CARTA AOS MEUS AMORES EM TEMPOS DE AMEAÇA

Apesar do perigo do mundo, há que respirar porque para nós viver sempre foi resistir. Diz a princesa que há muito quebrou as correntes, mas nas ruas ainda nos amarram olhares tortos, já que não podem mais prender nossos cabelos. Seguem desafiando nossa re-existência fora dos armários e se, por acaso, nossa voz exclama: “liberdade!”, inventam cura para o que nunca foi doença. Se porventura, almejamos descobrir a imensidão para além da cozinha e ousamos respirar fora dos espartilhos, nos chamam de bruxas, tentam roubar nossos grimórios e planejam nos queimar em fogueiras… Pouco mudou, meu amor, você sabe…

Na opacidade desse “tempo de depuração”, a vida parece seguir imitando o passado, pois veja o nosso estado: eles querem tornar as esquinas perigosas como naquela época em que gargantas corajosas viviam presas por entre grades.

É preciso cuidado, é preciso mãos dadas e, mais ainda, meu amor, é preciso coragem, porque se nossos pais não obedeceram, também nós não nos curvaremos à ordem ilógica daquela mesma vida que costumava agonizar nas ditas-duras armas de velhos generais.

Viver continua sendo melhor que sonhar e o amor permanece sendo uma coisa boa, pena que #EleNão sabe. Apesar de nossos algozes, ainda somos os mesmos e vivemos, resistindo, respirando até que na parede de nossas memórias as lembranças não se multipliquem como quadros de dor.