Amor e umas metáforas
Eu nunca escrevi sobre a escrita, mas não consigo pensar em sequer um dos meus autores preferidos que não o tenham feito. Acho que qualquer um que, por uma razão ou outra, se apaixona pelo exercício masoquista de colocar letra após letra em uma folha de papel acaba falando sobre ela porque, em algum momento, você não tem mais nada sobre o que falar. E você precisa continuar escrevendo. Hoje, finalmente, olhando essa folha em branco — tão branca como minha mente — chegou a minha vez de mergulhar um pouco na metalinguagem.

E para falar da escrita, vou começar falando de monogamia. Estranho, concordo, mas peço que você me tolere por mais algumas linhas, mesmo que seja por pura condescendência — ler algo que odiamos às vezes é tão prazeroso quanto algo que nos agrada.
Uma pessoa que admiro me disse certa vez que quando um casal escolhe amar um ao outro, e somente um ao outro, pelo resto de suas vidas, o que estão escolhendo, mesmo que inconscientemente, é abrir mão de sentir novamente o melhor sentimento existente: o de se apaixonar. E o casamento seria nada mais do que o pomposo (e caro) ritual que celebra esse sacrifício, geralmente regado a muito champagne. Acredito existir uma beleza poética nesse argumento, e, talvez por isso, nunca consegui tirá-lo da cabeça; ou, quem sabe, seja simplesmente um bom argumento mesmo — não sei se você sabe, mas bons argumentos são contagiantes como sarna em um canil, e com certeza vão fazer você se coçar pelo resto da vida. Curiosamente, diferente do que esse tipo de ideia grudenta e incômoda costuma fazer comigo, não mudei de opinião sobre o casamento. Continuo com o desejo de um dia apertar a mão de um pobre pai que não quer entregar sua filha pra um cara com a barba do tamanho da minha, dizer meus votos e ganhar um anel novo e reluzente. O ponto pra mim nessa história toda de fidelidade é mudar o foco, ajustá-lo para fora da serenidade de um amor monogâmico e escolher apaixonar-se por outra coisa. Então, no auge da experiência desses meus vinte e dois anos, acredito ter encontrado o que é o antídoto perfeito para equivaler à paixão que muitos diriam que só uma moça (ou moço, vá lá) pode causar. A paixão por metáforas.
De novo, por favor não desista de mim. Vai ficar tudo bem, eu prometo. Vou tentar fazer com que isso faça algum sentido.
Uma metáfora nada mais é do que o uso de uma palavra em um sentido não muito usual, revelando um elo incomum entre dois termos. Se você lê com alguma frequência (e se você chegou até essa parte, mais de 400 palavras depois do título chamativo, imagino que leia) e com alguma seletividade (e se você está lendo um texto de um zé-ninguém como eu, talvez não seja seu caso) você definitivamente já se deparou com ela. A Metáfora. Com letra maiúscula mesmo. Aquela que te arrepia do dedo que está encostando no livro até o mais escondido fio do cabelo. Que faz as coisas parecerem ter se encaixado de uma forma que sempre deveriam se encaixar mas que jamais, em seu universo, haviam se encaixado antes. São essas as irremediavelmente apaixonantes.
Quando alguém aproxima duas ideias completamente distintas em sua cabeça — ideias que nunca pensaram em se encontrar para bater um papo, tomar um chopp e procurar uma semelhança, um interesse em comum — e as faz parecer indissolúveis, como se fosse impossível entender de que maneira você ainda não tinha juntado as duas e falado “tá aí, combinam direitinho!”, é então que a paixão acontece. Inevitável e imediata. Não tem como fugir dela — como uma flecha de um cupido (ou quem quer que seja o semideus do escritores). Quando acerta o alvo, a Metáfora é como se apaixonar à primeira vista. É não entender como sua vida toda fez sentido sem ela ali, como você era capaz de explicar o mundo sem a presença dela, sorrindo aquele sorriso besta e esperto (porque uma boa metáfora é, no mínimo, muito esperta, e uns poucos sortudos encontram algumas brilhantes) só para você — e, bem, para todos os outros que a lerem, mas vamos combinar que se você não tem sido literariamente monogâmico, e eu espero que não tenha, que obrigação tem essa jovem e sedutora metáfora de o ser?
Mas até agora falamos da leitura e não da escrita, como prometi lá em cima; porém, para isso, basta levar a Metáfora um passo adiante. Se lê-la é paixão à primeira vista, escrevê-la é trabalhar para conquistá-la, porque toda boa metáfora se faz de difícil. As fáceis estão aí, para qualquer um pegar— como as baratíssimas “correr como o vento” ou “dormir como uma pedra” — , assim como as completamente insanas — a pior que lembro de ter lido em algum lugar era algo como “a bailarina se movia graciosamente, esticando sua perna como um cão frente a um hidrante” — mas as boas (e, se você trabalhar muito, as excelentes) requerem jogo de cintura, uma boa lábia e, no fim, quando ela já está toda mole com o que você vem sussurrando no ouvido dela a noite toda, uma pegada forte. Escrever é seduzir; mas não seduzir o leitor. Escrever é seduzir as palavras certas para que encaixem da forma perfeita no seu texto. Uma vez conquistadas, o enorme prazer daquela pequena aventura chega e te inunda, mas, por favor não se engane, logo, logo passa. Então é hora de solta-las nas mãos de leitores cheios de apetite para que eles se apaixonem, se percam e até mesmo cometam pequenos e deliciosos pecados com as metáforas que você suou para conquistar — e simplesmente partir pra próxima. Sem ciúmes. Se quiser monogamia, meu amigo, sai da escrivaninha e volta para a cama da sua mulher.
p.s.: Talvez essa seja a minha preferida, pelo menos das que lembro assim, de cabeça. Leiam Khalil Gibran.
“Todas as palavras são como migalhas que caem do banquete da mente.”
Khalil Gibran