Não fomos feitos para o púlpito:

a obsolescência da timeline do Facebook

Na "vida real", nós manejamos nossas relações.

Pense por um instante em seu círculo real de amizades.

Você escolhe com quem sai. Você escolhe com quem vai almoçar. Você chama um amigo para uma cerveja e sabe que aquela menina, amiga dele com quem você quer conversar melhor, vai estar lá, mesmo sem terem combinado.

Planejamos bastante (pelo menos tentamos) nossas situações sociais. Sabemos que grupos nos deixam ansiosos, quais pessoas nos intimidam. Temos consciência de quem ficará sabendo se fizermos algo com determinada pessoa e qual a impressão que vamos causar com essa atitude. Temos noção muito clara de que grupos nos fazem sentir bem, com que pessoas ficamos à vontade.

Isso muitas vezes é só uma impressão: as pessoas reagem de maneiras que não previmos, alguns fatos chegam a pessoas que não imaginávamos, mas tentamos o tempo todo controlar os nossos relacionamentos.

O Facebook não segue essa (a nossa) lógica

A maior mídia social do mundo não foi desenhada para isso — e cada vez menos pessoas têm publicado lá, por se sentirem desconfortáveis e pressionadas. Só 10% publicam diariamente e uma pesquisa recente identificou que os super sharers estão irritando o usuário comum.

Nosso padrão de interação não é o púlpito: não funcionamos à base do broadcasting de mensagem o tempo todo, quando eu falo, não são centenas que ouvem. Nosso padrão é o um-pra-um e o controle sobre nossas relações.

http://www.youtube.com/watch?v=GaIQiJSluYo
O usuário médio deixa seus produtos digitais com as configurações de fábrica na maioria das vezes.

“Mas as configurações de privacidade” — o usuário médio deixa tudo que usa no default. Lembra do Nokia tune? Ninguém mudava o toque padrão, por isso foi tão marcante. Não dá para contar com que todos os usuários do Facebook criem grupos específicos para cada tipo de mensagem que compartilham, ou que configurem a privacidade de todas atualizações que publiquem.

Existem ambientes onde é possível manter o controle — no seu bolso

E então, o Facebook paga 19 bilhões no WhatsApp (logo após tentar comprar o Snapchat). Esse e outros aplicativos móveis de mensagens instantâneas são sucessos pois as pessoas querem se exibir e receber endosso social, mas querem controlar sua privacidade. Tranquilidade. São redes sociais móveis e com um nível de privacidade muito maior. A agenda de telefones é muito mais fácil de controlar que uma cambada de seguidores ou uma lista de amigos que a cada final de semana recebe um ou dois nomes novos.

O cidadão comum não quer ser julgado o tempo todo por uma plateia que adquiriu apelidos carinhosos como “recalcados” e “invejosas”. Preferimos controlar o fluxo de informações e os interlocutores com quem trocamos mensagens e opiniões.

É extremamente desgastante lidar com julgamentos aleatórios, haters, trolls, críticas e comentários maldosos o tempo todo. Não é tão fácil assim ignorar o “recalque”.

É importante destacar, no entanto, que isso não quer dizer que o Facebook irá desaparecer. É uma plataforma madura. Ele assumiu um papel de “super vitrine” mundial que permite consumir atualizações de amigos de diversas épocas e distâncias, interagir com personalidades e marcas queridas, consumir notícias e se divertir.

Mas não é a plataforma ideal para expressão pessoal. O WhatsApp tem um fluxo de uso tão insano porque o usuário calcula menos resultados sociais de suas interações lá dentro. Eu não preciso me mudar para Barcelona, ter um filho ou emitir uma super opinião para utilizá-lo. Não fico calculando se minha mensagem vai gerar likes.

E fica a missão para quem trabalha com comunicação. Como entrar no bolso do público de um jeito interessante, útil ou divertido?