naquela rua. Na esperança de ouvir minha amada tocar.

Minha amada invisível, sem rosto.

Nunca a vi.

E nem quero.

Na minha imaginação ela é uma linda menina. Entre seus 15 e 17 anos. Usa longos vestidos de cores claras, como se viesse de dois ou três séculos atrás. Sempre praticando em seu Steinway. Seu pai rígido é claro, evitava que ela saísse de casa. Eu então a visitaria na calada da noite, jogaria pedrinhas em seu vidro, e a convidaria para vir comigo ao parque jogar pedrinhas no lago. Ela hesitaria, diria que seu pai descobriria, que ficaria em maus lençóis, mas logo cederia. Iríamos ao parque. Daríamos as mãos.

Nunca o fiz.

Passava pela rua sorrindo. Maravilhado. Ouvindo. Escutando.

Passava rápido, tentando demonstrar destreza em meu corcel de alumínio. Mesmo sabendo que não era visto, eu queria ser.

Queria dar cambalhotas, me exibir, tentar chamar sua atenção.

Eu era seu Tom Sawyer.

Ela, minha Becky Thatcher.

Escrevi isto sentado na calçada. Ouvindo ela tocar.