Você não tem falado muito, Jorge. Tá tudo bem? 
O menino uniu seus joelhos por baixo da mesa e sentiu um cubo de gelo se formar nas suas entranhas. Juntou um forte fôlego nos pulmões aquecendo o ar antes de responder. Sim, inaudível. Secou as mãos na calça sobre o joelho e a testa no antebraço. O nervosismo lhe fazia tremer e o suor irradiava por toda a pele. Voltou a pegar o talher sem tirar os olhos do atum sobre a mesa. Sentia as gotas escorrendo pelas axilas, nuca e buço. A barriga encharcada sob os gulosos olhos de seus pais. Tudo bem. Se algum dia quiser conversar, estamos aqui. Silêncio. O silêncio trouxe o peso de Atlas sobre o corpo do garoto, liberando-o para as manifestações de domínio mental. Sentiu o suor lhe tomar toda a face até umedecer suas pálpebras e o calor de seus olhos jorrarem toda a água para fora. Seus pais o fitavam sem entender a reação desesperada. Um misto de tristeza e estranheza dividiam suas análises, mas preferiram optar pelo silêncio. O filho é que tinha que falar. Nada. Por longas dezenas de segundos os três sentados na mesa evitavam se olhar. Um certo nível de telepatia entre a família começava a se desenvolver conforme o choro numa crescente dominava a atmosfera da sala. Quando o desconforto já espremia os pais, ameaçando-lhes arrancar uma expressão de sentimento, Jorge parou de súbito e questionou em um tom habitual de quem pede um café. Eu só não entendo o sentido de tudo isso.

A tontura se transferiu aos pais, sentindo-se patinando sobre um vórtice temporal gerado pelo intervalo entre suas gerações. O suor lhes atingiu de tal maneira que as primeiras frases imaginadas saíram sob a forma de gemidos, balbuciando fonemas entre os inseguros dentes. A mãe buscou o equilíbrio para se colocar de pé no furacão que a consumia, reunindo por completo a sua concentração no seu maxilar. No espaço oscilante reuniu suas melhores e mais precisas palavras, soltando-as na exata altura necessária para se fazer ouvida: “Eu também não sei, mas fico feliz que esteja com você”.

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