12/05/2016 — Crianças e Filtros Emocionais
Crianças são seres puros. Existe a teoria do empirismo do John Locke. Dela, surgiu aquilo de "a criança ser uma página em branco", na qual vão sendo escritas coisas de acordo com as experiências que a pessoa vai vivendo. Ou algo assim. Por serem puros e por estarem aprendendo aqueles princípios básicos do que é o bem e o mal, o certo e o errado, Team Captain America ou Team Iron Man, biscoito ou bolacha, acredito que crianças também são ótimas julgadoras de caráter.
Isso me leva a outra frase que eu li em outro lugar:
"Se você tem um problema filosófico ou um dilema ético de certo ou errado nas mãos, traga uma criança. Ela saberá o que fazer."
Por isso, quando uma criança fica magoada com você, é válido prestar atenção no que você fez de errado.
Veja bem, não estou falando pra você fazer uma autorreflexão toda vez que você deixar seu filho de castigo por ter feito algo errado. Meu exemplo é da época em que namorei Suzana por uns 4 meses. Um tempo depois de terminarmos, tempos sem vê-la e sem ver Pedro (filhinho dela), eu os reencontro em uma lanchonete com amigos. E Pedro me rejeita. De uma maneira que nunca tinha visto antes uma criança rejeitar alguém. Ofereci um "E aí, cara?" e ele não respondeu, e virou a cara. Eu consegui sentir o desprezo nos olhos dele. E me senti horrível naquela noite.
Tudo bem, não foi 100% minha culpa não ter dado certo com Suzana. E Pedro não teve nada a ver com a história. Eu gostava muito dos dois. O fato de eu ter criando um vínculo com Pedro e, de uma hora pra outra ter simplesmente parado de vê-lo acabou por magoá-lo. E isso me fez sentir uma tristeza e insatisfação comigo mesmo e com meu comportamento. Porque crianças sabem das coisas. Podemos nos enganar e rotulá-las ingênuas, mas garanto que elas estão muito mais em contato com os sentimentos delas que qualquer adulto que eu conheça.
Quantas vezes você esteve naqueles dias em que nada dá certo, aí você dá aquela tropeçada e derruba seus livros no chão e a vontade de gritar/xingar/chorar/desesperar/abrir o berreiro é gigante? Mas você se cala. Nós nos calamos. Eu sinto falta da época em que ainda não tinha comprado meu filtro emocional. Que, aliás, de tempos em tempos, todos precisamos comprar um novo de acordo com nossa (matur)idade. Caso contrário, pareceríamos bobos em meio a nossos amigos adequados.
Meus amigos e eu todos estamos com nossos filtros um pouco atrasados de acordo com o que dita a televisão/internet/sociedade. Fica melhor assim, na minha opinião. Mas é inevitável a atualização. Teve UM garoto que eu acho que nunca trocou o filtro depois de um tempo. Pedro Pan? Pietro Pan? Não lembro. Mas é só uma lenda.
Existem ainda aquelas pessoas que correm, esperam dias na fila (da Apple, ops!) para conseguir o novo filtro. Querem porque querem ter a nova versão do filtro o mais rápido possível. Essas pessoas são extremamente maduras e extremamente chatas, e muito provavelmente falecerão bem antes de morrer. Lá pra frente, quando tiverem seus 80/90/100 anos, vão olhar os antigos modelos de filtro e vão querer voltar para aproveitar melhor essas antiguidades, com os olhos cheios de nostalgia.
Aprenda com o passado, viva no presente e pense de vez em quando no futuro. Porque nós não morremos no passado, nem no futuro. Morremos sempre no presente. E é nele que temos que viver também. Meio irônico, não? A vida é cheia de ironias que nos fazem dar aquela risadinha e soltar aquele "huh" em tom de aceitação misturado com contemplação. Aprenda a conviver com a ironia da vida. É uma das várias belezas de estar vivo.