A Estranha New Age de Dr. Estranho

Dr. Estranho é uma imensa exposição do Instagram daquelas sirigaitas que se passam por good vibes.

Já era bem previsível que isso fosse acontecer, devido à putaria orientalesca presente nos trailers. Claro, sabemos que isso não é fruto apenas do personagem no cinema, o próprio quadrinho já ilustra esse elemento. Fazendo uma pesquisa rápida, você percebe que o primeiro registro do super-herói foi em 1963, tempo em que a ideologia da Nova Era estava explodindo no mundo inteiro.

Basicamente, essa ideologia consiste n’uma espécie de reverência ao Universo, na idéia de que a saúde é a verdadeira virtude, e que ela traduz uma harmonia com a natureza. O dilema do personagem no filme começa aí, quando ele se vê fisicamente debilitado, dado a sua arrogância e também devidos às circunstâncias das construções sociais ocidentais.

Tudo não passa, evidentemente, de uma tentativa de mudança do transcendente para o imanente. Isto é, você degola Deus para dizer que as leis da natureza é que são os verdadeiros reguladores da realidade: não há salvação divina, há apenas o equilíbrio com a natureza; não há céu e inferno, há apenas energias positivas e energias negativas.

Todos esses elementos estão muito presentes na própria figura do Dr. Estranho, que é um médico, alguém que cuida da saúde das pessoas. Se antes ele trabalhava apenas salvando vidas no plano forjado pelos humanos, agora ele também salva vidas na realidade alternativa -e, para o filme, verdadeira- onde se pode enxergar as engrenagens do Universo.

Caso ainda não esteja claro, cito um exemplo clássico de imbecis da New Age: os hippies. Todos eles acreditavam que o LSD era uma espécie de passaporte para a experiência mística e verdadeira. Nesse vai e vem, o que sobra é a simples constatação de que a realidade mesma, diante de tantas variações, talvez não exista. Ou ainda: que haja um deslumbramento tão vertiginoso com “o outro lado”, que se acredite piamente que a realidade inteira foi dominada/descoberta por você.

Pra quem pensa que a merda é pouca, devo lembrar ainda na New Age existe a idéia de patriarcado como uma espécie de descontinuidade no equilíbrio. Isto é, há um domínio do ser humano (masculino) sobre a natureza (feminino) -lembram do mito de Gaia, da Mãe-Terra? Há também um domínio da razão (masculino) sobre a intuição (feminino). Tudo convergindo para a idéia de que o homem exerce uma opressão sobre a mulher.

No filme mesmo temos que o Mestre -faculdade mais ligada à razão- é uma mulher -geralmente mais intuitiva-, imediatamente causando uma confusão no instinto masculino/racional do protagonista, que, sempre mostrado como arrogante, tenta se apegar ao que lhe parece razoável -no caso dele, o apego à ciência, que ainda é um costume New Age, sendo assim, seja para onde formos, estamos dentro da redoma ideológica do filme.

Se, por um lado, o ditado diz que todos os caminhos levam à Roma, por outro, a New Age deixa claro que todos os seus caminhos levam ao Inferno mesmo.

Ao final, Dr. Estranho consegue entender as realidades alternativas, dominar força da natureza e derrotar o chefe supremo e atemporal (Deus?) com sua capacidade de dominar o tempo -tal como prometido pelos gurus da New Age-, tudo isso com uma pirotecnia psicodélica exagerada, como é bem característico desse meio pseudo-cultural.

Filme divertido, porém extremamente cretino e cheio de sugestões que reforçam no senso comum das pessoas algo falso e pervertido. Cuidado ao se expor a esse tipo de filme, sobretudo os mais jovens.