Um pagão e Marina Silva
Muitas pessoas me perguntam o porquê voto em Marina. Logo eu, pagão, votar em uma evangélica. Logo eu, LGBT, votar em uma cristã. São tantas as perguntas que me fazem que votar em Marina Silva torna-se um tabu. É proibido!

Eu poderia me explicar dizendo que só voto em candidatas mulheres, como o faço desde minha primeira eleição; ou me explicar enaltecendo a importância da sustentabilidade não só para o mundo como para minha vivência e fé pessoal; ou poderia argumentar sobre sua infância enquanto analfabeta, sua origem enquanto seringueira, ou sua trajetória desde a vida de empregada doméstica à professora de história. Além do reconhecimento internacional por seus feitos enquanto Ministra do Meio Ambiente, é claro. Mas tudo isso você encontra em seu site oficial se estiver disposto a pesquisar.
Eu sou uma pessoa de tato. Na comunicação a gente estuda o poder dos meios. Analisamos os filtros e o poder das palavras. Mas hoje eu tive a oportunidade de ver Marina Silva em pessoa. Sem intermédio. Tive a experiência do tato. E apesar do encontro ter acabado antes que eu pudesse expressar meu desejo por uma pergunta final, voltei pra casa com ideias fortalecidas e novas perguntas a fazer.
O que eu vi foi uma mulher negra em um salão de pessoas brancas, com extrema simplicidade apesar da elegante camisa de linho, falar sobre a importância da cultura e da arte. Contar sobre a oportunidade de ser professora nesse país. E falar do sonho nunca alcançado de fazer mestrado. O recente incêndio no Museu Nacional fez essa mulher falar sobre memória, sobre discurso, sobre significados e significantes. Eu senti ali preenchido o conhecimento que eu pensei que perderia por abrir mão de uma noite de estudos quando decidi estar justamente ali.
Quando uma pergunta do público pedia a redução do estado para “equilibrar os abundantes privilégios” dos funcionários públicos ao nível dos funcionários da cadeia privada, vi essa mesma mulher defender o funcionarismo público, enaltecer os feitos daqueles que fazem muito com tão pouco investimento. Vi uma mulher falar com propriedade, afinal não é ela própria professora? “Nós precisamos prestar atenção em quem são os bodes expiatórios”, ela disse. Questionaram sobre a pasta da cultura: “os ministérios que fazem com que as pessoas pensem a si mesmos são os primeiros a serem cortados”. Não é interesse da hegemonia que pensemos a nossa própria existência.
Uma pergunta foi fatal: “Marina, você é mulher, é negra, da floresta… porque essas classes não votam em você?”. A resposta foi uma aula sobre a grande mídia, sobre os meios de comunicação, sobre acesso, oportunidades e a máxima freiriana de “nunca culpe a vítima pelo que lhe é imputado”. A Marina é uma Silva, a expressão máxima desse Brasil. Assim como Lula também é Silva e o rosto mais amado pelo povo. E essa Silva que é Marina enalteceu a inclusão social promovida pelos governos lulistas, reconheceu a contribuição do PSDB com o Plano Real ou mesmo o lugar do MDB no retorno do país à democrácia pós-ditadura. E ela mesma questiona “onde é que nos perdemos?”.
Nós vivemos em uma bagunça sem fim. O que impera é a histeria desesfreada de um discurso extremista que assola de norte a sul; um maquinário gigante no congresso com aprovassões sucessivas de medidas que massacram a classe trabalhadora desse país. Nós vivemos o caos mais latente da nossa recente história democrática.
E lá está Marina. Ela diz como não é considerada… as análises na mídia falam dos eloquentes candidatos, com posturas másculas, feições camaradas e engravatados, e quando lembram dizem que “e também tem a Marina”. Salvo alguns jornalistas que resistem em evidenciar a candidata que teve 22 milhões de votos na última eleição. Mas porquê considerariam uma mulher? Vimos ao longo de todo o Governo Dilma as propagandas vexatórias sobre a presidente, desde sua estética ao simples fato de ser mulher. E porquê considerariam então a única candidata mulher e negra dentre os presienciáveis mais pontuados na pesquisa? Não é a primeira vez que a grande mídia exprime a não-vontade por esse perfil. E porquê considerariam uma mulher, negra e nortista? Uma mulher, negra, nortista e professora…? Mulher, negra, nortista, professora e ambientalista? Mulher, negra, nortista, professora, ambientalista e ex empregada doméstica? São muitos os porquês.
Eu não vou dizer aqui o porquê voto em Marina, logo eu. Mas penso no porquê da afeição a ela, logo ela.
Eu não sou do político jeitão camarada, ou do imperativo, ou do cínico que tanto abraça criança quanto tira merenda. Eu gosto de pessoas de verdade. Não gosto de grito, gosto de conversa. Não gosto do desespero, mas da calma. Não gosto de sim ou não, mas de pensar caminhos. Eu gosto de olhar para as pessoas como humanas, olhar pro mundo e ver terra. Gosto de tocar em gente, falar com gente, de ser gente. Pra além de toda essa bagunça do capital. Eu gosto de ouvir alguém falar sobre a importância de ouvir. Eu gosto de ser lembrado da riqueza do diálogo, da beleza da troca, do ensino compartilhado onde a gente aprende quando ensina e vice versa. Eu gosto da sabedoria da mulher, da voz que elucida e corta qualquer imperativo quando diz: vamos pensar.
Para os problemas que temos atravessado, em todas as esferas da sociedade, não há respostas imediatas senão a predisposição a compreender. Se eu fosse cristão diria que estamos queimando no próprio mármore do inferno. Mas do lugar que falo penso que depois da sombra necessária vem um sopro de frescor pra lembrar que a luz está logo ali mais uma vez.
E justamente sobre um pagão, logo eu, me ligar a uma cristã, logo ela, disse eu mesmo quando Marina Silva chegou ao Galpão Gamboa no centro do Rio de Janeiro e cumprimentou um a um: “eu tenho uma fé muito diferente da sua, mas tenho fé também de que dessa vez vai dar tudo certo”.
Ela perguntou qual era minha fé, é claro. Eu disse. Ela sorriu e nos abraçamos.
Eu definitivamente quero uma professora presidindo esse país.

