Carta ao filho que jamais terei

Calvin and Hobbes | Bill Watterson

Querido filho,

Como você vai? Faz tempo que não nos falamos, mas posso dizer com sinceridade que não se passa uma semana sem que eu pense em você. Meus vinte e poucos anos já não estão mais em seus primeiros dias, e, lentamente, vai chegando a época em que é esperado de nós, aqui no mundo real, a formação de uma família. Não sei se você, aí no platônico campo das ideias, sabe disso mas a maioria das pessoas acha que ter filhos é uma boa ideia. Por algum motivo, entretanto, lembro-me de já nos anos de minha pré-adolescência pensar com certo desinteresse no modelo familiar que nos é vendido por aqui: um pai, uma mãe e uns filhinhos sorridentes e saltitantes em volta, e essa sensação jamais deixou o meu lado. Das instituições sociais tradicionais, o casamento é a única pela qual fui atraído — nunca soube bem explicar o porquê — portanto, a paternidade acabou sendo marginalizada, mas, até então, de forma alguma negada. Só mais tarde isso mudaria e, como muitas outras mudanças em minha vida, tudo começou com um livro. Eventualmente, perto dos meus dezoito anos, entrei em contato com o trabalho de David Benatar e, consequentemente, com as ideias do antinatalismo, que moldaram de forma contundente a minha visão do assunto.

Sei que você nunca leu os livros dele — bem, na verdade sei que você nunca leu livro algum — então gostaria de explicar, de forma muito breve, do que essa filosofia trata. Ela nada mais é do que o conceito de que nós, humanos, devemos parar de procriar e de que ter filhos de forma consciente é imoral. Existem várias formas de chegar a essa conclusão — e caso um dia você venha a existir, sugiro que leia a obra de Benatar e também de Schopenhauer para uma boa explicação de todas elas— mas a que mais profundamente me toca é a que é chamada pelo autor de argumento “filantrópico” e que diz, em resumo, que a vida é repleta de sofrimento e então, por consequência, criar mais vida é imoral e expor desnecessariamente um ser humano à inevitáveis doses enormes de dor é injustificável. Obviamente existem tentativas de refutar essa ideia, como a afirmação de que a felicidade sobrepuja esse sofrimento — que pode ser respondida com diversos estudos mostrando a propensão humana ao otimismo, que nos leva a naturalmente subestimar o volume de tristeza que a vida oferece — , porém nenhuma que eu jamais tenha lido enfraqueceu o meu ponto de vista. Acredito, de forma sincera, que trazer um novo ser humano ao mundo é errado e deve ser evitado ao máximo. Infelizmente, essa é uma ideia muito pouco disseminada aqui na Terra. Peço que aqui não caia no erro, esse sim infelizmente tão comum, de achar que a preocupação antinatalista é de alguma forma niilista, como pode parecer a primeira vista. Muito pelo contrário, o antinatalismo se baseia em uma profunda preocupação com o valor das coisas reais, especialmente do sofrimento, ao invés de aceitar a ausência de qualquer valor em tudo.

Outro ponto, esse já bem diferente, que me levou a considerar seriamente negar-te a existência é a — mesmo que ínfima — possibilidade de que você tenha necessidades especiais. Sei bem como isso soa, mas antes de qualquer julgamento deixe-me explicar. O argumento ontológico, criado por Santo Anselmo e anos mais tarde reciclado por Descartes, defende a existência de deus partindo de um pressuposto que sempre considerei falso: o de que coisas existentes são mais perfeitas do que as não-existentes. Você não pode imaginar (literalmente) o quão perfeito você é não existindo, aí na minha imaginação, com todas as características que sempre sonhei, e sem defeito algum. Um dos maiores medos que tenho é que você se torne menos que perfeito aqui ao meu lado, e essa não-perfeição pode se manifestar nas mais diversas formas, desde um leve defeito de caráter — como mentir de vez em quando — quanto uma séria deformidade física ou mental. Enquanto o primeiro exemplo é banal (e mesmo assim não deixa de ser um degrau abaixo da perfeição), o último não poderia passar mais longe disso e não consigo, de forma nenhuma, me ver em momento algum de minha vida pronto para cuidar do que Cristovão Tezza chamou de ‘o filho eterno’, uma criança nascida com condições especiais que será, até a sua morte, dependente de seus pais. E penso que alguém que tem certeza de não ter a capacidade —seja ela física, psicológica ou emocional — de lidar com isso simplesmente não pode se arriscar a ser pai. Talvez, então, o melhor para você— e, de forma egoísta, reconheço, para mim — seja que você permaneça aí, ao lado de deus, junto aos não existentes.

Um dos poucos pontos que já fizeram minha convicção fraquejar foi a ideia de que o envelhecer ao lado somente de minha futura esposa soa solitário. Sinto, porém, que essa seja uma razão egoísta demais para trazer um ser humano à existência. Considerar a minha alegria em detrimento de todas as tristezas que você terá na vida é algo que me incomoda mais do que eu gostaria. Mesmo enquanto você mora no mundo teórico, meu amor por você é tão grande que mera sugestão do seu sofrimento — infelizmente tão inerente à vida humana — me faz desejar abrir mão de todo o prazer que sei que teria em te ver crescer (e, é claro, vestir a camisa 10 do Vasco). Tenho certeza, entretanto, de que também amarei mais do que é possível exprimir em palavras sua futura (possível) mãe e ela é, sem dúvida alguma, um fator que não pode ser desconsiderado nessa equação que pode, eventualmente, ter como resultado você. A infelicidade dela deve ser levada em alta conta aqui e pode ser que, dependendo de seus desejos e vontades, a maternidade seja predicado para o todo de sua felicidade e, consequentemente, da minha. Peço perdão com antecedência, os anseios de uma mulher sempre foram meu fraco — e tenho certeza de que, se um dia você puder olhar nos olhos da mulher certa, entenderá o que digo.

Como pode perceber, seu pai não é dos homens mais decididos — e talvez esse seja um bom conselho para lhe dar, o primeiro de muitos: ter certeza de tudo é sempre um erro (por favor, não deixe de notar a ironia). Não sei bem onde nos encontraremos da próxima vez. Pode ser que daqui a alguns anos você receba outra carta dessas aí onde está ou que, enquanto chora alto e incomoda a todos na maternidade, eu esteja te dizendo ‘olá’ e olhando em seus pequenos olhos pela primeira vez. Louis CK disse certa vez que tem muitos ideais e não vive por nenhum deles, e se um dia, apesar de tudo o que falei nessa carta, você me ouvir te desejando boas vindas a essa dura realidade que nos cerca aqui na terra dos vivos, essa frase possa ser aplicada também a mim. Só espero que você saiba que aí ou aqui, existindo ou não, você estará sempre cercado do maior amor que eu sou capaz de dar.

Com carinho,

Seu pai.