Da sequidão das relações humanas

Mateus Hecke
Sep 6, 2018 · 2 min read

Não sentir. Esquecer daquilo que foi bom. Chorar enquanto pensa essas palavras,, mas não sentir mais. Por tudo que se perdeu, por tudo que não volta mais. Por tudo que hoje causa dor agoniante. Por tudo que me faz chorar incansavelmente. Por tudo que me mergulha na solidão opaca. Por tudo que se desfez. Por tudo que se desgastou e ficou tão sensível que qualquer toque é um big bang. Por tudo que o coração clama e quer ter de volta. Por tudo, por toda a minha vida, por todas as lágrimas que eu derrubei e deixei de derrubar e todas as oportunidades que eu não soube fazer ouro. Por tudo aquilo que passou e causa essa sequidão desse deserto hoje. Por tudo aquilo que me faz deserto. Por toda a areia que eu preciso caminhar e todos os mares que eu já nadei. Pela morte e a vida que dividem a mesma moeda no risco da travessia. Pela morte de mim. Pelo nascimento do nada. Pelo lixo adornado com as minhas fétidas, podres e carniças vísceras. Por tudo aquilo que morreu mas não pode virar adubo por onde eu passei. Por toda a terra contaminada pela minha carne podre. Por todo o rastro viscoso e nojento que eu deixo. Por mim. Por todos à minha volta. Pelos seres que não são eu. Pelo meu egoísmo corrupto. Pelo meu descontrole. Pela minha agonia. Pelos meus gritos que machucam. Por toda a dor que eu já senti e todas as feridas que abertas fecham lutando contra bactérias que querem se instalar. Pelo cansaço da viagem exaustiva. Pelo calor e aridez que hoje são meus melhores parceiros traíras de poker. Pelo Sol, pela caminhada.

Sigo

Querendo não sentir