Sobre imortalização nas paredes

De que forma tuas paredes escritas te imortalizam?

Olga morreu lá dentro. Doze meses antes de sua morte, ela era uma menina alegre e cheia de vida, pronta para produzir, se envolver e deixar sua marca. Ela realmente deixou. Duas semanas antes de sua morte, sua energia já não era brilhante e chamativa — foi substituída por uma aura sem desejo de continuar e sem objetivos. Olga chamava muita atenção, e sua morte não foi diferente. Ela morreu lá dentro, e lá dentro ela ficou. Sua alma, suas paixões rasgadas, suas músicas dançadas, seus textos escritos — tudo ficou lá dentro.

Passam-se meses. Outras Olgas chegam e vivem, dançam, transam, bebem, fumam e se divertem. Suas almas são taxadas às paredes de tal forma — nomes e frases estão lá, mas significam que agora fazem parte das paredes, e não mais da essência humana que os escreveu. Essas novas Olgas também morrem.

Mas que fique claro: morrer aqui não significa partir para uma próxima, sumir do mundo e ser enterrado, continuar na memória — ou talvez signifique. De qualquer modo, as Olgas que entram lá e morrem lá continuam vivas, com seus âmagos alterados em níveis diferentes que variam de Olga para Olga. Sua experiência nunca é a mesma de outra Olga, viu?

Você que entra, você que sai. Você que abre, você que fecha. Você que escreve suas reclamações, você que reclama suas escritas. Você que chora, você que sorri. Você também é uma Olga, porque todos estamos vulneráveis, todos estamos à mercê de paredes que te engolem, te machucam com prazer, te entorpecem e te questionam.

Há olhares, há comentários. Você os percebe, os internaliza mas não sabe realmente o que fazer a partir daí. Então você continua, como se houvesse tomado um anestésico corpo-e-mente.

Olhe ao redor, Olga. Onde você está? Esse local é certo pra ti? Por que ele não é o que deveria ser? Tem algo de errado com as paredes. Tem algo de errado com as pessoas. Essa caixa tá guardando espíritos demais, e você consegue senti-los, tateá-los, sofrer com eles.