O que pensa que eu sou se não sou o que pensou?

Refletindo uma letra de Djavu num meme da Nicki Minaj

Toda vez que esse meme da Nicki Minaj passa pela minha timeline, eu faço questão de curtir. É genial e me faz sempre pensar como é bom brasileiro na internet (como não amar a reflexiva em cima da montanha?). Com a letra de Djavu, então, é melhor ainda; a banda tecnobrega é paixão antiga. E de tanto que passa em meu feed, esse meme em especial me rendeu um bom papo com o amigo que mora comigo, enquanto eu calçava o sapato no meu quarto e ele respondia lá do chuveiro com a porta do banheiro aberta. Afinal, o que pensa que eu sou se no sou o que pensou?

Talvez a repetição da frase possa parecer confusa, mas se pararmos para refletir como a Nicki Minaj, o verso da música não só faz sentido como reflete uma angústia real de muitos relacionamentos: a idealização. Quando conhecemos alguém, principalmente hoje através da internet, de imediato criamos um perfil e listamos características que essa pessoa aparenta ser e ter. Quando o encontro é físico, podemos dizer que é a tal da primeira impressão. Mas o fato é que quando nos interessamos por alguém, o primeiro passo é imaginar e idealizar. E ouso dizer que, enquanto um aprofundamento não ocorre — como quando namoramos a pessoa de longe, apenas na nossa cabeça — , é por essa idealização que nos apaixonamos.

Mas o idealizar não é problema. Afinal, como viver sem imaginar, planejar e consequentemente criar nossas expectativas? O inconveniente está quando esse interesse ou contato passa para a prática, e nela a idealização se desfaz. É na prática cotidiana que o relacionamento se dá, mas não é dela a idealização; como sugere o próprio termo, é no campo das ideias. E idealizar, sonhar, imaginar… o que for, é bom! Mas enxergar a pessoa com a qual partilhamos uma afetividade real (e não ideal) a partir do que as experiências reais nos propõem a considerar e caracterizar, e não com base no que nossos sonhos e idealizações inicialmente previam, pode ser melhor ainda.

Voltando pra música: quando a vocalista pergunta “o que pensa que eu sou se não sou o que pensou?”, fala justamente desse conhecimento prático pós-idealização. “Agora que já me conheceu, e viu que não sou exatamente o que você ficou idealizando na sua cabeça, como me vê?”, ela poderia dizer. E é isso que nós (me incluo), que tendemos a idealizar demais por também querer demais, temos que ter em mente. As pessoas podem suprir nossas expectativas, como também podem assim não fazer. E na maioria das vezes elas não serão o que nossas idealizações previam. E esse não suprir pode ser tão bom quanto o devaneio, simplesmente por ser uma experiência real, uma experiência de troca, de dois, de atrito e movimento, e não um sonho individual e mimado pelo outro não ser o que nossa frustração imaginou.

Se apaixonar pela idealização é se apaixonar sozinho. Justificar os atos do outro (que podem vir a não coincidir com a sua sentimentalidade) com base numa personalidade idealizada, é não querer ver a pessoa como ela é, com suas qualidades assim como defeitos. Não é errado ter medo de que a pessoa não seja o que você tanto pensou, mas é maravilhoso quando você se permite descobrir que ela é mais do que você pensou; ou até menos do que a enorme idealização, e nesse caso você se liberta pra outra ou percebe que esse menos é somente um diferente mas igualmente encantador.

É na inconstância da descoberta que a afetividade floresce, que o perfil se traça e a compatibilidade acontece. E não compatibilidade monótona, perfeita, previsível como nos filmes de romance do príncipe encantado ideal; mas, principalmente, compatibilidade fruto de diárias per-mi-ti-das surpresas.