{ dolor }

Nada é eterno. Todas as metades são separadas no meio, fadadas ao inevitável fracasso, ao inevitável fim. A única coisa que sobra é a nostalgia — e às vezes, se o destino cooperar, um rancor se forma, blindando ambos de sentirem o verdadeiro baque, de se afundarem em uma depressão tão profunda que nem Johnny Cash teria sentido ao perder June Carter.

As pessoas progridem com a dor, mas nunca estão prontas para ela. Eu também não estava, mesmo sabendo que iria ser afetado por ela. Ainda me lembro de ver-te sentada ao pé da cama, brincando de enrolar teu cabelo e me olhando da maneira mais doce que eu poderia imaginar; mais do que isso: ainda consigo sentir tua presença, teu perfume impregnando o ambiente e segurando-me. Como você pôde? Como você ousou levantar subitamente, enquanto eu estava distraído, e virar-se contra mim? Sequer tive a oportunidade de ver você, que considerava ser meu anjo, transformar-se no pior de meus pesadelos.

Eu estava pronto. E você sabia disso. Você conseguia psicografar meus pensamentos a cada cigarro que fumávamos na janela, você conseguia entrar em minha mente sempre que assistíamos àqueles filmes independentes românticos que você tanto amava. Você sabia que eu já tinha ciência da efemeridade de nosso relacionamento. Mas você tirou proveito, você viu que, apesar de aceitar o término, não esperava que ele viesse de maneira tão rápida e dolorosa. Você acertou-me com fogo e enxofre da mesma maneira que os anjos fizeram com os habitantes de Sodoma e Gomorra — mas eu, por outro lado, não havia cometido os mais terríveis pecados contra ti… Não, nenhum além do distanciamento.

Segurei minhas lágrimas quando te avistei de longe na rua, dois meses depois de nosso fatídico término, senti-me como Álvaro de Campos ao fumar seu tabaco: imerso em um Universo sem ideais, sem expectativas e sem ilusões. O vazio existencial que me possuía fazia de mim a reencarnação de Nietzsche, a quem eu odiava com todas minhas forças.

Estou sozinho, submerso em um rancor tão poderoso que poderia encher todo o Oceano Atlântico. Ao mesmo tempo, a tal nostalgia me visita esporadicamente, junto de todas aquelas músicas pop-rock que costumávamos ouvir enquanto nos beijávamos de madrugada, fazendo os planos mais ilusórios e utópicos para o futuro. Um fim doloroso, mas previsível.