Várias coisas sobre a aquisição do WhatsApp

Alguns pontos para entender a complexidade da transação


A aquisição do WhatsApp pelo Facebook foi muito comentada, e a minha impressão é que o buraco é muito mais embaixo do que estamos conseguindo ver por enquanto. O assunto é complexo, envolve fatores financeiros, de concorrência com as outras gigantes da tecnologia e da evolução de uma empresa que quer te oferecer muito mais que um site de relacionamentos. Levantei alguns pontos dessa complexidade, que se não forem de nada úteis, podem levantar algumas sombrancelhas boteco.

O Facebook adquiriu mais que uma startup: comprou capacidade intelectual

Lembra daquele cara que sua agência entrevistou, acabou não dando certo, foi para outra agência e hoje está fazendo um trabalho extremamente competente com sua equipe? Brian Acton, fundador do WhatsApp, era vice-presidente de engenharia do Yahoo! e em 2009 participou de um processo seletivo para trabalhar no Facebook, antes de começar a desenvolver o app. Resta agradecer ao RH que não o contratou pelos 19 bilhões alcançados.

https://twitter.com/brianacton/statuses/3109544383

É muito difícil encontrar empreendedores com a capacidade de gerenciar um produto desse tipo. O Facebook assume então a estratégia de comprar toda a empresa para poder contar com essa expertise. E para garantir o retorno desse investimento, 3 bilhões da negociação estão reservados para os atuais funcionários do WhatsApp se eles continuarem trabalhando lá por um determinado tempo. Um bom incentivo.

O Facebook está construindo um ecossistema de serviços e produtos com foco em mobile

Se você é usuário de Android provavelmente já tem uma ótima experiência com o ecossistema mobile do Google. Chrome, Gmail, Calendar, Maps, Hangout, Play Store, Drive.

Lembra da R/GA falando de integração funcional? O mesmo usuário consumindo mais de um produto ou serviço da minha empresa gasta cada vez mais dinheiro em meus produtos e forma uma base cada vez mais fidelizada.

Quanto mais tempo um usuário passa usando a maior variedade possível de produtos da mesma empresa, mais ele tem potencial de gerar receita.

A leitura estratégica do Facebook para isso é administrar produtos independentes, focados em features específicas. Já tem além do Facebook “Timeline” o Messenger, o Instagram, e agora o WhatsApp. Mas isso vai crescer. Imagina gerenciar seus eventos em um app do Facebook Events. Ou buscar um lugar para jantar em tempo real, na rua, usando o Graph Search. Para os usuários é bom — muito mais fácil usar um aplicativo focado em uma feature que um elefante como é o Facebook mobile hoje — e para a empresa é melhor, pois aumenta o envolvimento de cada usuário com produtos desenvolvidos por ela.

O Facebook inventou dinheiro para comprar o WhatsApp

O Facebook terminou o ano passado extremamente valorizado, avaliado em 150 bilhões de dólares. Faz todo sentido então usar ações para executar grandes investimentos, como na compra do WhatsApp — foram entre 3 e 4 bilhões em dinheiro e o restante foram ações emitidas do Facebook, trocadas por ações do WhatsApp. Vale ler o texto do Comparação de Fundos que discorre sobre isso.

Ou seja, os Zuckbucks usados para comprar o WhatsApp são uma aposta por enquanto: se o Facebook melhorar seus resultados esse ano, os shareholders ficarão felizes e mais ricos; se os resultados piorarem, o Facebook terá pago menos pelo WhatsApp.

O WhatsApp não vai ter anúncios (pelo menos por um tempo)

A maioria das startups sociais de maior sucesso até hoje cresceram com estratégias que focaram primeiro em construir uma base de público frequente e valiosa antes de criar formatos publicitários: YouTube, Twitter, Instagram, Snapchat e o próprio WhatsApp são exemplos disso. Jan Koum, co-fundador do WhatsApp prometeu que nada vai mudar para os usuários e Zuckerberg já apontou que o foco agora é em aumentar o número de usuários, ganhando relevância entre uma competição altamente fragmentada e em mercados em que o Messenger e o Facebook não fazem tanto sucesso.

“Mas porque pagou tão caro se não vai ganhar dinheiro?”. A complexidade: pagou pela equipe altamente qualificada, pagou por 450 milhões de usuários mensais e 300 milhões diários e pagou para sair na frente do Google e da Apple e fazer frente à TenCent — gigante chinesa dona do WeChat e do QQ, app de mensagens instantâneas que tem mais de 800MM de usuários.

Como as pessoas usam o WhatsApp tem muito a ver com suas campanhas digitais

O WhatsApp tem alcance e frequência de uso. Isso significa que as pessoas vão até ele espontaneamente, e mais de uma vez — o que é bem parecido com a taxa de Returning Visitors e visitas por usuário de um site de marca ou campanha digital. Perceber o crescimento constante de tráfego no app, a média de tempo gasto por dia e a taxa de conversão para a “fase paga” de uso do WhatsApp é de brilhar os olhos de qualquer um que já tenha acompanhado os resultados de uma campanha digital.

Zuckerberg quer conectar o mundo inteiro com celulares e Internet rápida (faltam dois terços)

Ousado, o projeto Internet.ORG é a menina dos olhos de Zuckerberg. É uma iniciativa nobre e é estrategicamente perfeita: uma associação de empresas e iniciativas com o objetivo de levar o acesso à internet aos dois terços da população mundial que ainda não tem. Para alcançar isso, as metas são abaixar o custo do acesso à internet e diminuir o tamanho dos dados a serem trafegados. E trafegar montanhas de dados da maneira mais rápida e leve possível é a especialidade do WhatsApp.

http://www.youtube.com/watch?v=NdWaZkvAJfM

O Facebook está se prontificando a criar mercado para consumir uma série de produtos extremamente afiados e testados em diversos mercados, e ao mesmo tempo ter um papel crucial para as economias dos países em desenvolvimento. O projeto tem foco em mobile e se apoia no papel econômico da Internet — a ”espinha dorsal da economia do conhecimento”. Mais um bom motivo para possuir um dos melhores aplicativos de mensagens móveis do mundo.