Porque sozinho não se vive

Um confuso vômito sobre cobranças por uma vida estável


Nós vivemos em comunidade. Vimemos uns para os outros. Seja para sua família, seu parceiro, seus filhos ou aquele grupos de amigos. Seja para o vizinho que você cumprimenta caso viva sozinho. Vivemos em prol do outro, e a partir do que do outro recebemos. Trabalhamos para oferecer algo ao próximo, e consumimos o que dele vem. Se acumulamos, assim o fazemos para partilhar com alguém, ou deixar para o próximo. Para nós mesmo, não há nada. Há sim também o que vem do outro. A companhia do amigo, companheirismo do marido ou o retorno do cumprimento ao vizinho. Sozinho numa sala, a felicidade vem da música que outro fez, da comida encomendada que outro preparou ou do filme que o outro também produziu. Sozinho não se vive.

Não existe a solidão autossuficiente. Não existe o acúmulo para si. A coleta solitária de vivências, experiências ou correspondências. Não existe a herança do eu. Não existe a conquista quando se comemora só. Não existe apartamento quando se ouve o eco. Não existe a casa própria de um dono só. Não há caminho para seguir, carreira a construir, lugares ou riquezas. Não há pra onde ir se para onde retorna não houver ninguém. Mais uma vez, família, parceiro, filhos, ou aquele grupo de amigos. Nem mais o vizinho que você cumprimenta caso viva sozinho, porque sozinho não se vive.

De nada serve o estável e o esforço para essa mesma estabilidade e toda a sua sacralidade se às três e vinte da manhã se dorme sozinho. Mesmo que haja riso. Mesmo que haja casa. Mesmo que haja emprego, roteiro e uma boa capa. Mesmo que faça uma boa foto e cumpra todos os requisitos da tal felicidade. Abra a lista: check check check. De nada serve. De nada serve se sob toda autossuficiência requisitada está a dúvida do não tentar, o arrependimento do ficar ou a eterna vontade de voar. Não voar só, voar com outro, voar pro outro. Porque sozinho não se vive.

E quando se pensa no dois, vem o estável já estagnado num tédio eterno afável. Blé. “Os tempos são outros”, diriam alguns. Entusiastas. Mas é na modernidade do progresso e do conquiste onde se encontra grande parte do estável a todo custo, já estagnado no tédio do terno. Ou do seguro. E na intocada realidade essa sim idealizada da checklist completada é que o um mais um quebra o estável, atrasa a certeza, complica o trajeto até o topo que ninguém viu. Quando se uniam, buscou-se quebrar. É preciso independência! Quando tão só realizaria, correr pro outro é ousadia. É preciso certeza! Mas a certeza é de que sozinho não se vive.

Não preocupe-se em conquistar, quando apenas quer conhecer primeiro o partilhar. Não tenha medo em tentar, mesmo que a cobrança seja para ancorar. Não pare até saber como é e o que já foi. Não há futuro se o agora não for de liberdade. Não há nome, cargo, salário, bens, função ou o melhor carro se a si está vazio. Não importa nada se através do embaçado do nome, cargo, salário estiver o outro, tão no temido incerto. Vá! Faça do incerto o certo. Não existe incerto, existe medo. Nem o tal do certo; é tentativa. E não é simples, eu compreendo, mas sem o ombro já não há vida. Por que?

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ps: rasgue o mapa. viva.